–
Ainda
bem que hoje não está com cara de que vai chover...
Dito e feito. Cheguei no consultório
as cinco e cinquenta. Apesar de ter chegado em cima da hora, ainda tive de
esperar mais de quarenta minutos.
Engraçado como essa é uma das
situações que por mais que atrase e por
mais impaciente que voce fique , na hora que o médico o chama, o mau humor
cessa imediatamente e você entra no consultorio sorrindo, como se tudo tivesse
ocorrido como programado.
A sala de espera estava cheia e não
parava de chegar gente. O consultorio ficava em uma casinha geminada, onde ele
e mais alguns médicos de especialidades
diversas, clinicavam.
–
Sr.
Roberto, por favor deixe-me ver a carteirinha do convenio e um documento de
identidade co foto.
Após conferir os dados e com certeza
se a mensalidade estava paga ela pediu para que eu subisse ao consultorio
numero 6. Quem me atenderia era o Dr. Angelo
A porta estava entreaberta e ouvi alguém me chamar do outro lado.
–
Pode
entrar....
–
Com
licença, Boa tarde, Dr
Sem levantar cabeça enquanto escrevia algo, respondeu:
-Boa tarde. O que está acontecendo
com o Sr?
Expliquei detalhadamente os meus
sintomas e entreguei o Rx.
–
Tire
a atadura por favor.
Enquanto eu tirava a tadura ele
observava o Rx.
–
Esta
um pouco inchado e dolorido.
Ele olhou, apalpou e pediu para que
eu efetuasse alguns movimentos.
–
O
Sr sofreu algum trauma nessa mão?
–
Não....
–
Controla
Diabetes?
–
Até
o ano passado, no ultimo exame de sangue que fiz, não tinha nada alterado.
–
Nunca
tinha visto algo parecido. Vamos fazer uma Ressonancia Magnetica e refazer os
exames de sangue. Os ossos estão perfeitos. As unhas se deslocaram., como se
tivessem sido puxadas. Vou lhe receitar um outro analgesico e continue com a
mão imobilizada.
A consulta não durou mais de 15
minutos, isso por que o meu caso era novidade para ele, senão teria durado 10
minutos. Médico de convênio é isso. Ganha no volume atendido.
Peguei a receita e o pedido de exame
e apressei-me em ir embora pois ainda teria que parar em algum mercado para
comprar o vinho para jantar no Hans.
Liguei para confirmar o evento:
–
Ola
Hans. O jantar ainda ta de pé?
–
Já
estou preparando tudo. Vai demorar?
–
Acho
que mais meia hora....Vou comprar o vinho.
–
Tranquilo.
Vou começar a fazer as maças do amorrrrrrrr....
–
Capricha...rs...abraço!
–
Parei
