terça-feira, 11 de junho de 2013

SEQUENCIA 1

11/06/2013


        Ainda bem que hoje não está com cara de que vai chover...

Dito e feito. Cheguei no consultório as cinco e cinquenta. Apesar de ter chegado em cima da hora, ainda tive de esperar mais de quarenta minutos.

Engraçado como essa é uma das situações que por mais que atrase  e por mais impaciente que voce fique , na hora que o médico o chama, o mau humor cessa imediatamente e você entra no consultorio sorrindo, como se tudo tivesse ocorrido como programado.

A sala de espera estava cheia e não parava de chegar gente. O consultorio ficava em uma casinha geminada, onde ele e mais  alguns médicos de especialidades diversas, clinicavam.

        Sr. Roberto, por favor deixe-me ver a carteirinha do convenio e um documento de identidade co foto.

Após conferir os dados e com certeza se a mensalidade estava paga ela pediu para que eu subisse ao consultorio numero 6. Quem me atenderia era o Dr. Angelo

A porta estava entreaberta  e ouvi alguém me chamar do outro lado.

        Pode entrar....

        Com licença, Boa tarde, Dr

Sem levantar  cabeça enquanto escrevia algo, respondeu:

-Boa tarde. O que está acontecendo com o Sr?

Expliquei detalhadamente os meus sintomas e entreguei o Rx.

        Tire a atadura por favor.

Enquanto eu tirava a tadura ele observava o Rx.

        Esta um pouco inchado e dolorido.

Ele olhou, apalpou e pediu para que eu efetuasse alguns movimentos.

        O Sr sofreu algum trauma nessa mão?

        Não....

        Controla Diabetes?

        Até o ano passado, no ultimo exame de sangue que fiz, não tinha nada alterado.

        Nunca tinha visto algo parecido. Vamos fazer uma Ressonancia Magnetica e refazer os exames de sangue. Os ossos estão perfeitos. As unhas se deslocaram., como se tivessem sido puxadas. Vou lhe receitar um outro analgesico e continue com a mão imobilizada.

A consulta não durou mais de 15 minutos, isso por que o meu caso era novidade para ele, senão teria durado 10 minutos. Médico de convênio é isso. Ganha no volume atendido.

Peguei a receita e o pedido de exame e apressei-me em ir embora pois ainda teria que parar em algum mercado para comprar o vinho para jantar no Hans.

Liguei para confirmar o evento:

        Ola Hans. O jantar ainda ta de pé?

        Já estou preparando tudo. Vai demorar?

        Acho que mais meia hora....Vou comprar o vinho.

        Tranquilo. Vou começar a fazer as maças do amorrrrrrrr....

        Capricha...rs...abraço!

        Parei em um supermercado perto de casa, na Gastão Vidigal, perto do Ceasa e na minha total ignorância em comprar bebida alcoolica escolhi um vinho com um preço, que na minha opinião, era justo. Um vinho tinto italiano.

Consegui chegar no tempo previsto e fui recepcionado pelo Hans vestindo um avental branco com uma pimenta vermelha enorme estampada e o pano de prato pendurado no ombro.

        Vamos entrando.....

        Mas... o que aconteceu com a sua mão?

        Lembra daqueles repuxões?Pois é....

        Vamos para a cozinha. Lá você me conta.

        Hummm, o cheiro esta bom.     

 -          Trouxe o seu vinho?

        Meu vinho? Voce não vai beber?

        Nunca fui chegado em vinho. Prefiro uma cerveja ou uma birita.

        Não sabia disso.

        Precisa saber mais a meu respeito.

        O que sei, já me basta. Limpou a cozinha??

        Passei um pano e tirei algumas formigas que estavam dentro do meu açucareiro.

        Que progresso!

        Abre a geladeira. Eu preparei um tira gosto. Tenho que ficar mexendo a panela.

        Ora, ora....você quem fez essa beringela?

        Deu trabalhão, portanto coma sem reclamar. O azeite está no armário aí do lado e cuidado com a Clementina.

        Clementina?

        A minha baratinha de estimação. Ela mora atrás da lata de azeite.

        Ah, ta...vou bater, antes de abrir a porta.

        Isso...rs. Me fale a respeito da sua mão.

        Fui ao médico e não soube me dizer o que está acontecendo. Minhas unhas quase foram arrancadas. Doeu horrores. Tenho que fazer alguns exames.

        Então piorou desde a última vez que saímos?

        Muito.

        Hans ficou em silencio por alguns segundos e depois disse:

        Como está a berinjela?

        Muito boa.Voce parece que aperfeiçoou os seus dotes culinários. Não tem pão?

        Adotei a cozinha como terapia . Eu não como pão. A cozinha não é um lugar que você aprecia muito, né?

        Ah, não...estou contratando até uma empregada para cozinhar  para mim. Cansei de esquentar comida no microondas.

        Mas, o que  voce fez além do risoto?

        Fiz uma carne de cordeiro assada. Receita muito antiga, italiana.

        Já vi que vou passar bem. O vinho também é italiano....

        Cuidado, gula é pecado....se bem que  nessa casa, ela  corre solta...rs.

Falou isso e experimentou o risoto na palma da mão.

        Ok, já está no ponto. Vamos papar.

Enquanto Hans passava o risoto e a carne para as devidas travessas, eu procurava um saca rolhas.

        Voce tem taça para vinho?

        Não. Sabe o que eu lembrei? Esqueci de botar a mesa...

        Deixe para la...rs....vamos almoçar no estilo americano.



Fomos para a sala de tv, cada um carregando o seu prato. Aproximei-me da janela para apreciar a vista que não era das melhores. O Cemitério da Vila Madalena. Se eu colocasse a cabeça mais para fora da janela, podia ver um pedaço da rua dos bares, a Ignacio Pereira da Rocha..

-Tinha-me esquecido  da vista da sua janela, Hans..

        É a inspiração para  o meu trabalho....sente-se. Como vai o seu novo cargo?

        Meio chato. Muita burocracia, pouca ação, passo a maior parte do tempo dentro do escritório falando ao telefone e olhando para o quadro.

        Que quadro?

        O meu chefe tirou da sala dele um quadro de três crianças sentadas em uma rua de pedras e colocou na parede em frente a minha mesa..

        Sei....Quando terminarmos vamos ao meu escritório quero te mostrar meu novo PC.

_ Hans, você se superou nesses dois pratos. Pena que voce não goste de vinho. Escolhi a dedo este.rs

-Modestia a parte ficou melhor do que eu imaginava e vinho e coisa de missa....rs. Está dando para comer só com uma mão?

-Ja me acostumei e esse cordeiro está bem mole, da para cortar no garfo.

        Cordeiro geralmente é mole...E o médico não desconfia de nada que possa ter causado esse problema ?

        A  princípio pensou que fosse algum trauma ou diabetes, mas não aconteceu nada e não tenho diabetes  aí, pediu para fazer alguns exames e voltar com os resultados.

        Fora isso, a vida esta normal?

        Nada. Tem acontecido muitas coisa estranhas, coisa que você dará risadas se seu contar.

        Estou com vontade de rir...me conte....

        Tenho ouvido passos, coisas se arrastando em casa e no escritório. Aquele quadro que eu comentei, estava completamente torto na parede  outro dia, sendo que a minha sala estava trancada na minha ausência.

        Essas coisas acontecem à noite ou de  dia?

        Sem horário...

        Tem rezado o pai nosso antes de dormir?rs.

        Estou falando sério Hans. Aí fico associando com o que aquela vidente disse a respeito de haver uma entidade dentro de mim.

        Você falou que ela pediu para que voltasse lá....

        Não sei se devo ficar alimentando isso.

        Ora, Beto....não está curioso? Você acredita em sere do além?

        Sim, mas não a ponto de querer ouvi-los ou vê-los....

        Pode ser que , por algum motivo, agora,  eles queiram que você saiba da presença deles ..

        O que é isso Hans, uma segunda parte de “sexto sentido”?rs

        Quem sabe os sintomas inexplicáveis com a  sua mão seja o inicio de um contato?

        Não estou entendendo nada e você está me botando medo. Aliás desde quando você tem essas crenças em fantasmas e afins? Sempre achei você fosse ateu...rs

        Posso te afirmar que, se existe alguém que acredita na existência de Deus, esse alguém sou eu..

        Desconhecia esse seu lado espiritual.... Você acha que eu deveria voltar na cartomante?

        Ora, eu iria querer escutar mais.

        Que tal ir comigo? Amanhã, antes do almoço?

        Uma diversão para o Sábado de manhã...eu topo!

        Quer mais risoto?

        Na verdade quero um pouco mais dos dois....

        Eu acho que quem o  está assombrando é Biemô....rs.  Trate de beber esse vinho, senão ele vai  ralo abaixo.

        Não vou beber a garrafa inteira. Levo de volta para casa.E que é Biemô?

        É o demônio da gula...rs

Após me empanturrar  de comida, Hans me levou ao seu quarto. Ao abrir a porta, deparei-me com uma cena, digamos, macabra.

Grande parte das paredes do quarto, estavam cobertas com impressões em papel, dos trabalhos que Hans já havia feito. Dezenas de imagens de pessoas posando, como mortas dentro dos esquifes.

        Meu Deus Hans..Como voce consegue dormir aqui?

        Ué, não posso ficar incomodado com o meu trabalho e eu só penduro na parede aqueles que já morreram.

        Pior ainda....

        Os artistas fazem quadros para serem pendurados...Eu faço meu trabalho e gosto de pendura-los. Mas sente ai. Veja que bela máquina eu comprei.

Ele começou a me mostrar o computador e toda  a tecnologia que ele oferecia e repidez de processamento, porém aquelas imagens nas paredes, estavam me prendendo mais a atenção e de certo modo, me incomodando. Não estava me sentindo bem lá dentro.

No meio das explicações, eu o interrompi.

        Hans, vamos sair daqui.

        O que foi?

        Não estou me sentindo bem...

        Será que foi a comida?

        Não é a comida....vamos sair.

        Ok...

        Vamos para a cozinha, vou te ajudar com a louça.

        Deixe para lá. Te convidei para jantar e não para lavar louça. Vamos descer e dar uma volta a pé. Os bares a essa hora estão começando a encher. Podemos tomar um café em um deles que eu conheço.Moças interessantes o frequentam

        Ok. Vamos.

Na realidade eu estava dando graças a Deus de poder sair dali, após a visita ao quarto.

Já tinha passado das dez e meia e caminhávamos pela Inácio, vendo o transito na rua começando a se complicar por conta do fluxo de carros e dos manobristas que paravam o trânsito para embarcar o desembarcar os clientes dos bares.

Estava uma noite agradável, sem sinais de chuva, o que atraía o paulistano às ruas.

        Você costuma frequentar esses bares, Hans?

        Não. A maioria tem música ao vivo ou Karaoke e eu odeio barulheira. Vou, as vezes, em um ou outro para tomar café e ler o jornal. Mas são lugares sossegados. .

Chegamos em um cafeteria, onde  o movimento era somente de pessoas que queriam tomar um café, comer um pão de queijo, ler um jornal ou uma revista oferecidos pelo lugar.

        Venho aqui eventualmente – comentou Hans.

Sentamos em uma mesa perto da janela que dava vista para a  rua.

- Está ansioso para este Domingo?

        Para falar a verdade estou. Me sinto um adolescente indo para o seu primeiro encontro.rs

        Quanto tempo faz que você  não sai com uma moçoila?

        Ah... já tem um tempão...

        Bom, eu tentei te ajudar...rs

        Não curto essa putaria que voce faz. Prefiro conhecer a pessoa, conversar, me sentir atraído.

        Você é do tipo romantico?

        Acho que sim..rs.

        Você ainda acredita no amor?

        Hans, o dia em que o amor acabar, vai ser o dia em que Deus não mais existirá. E não acho que  ele vai simplesmente deixar de existir.  Eu acredito em um equilíbrio onde amor e ódio devem existir simultaneamente. Um não existe sem o outro.

        Sim, o positivo e o negativo. Mas concorda que sempre haverá a disputa entre os dois?

        É inevitavel. O Diabo sempre tentará assumir a portaria do Paraíso...rs

        Acha que ele conseguirá?

        Segundo dizem, não....Mas do jeito que a humanidade está indo, acho que essa possibilidade não pode ser decartada. O ser humano está agredindo demais a si mesmo e o mundo em que vive. Deus não deve estar nada contente e não acho que o Diabo tenha nada a ver com isso.

        Não?

        Não...a degradação humana  é  conseqüência da falta de equilíbrio. O homem já não respeita nem a Deus nem ao Diabo. Virou uma baderna. Está tudo no limbo.

Hans me encarou sem falar nada.

- Ficou preocupado?Perguntei.

- É o que você acha? Perguntou-me.

- É....

Neste instante ouve-se três estampidos e gritaria  fora da cafeteria. Pagamos a conta e saímos até a calçada e a uns 50metros a frente, no semáforo, já havia uma aglomeração de pessoas em volta de um veiculo que estava parado, provavelmente a causa do alvoroço..

Ao chegarmos perto já se escutava os comentários.

        Eram em dois em cima de uma motocicleta...

Quando chegamos junto à porta do motorista, via-se  um jovem de não mais de 20 anos, desacordado, caído no banco do passageiro. No asfalto, o vidro que fora estilhaçado provavelmente pelos tiros escutados por nós.

        Já chamaram o resgate? - Perguntou alguém.

        Eu vi tudo. Pediram o relógio e o rapaz tentou arrancat com o carro. O garupa atirou três vezes. – Comentou um segurança de um dos bares.

        Está vendo Hans? Quantas vezes voce acha que isso acontece, por dia, no mundo?

Em silêncio, Hans observava a movimentação em volta do carro.

Cheguei perto da janela e Dava para se ver uma enorme quantidade de sangue que escorria pela lateral da cabeça do jovem e escorria pela camisa branca, sujando o banco do carro de tecido claro, o que destacava mais ainda a cena horrível.

        Esse já era...- Disse Hans.

        Como você sabe? O resgate ainda não chegou....

        Vai por mim. Já era.

        Que pessimismo....

        Vamos voltar para a minha casa? Quero fumar e deixei o cachimbo lá.

Ainda estava perplexo com a cena e não respondi de imediato. Não conseguia parar de olhar o jovem dentro do carro e acho que Hans tinha razão, pois em nenhum momento vi aquela pessoa sequer se mecher .

- Beto.....

        Sim, o que?

        Vamos voltar para casa. Quero fumar.

        Ok, ok....Não quero mais ir ao seu quarto.

        Certo...rs...

Ao chegarmos ao seu prédio, ouvia-se uma sirene que provavelmente deveria ser do resgate.

-Chegaram, até que rápido.

-Viagem perdida- Retrucou Hans.

Lá pelas duas horas da manhã despedi-me. Se deixasse, varava-mos a noite papeando.

        Acabou tomando a garrafa inteira do vinho, hein?rs....

        Pois é. A gente foi conversando e eu fui secando a garrafa...

        Quer ir de taxi?

        Não... estou bem. Um pouco sonolento, mas bem... Amanhã as onze?

        Estarei lá e cuidado nos sinais....

Ao chegar em casa, no hall de entrada do apartamento, mais uma vez escutava a tv do Seu Djalma.

        Acho que ele perdeu a noção de volume e de horário..

Quando eu fechava a porta de casa pouco se escutava de dentro do apartamento, muito menos se estivesse  no meu quarto, por isso não me incomodava. Só achei fora do habitual ele estar vendo tv aquela  hora. Com o passar do tempo você acaba conhecendo os hábitos dos seus vizinhos e esse não era um hábito do seu Djalma.

 Eu estava baqueado por conta do vinho. Só deu tempo de tirar a roupa e cair na cama. Apaguei.

Acordei com o meu celular tocando. Olhei no rádio relogio e eram onze e dez da manhã.

        Caspita....perdi a hora.

Atendi o telefone e era o Hans que estava lá embaixo, me esperando.

        E ai?

        Eu me atrasei...sobe.

        Não eu te espero aqui embaixo. Acabei de acender o cachimbo.

Tomei um banho rapido, vesti-me e em 20 minutos estava no térreo.

        Cheguei.

        Ah..a bela adormecida embriagada.....

        É.. exagerei ontem.

        Lembra onde deixou o seu carro?rs

        Também eu não estava desse jeito...Deixe seu carro estacionado. Vamos a pé. É aqui perto.

        O Sr é quem manda.....e depois?Onde vamos almoçar?

        Vamos lá no Shooping Villa Lobos.

        Chic...

        Topas tomar um café no boteco? na pressa, não tomei e nem comi nada.

Entramos no boteco na esquina da rua do meu prédio e lá, também, o dono era português. Por que será que português gosta tanto de  padaria e boteco?

Tomei um pingado com um pão na chapa e Hans, com muita coragem, comia uma coxinha.

        Quer uma mordida? Está boa....falta pimentinha...

        Você é louco de comer isso....

        O que não mata, engorda...

        O problema são os sintomas antes da morte...

        Está muito boa para estar estragada.

SaÍmos do boteco e chegamos à casinha. Toquei a campainha e novamente veio o moleque abrir a porta.

18/06/2013



        Entrem. Vou chamar a minha avó.

E lÁ se foi casa a dentro gritando pela avó.
Hans começou a gemer e se apoiou na parede com uma das mãos.
        Tudo bem Hans?
        Esse cheiro de rosas....me da enjôo....
        Da outra vez tinha o mesmo cheiro. Esse enjôo deve ser da coxinha...
- Nada, a coxinha tava boa.
A velhota apareceu com o mesmo traje da outra vez e pediu para que a acompanhassemos a outra sala.
Sentamos na mesa.
        Pensei que você não iria voltar.
        Lembra-se de mim?
        Lembro-me. Por sua causa tive que comprar novos búzios.
        Por minha causa?
        Na realidade não sei se foi você, ou se aqueles buzios já estavam bem carregados....sei lá. Mas foi bom que voltou. E você, é parente ou amigo?
        Um velho amigo, quase parente...
Ela ficou fitando Hans e só desviou o olhar quando eu a chamei.
        Vamos começar?
        Hã? Vamos, vamos...desculpe.
O visual era o mesmo da primeira vez. A mesma  bandeja redonda  coberta com um pano branco no centro da mesa,  o relógio na parede...
Ela puxou a bandeja,  a descobriu e começou a revolver as conchinhas.
        Quem é o primeiro?
        Eu só estou acompanhando – Disse Hans.
        Não acredita no que os búzios vão dizer?
        Prefiro ficar olhando.
        Melhorou do enjôo, Hans?
        Não.
        Está suando....
        Está quente aqui dentro.
Enquanto jogava os buzios na bandeja a velhota fitava Hans.
Remexeu as conchinhas e durante alguns segundos ficou estática observando-as.
        Seu nome é Hans?
        Sim, senhora...mas eu não estou participando.
        Está sim.
Hans olhou para mim com cara de espanto.
        Não pretendo desembolsar um tostão, senhora....Qual o seu nome?
        Zenaide e não vão pagar nada.
        Nem eu?
        Nem você.
        Por que?
        Os Orixás falaram para não cobrar.
        Ah, tá.... - Esboçou Hans

Recolheu os buzios e jogou-os novamente.
        Continuo vendo duas entidades em você. E tenho certeza que os búzios não estão enganados. Não entendi, lhufas.
        Você se recuperou bem do acidente, Hans.
        Como sabe que ele sofreu um acidente?
        Sei, também, que você estava junto.
        O que mais você sabe? Disse Hans.
Hans pingava de suor, enquanto eu e a velhota estávamos enxutos.
Ela recolheu os búzios e novamente os jogou na bandeja e cobriu-a com a toalha branca.
        Me de a sua mão direita , Hans.
Ele sorriu e a estendeu para Zenaide. Ela pegou-a e colocou sobre a tolha branca.
Abaixou a cabeça e fechou os olhos e começou a falar algo, sussurando. Após alguns segundos, olhei para hans e vi um filete de sangue escorrendo pelo seu nariz.
        Hans!  O que está acontecendo? seu nariz está sangrando...
        Estou somente com enjôo e calor.
Tirou o lenço do bolso e limpou o sangue.
Zenaide levanta a cabeça e com um tom de voz diferente, disse para Hans.
        O dia está próximo.
Os dois ficaram se olhando e eu não entendia mais nada.
Comecei a sentir as extremidades dos meus dedos da mão a formigar de novo e a  segurei junto ao peito. Isso quebrou a troca de olhares dos dois.
        O que foi, Beto?
        Minha mão....de novo....
        De-me sua mão, disse Zenaide.
Estendi-lhe a mão e ela suavamente encostou a palma da mão dela sobre o dorso da minha.
        Estão querendo te levar.
        Quem quer me levar?
        Os que ficaram.
Já estava cansado daquela babozeira e o que deveria ser uma diversão acabou se tornando uma chateação. Levantei-me e chamei Hans.
        Vamos embora. Chega. Minha mão está doendo de novo.
Antes de sairmos a velhota enrolou os búzios no pano branco sem toca-los e as  deu para Hans.
Sáimos de lá e durante metade do trajeto de volta ao meu apartamento, ficamos em silêncio.
- Você entendeu alguma coisa? - Perguntei.
        Entendi que eu tenho que fazer algo e que alguém quer levar você para algum lugar....rs
        Como você esta?melhorou?
        Melhorei....aquele cheiro me deu enjoo. Fora o calor....
        E o seu nariz?
        Normal. Quando está muito quente, ele sangra. Fragilidade capilar. O pior é que passei por tudo isso e essa não era a pessoa que realizei o trabalho e não recebi o pagamento....mas foi divertido e ainda por cima ganhei um brinde.
        É verdade....vamos dar uma olhada nos búzios.
Hans abriu a toalhinha e fiquei pasmo ao ver que a grande maioria dos buzios havia virado cinzas.
        Que estranho.....
        Melhor jogar fora....disse Hans.
Balançou a toalha e aquela cinza se dissipou no ar. A toalha ele jogou numa lixeira.
        A sua mão melhorou?
        Tinha me esquecido.....não sinto mais nada. Passou...
        Que bom....
Ao chegar na portaria do prédio pedi para Hans aguardar na calçada, pois eu iria somente buscar o carro na garagem.
        Vamos no meu que já está aqui fora – Disse ele.
Conforme combinado fomos ao shopping villa lobos, almoçar.
Durante o caminho, seguindo pela Fonseca Rodrigues, passando ao lado do Parque Villa Lobos, fiquei pensando no que a velhota havia dito.
        Como é que ela sabia do acidente?
        Ainda está pensando nisso?rs...
        Você não está curioso?
        Alguns seres humanos possuem esse dom....
        Sou meio cético com essas coisas. E agora tem gente, ou sei la´o que , querendo me levar....
        já conversamos sobre isso, lembra-se?
        Aliás, nunca tinha visto você tão crédulo nestas coisas....
        É, mas quem escuta e vê coisas é você...
        Só ouvi, nunca vi nada...
        E acha pouco? Sou eu que ponho as pessoas no caixão e é você que as ouve sapateando em casa, no escritório....
        Tá bom, tá bom...
A fila para entrar no shopping já estava desde a marginal e ficamos parados, esperando.
Aquele sábado estava muito quente para aquela hora, o que significa que a tarde prometia outro temporal.
Após uns dez minutos de espera entramos na garagem e depois de meia hora rodando, conseguimos estacionar.
        Aleluia....- disse, eu.
        Eu já estava quase indo embora. Não tenho paciência para estas coisas.
        Bom, agora que já conseguimos, vamos relaxar.
Incrivel como Paulistano gosta de shopping, Virou um lugar para se passear com a família. Você nem precisa comprar nada. Vai, passeia, come alguma coisa, pode ir ao cinema e vai embora.
Antes de almoçar demos uma volta e paramos em algumas lojas de interesse em comum , principalmente de eletro eletrônicos. Hans olhava os computadores e eu as tvs de LCD e home theaters, passando pelas maquinas fotográficas digitais.
Outro lugar que gostavamos  era a mega livraria. Mas antes de irmos lá, resolvemos almoçar em um daqueles fastfood da praça de alimentação.
Enquanto comiamos, em silencio, observava as pessoas a nossa volta. A diversidade de criaturas humanas era impressionante. Isso por que estavamos em um pedaço desprezivel do planeta.
Hans não tirava os olhos do prato, enquanto devorava seu nhoque ao sugo.
        Engraçado Hans....voce fica observando as pessoas e vê como cada pessoa é única, mas ao mesmo tempo são todas iguais....
        É isso que torna a vida interessante...fisicamente algumas caracteristicas destinguem uma pessoa das outras, porém a maior diferença é invisivel. O intelecto e  o espírito.  Já pensou se todos pensassem e agissem do mesmo modo, sem distinção? Se todos fossem intelectualmente iguais? Esse mundo seria uma chatice....
        E a diferença espiritual?
        A diferença está em que nivel você está na escala de ascenção espiritual.
        Explique-se.
        Seu ceticismo não deixará você entender.
        Tente.
        Existem categorias de espiritos. Aqueles que que já estão em alto grau de ascenção, aqueles de médio grau e os que estão na base dessa escala , os lanterninhas.
Enquanto limpava o prato com um pedaço de pão italiano, continuava.
        Os grandes espiritos, são aqueles que estão ao lado de Deus. Os anjos, santos, etc. Os de médio grau, são os seres humanos que ainda tem de trabalhar muito para ascenderem ao lado de Deus. Dentre esses, existem sub categorias que definem cada ser humano.
        E os baixos espiritos?
        Os  demônios, já que não estão nem estarão um dia ao lado de Deus ou chegarão perto dele.
        E Chefão?
        Ele é um espirito que estava no topo dessa classificação. Aí como todos sabem, resolveu se rebelar e foi lançado ao inferno e aí ele é o culpado de todas as besteiras cometidas pelo ser humano e tititititi....
        Você acredita nisso tudo que me falou?
        Essa é a versão que todos acreditam, Beto.
        Sim, mas discordo da classificação Não acho que o diabo seja um espirito, dito, baixo.
        Não?
        Não. Ele é Superior. Ainda é um anjo, apesar do seu antagonismo celestial. Ele é parte fundamental do equilibrio.
        Quer dizer que, você acha, que a existência do Diabo é necessária?
        Tanto quanto ao do criador. Um não tem função sem o outro.
        Bela teoria...
        Isso não é teoria, é fato. O positivo não existe sem o negativo e vice-versa.
Levantamos da mesa e observei que atrás de nós uma família esperava vagar a mesa.
- Podemos sentar?
Prontamente respondi que sim.
Pai mãe e uma criança, aparentando uns 6 anos, com sinais característicos de síndrome de Down.
        Vamos. O ser humano me entedia – disse Hans.
        Mas gosta do ser humano feminino, né?
        Necessidade hormonal.
Após vários minutos de sufoca também para sair do estacionamento, conseguimos deixar o shopping.
Chegamos no prédio e após sair do elevador, ouvia-se a TV do seu Djalma com o volume alto, coisa que se tornou habitual.
        O seu vizinho é surdo?
        De uns tempos para cá, parece que ficou...rs...coitado está velhinho.
Hans apenas olhou por alguns instantes para a porta do seu Djalma enquanto eu destrancava a minha.
De repente  a porta do seu Djalma se abre e ele aparece, ficando imóvel, nos observando, ou melhor olhando fixamente para Hans.
Ficou assim por um tempo e os dois se entreolhavam. Quebrei o gelo.
        Boa tarde seu Djalma!
Não obtive resposta.Foi quando Hans tentou algo.
        Muito prazer, seu Djalma!
Estendeu a mão para cumprimentar o que não foi correspondido. O velhinho simplesmente resmungou algo que não entendi e fechou a porta.
        O que ele disse? Perguntei.
        Também na entendi....será que ele tomou algo?rs
        Esse velho está cada dia pior...Ultimamente, passa a madrugada com a TV ligada no último volume e com uma conversa estranha.
        Um dia você Chegará lá, Beto....rs.
Entramos no apartamento e falei para Hans se acomodar pois antes do café eu iria ao banheiro.
        Em qual parte você está?
        Parte do que?
        Deste livro...
Antes de se acomodar ele observava a Biblia ao lado da Tv.
        Nenhuma....não estou lendo. Achei no alto do meu armário em um dia de faxina. Não tinha onde coloca-la e a pus aqui. Um belo enfeite, não acha. Você já a leu? - Perguntei.
        Sei do seu conteúdo....até faço parte de alguns capítulos...rs
        Com certeza....Apocalipse.......rs.
        Você tem muitos dvds de filmes de terror....
        Desde criança filmes de terror me fascinam. Você lembra quando fomos assistir a estréia de Poltergeist no cinema?
        Não.... - Respondeu tentando se lembrar.
        Pensando bem, acho que a idade tem afetado a sua memória.
Hans esboçou um sorriso enquanto olhava a capa de um dos dvds.
- Volto já.Fique a vontade.
Entretido com a sinopse de um dos filmes, acho que nem escutou.
Ao voltar perguntei:
         café?
Não obtive resposta. Tentei em um tom mais alto.
- Hans, quer o café, agora?
        Hã???/Sim,sim...quero. Com adoçante. Quero emagrecer.
        Depois de tudo o que comeu no Shooping?rs .Qual filme esta olhando tão interessado?
        A profecia....
        Qual deles? São vários filmes...
        O último....quando o anticristo sobe ao poder...
         A trilha sonora é assustadora e linda em todos. - completei.
Enquanto pegava outro filme da série ele comentou.
        Esses filmes são baseados no ultimo capitulo do seu livro.
        Eu sei. Vou para a cozinha fazer o café.
        Posso ficar olhando os filmes?
        Fique a vontade...já volto.
Voltei com o café e Hans havia colocado um dos dvds  para assistir.
Percebi que era o ultimo filme da trilogia  da  Profecia. Porém ele não estava assistindo o filme desde o começo. Pulava as partes e assistia trechos que julgava interessante.
Deixei o café em cima da mesa de centro enquanto observava ele “assistindo” ao filme, extremamente interessado.
Depois de uns 5minutos de silêncio, alertei-o
        Hans, o café vai gelar...
        Ah, desculpe....estava compenetrado.
        Percebi....Gostou do filme?
        Interessante. Você já fez uma comparação entre o filme e o que está escrito no tal do apocalipse?
        Sei a respeito, o que a maioria das pessoas sabe. Nunca me aprofundei no assunto.O que o está intrigando tanto?
        Que tudo isso pode não acontecer.....
        Mas quem disse que vai? São só textos religiosos escritos por alguém  com muita imaginação....
        É o que você acha?
        Ora, Hans, você consegue imaginar o filho do diabo andando pela terra com o numero 666 escrito na palma da mão, manipulando massas e dragões saindo do mar com não sei quantos chifres.
Neste instante escutei um trovão. Parecia que o tempo tinha dado uma virada brusca. A sala escureceu de repente.
        Parece que vai chover....
        Que chova agora, a noite vou à uma festa. E a sua namorada?Não é amanhã que vocês vão sair?
        Ela não é minha namorada. Depois preciso ligar para ela para confirmar. Vai que mudou de ideia.
        Ela vai. Fique tranquilo. E a viagem? Já está tudo certo?
        Já. São só tres dias, tranquilo. Quer que eu traga uma lembrancinha?
        Umas duas Pernambucanas....
        Não cabe na mala. Te trago uma cabaça, pode ser?
        Sem dúvida...rs
Voltando a sua atenção novamente para o filme, Hans ficou em silêncio. Aproveitei para ligar para Suzana  e assim combinarmos o horário que eu passaria para buscá-los. Usei o telefone do meu quarto.
Após  uma breve conversa, ficou combinado que eu passaria as 9h.
Quando voltei, Hans ainda estava de pé .
        Vou-me embora. Posso levar esses filmes emprestados?
        Já vai? Com essa chuva?...
        Quero tirar uma soneca antes de sair a noite.
        Ok..pode levar os filmes que quiser.
        Obrigado pela diversão e pelo almoço.
        De nada e desculpe pelo seu Djalma.
        Ele é inofensivo.....
Hans saiu pela porta  e eu aproveitei a chuva para, também, tirar um cochilo. Recostei na poltrona e em alguns minutos eu adormeci.
O sono foi profundo e nas duas horas que dormi sonhei com tudo de estranho que eu tinha passado ultimamente, porém de modo mais explicito, como se os detalhes estivessem sido mostrados no sonho. Era quase um pesadelo....
A lembrança ficou comigo em cada detalhe, não era um daqueles  sonhos que após alguns dias você o esquecia. E esse era apenas o primeiro de vários que eu teria.
Sonhei que estava em um hospital, andando pelos corredores dos quartos. Pessoas, que pareciam ser médicos ou enfermeiros, passavam por mim, cabisbaixos, e não me viam. O corredor parecia não ter fim. A frente centenas e centenas de portas fechadas tanto do meu lado esquerdo quanto direito.
Tudo era branco, as vezes via os tais médicos saindo de um quarto, com uma prancheta na mão.
Continuei andando naquele corredor infinito, quando ao passar pó uma das portas ela se entreabriu.
Parei de frente a ela mas não conseguia ver o que havia do outro lado. Hesitei um pouco, mas devagar empurrei a porta.
Entrei e era um quarto típico de um hospital. Totalmente branco, com dois leitos.
Ao chegar perto dos leitos, vi que eram ocupados pela mesma pessoa. Isso mesmo, como se fossem gêmeos idênticos, ali deitados.
Em um dos leitos uma criança dormia enquanto alguém estava debruçado na cama, também dormindo. Porém, no outro leito, a mesma criança estava acordada e inquieta se debatendo.
Voltei-me para o outro lado e percebi que quem acompanhava a criança era uma mulher que tapava seu rosto com os braços em cima do colchão. Cheguei mais perto e quando estava prestes a chama-la a mesma levantou o rosto. Para meu espanto, era Suzana. O rosto e os olhos estavam inchados o que denunciava choro recente.
Ela olhou para mim e começou a chorar novamente e voltou a posição anterior. Não consegui falar nada.
Aproximei-me do garoto e pus a mão na sua testa. Estava gelada e ele pálido.
Dei a volta e no outro leito tentei encostar a mão na testa do outro garoto. A minha mão transfixou a cabeça dele. Não conseguia tocá-lo.
Neste momento ele olhou para mim e disse:
- Já estou pronto. A dor passou e posso ir. Vou com você?
- Comigo? Respondi.
- O médico disse que quando você chegasse eu poderia ir.
-Ir onde comigo?
Nesse momento entrou mais alguém no quarto.
Um rapaz aparentando seus 30 anos que vestia uma roupa branca e um jaleco, também branco.
Chegou perto de mim e fitando o rapaz disse.
- São muitos. Não podem ir embora.
- Por que não?
- Não tem para onde ir. Estão presos e sofrendo.
-Presos?
- Sim. Estamos mantendo a ordem, mas não foi para isso que fomos criados.
Nisso ele levantou a cabeça e obsevei que seus olhos estavam vazios apenas duas órbitas escuras me fitavam.
Ele repetiu.
- Não foi para isso que fomos criados!!!!
Senti meu coração disparar. Ele sorriu para mim, me deu as costas e saiu pela porta. Quando voltei o meu olhar para o leito, já não estava mais naquele quarto e sim novamente no corredor.
Aos poucos apareciam mais pessoas vestidas de branco que saiam do quarto, mas desta vez elas me viam e começaram a me puxar pela mão, cada uma querendo me levar para o seu respectivo quarto.
Nisso aquele médico apareceu novamente e enraivecido empurrava as pessoas as afastando de mim e exclamando:
- Voltem!Voltem!

24/06/2013



Acordei assustado com a TV ligada. Durante o sono a energia tinha acabado graças a tempestade e ao retornar, ligou-a saindo do stand by. A TV era antiga mas já possuía alguns requintes tecnológicos.
Levantei assustado e molhado de suor. Meus dedos novamente formigavam.
Fui até a cozinha tomar algo e tentei entender alguma coisa a respeito do que eu tinha sonhado.
Voltei para a sala, sentei-me no sofá e com o copo de refrigerante na mão esquerda, trocava os canais da TV com a direita. Após  alguns minutos trocando de canal, parei no Discovery channel onde passava um documentário sobre ataques de tubarão. Assisti um bom pedaço do documentário e depois desliguei a Tv e resolvi acessar a internet. Coloquei o meu lap top no colo e acessei o meu e-mail. O de sempre. Propagandas, pornografia enviada pelo Hans, nada demais.
Na realidade eu estava tentando me distrair para esquecer o sonho que tive, mas de minuto em minuto eu via flashes dele na minha mente.
Resolvi ir dormir pois, já eram dez e meia e  teria que levantar um pouco mais cedo para buscar a Suzana e o  seu filho.
 Não vou negar que estava entusiasmado com a situação. Fui dormir ancioso.
As seis horas eu despertei, apesar de ter programado o despertador para as sete e meia.
 Ainda estava escuro e parecia que eu já estava acordado à horas.
Tentei levantar-me mas não consegui. A sensação era que eu estava pregado na cama. Os braços juntos ao corpo com as palmas das mãos estendidas de encontro ao lençol . Eu não conseguia elevar meu tronco, nem movê-lo, mas minhas pernas estavam livres. Também conseguia mover a cabeça.
Meu coração disparou e senti um calafrio na espinha.
A sensação que eu tinha era que algo estava em cima de mim e me abraçava com toda a força. Eu chegava a sentir a pressão desse abraço.
A um dado momento, acho que senti uma baforada no meu ouvido, porém não via nada além da escuridão e comecei a me debater tentando me livrar daquele abraço.
Na verdade eu tinha sonhado que acordara. Quando realmente acordei saltei da cama como se quisesse fugir daquela situação.
 Belo pesadelo”..., pensei.
Olhei no rádio relógio e ao contrário do sonho, o sol entrava pelas frestas da minha persiana. Já eram 07h45.
Fui para o banho e enquanto me despia, naquele movimento de tirar a camiseta, senti meus dois braços doerem na altura do cotovelo.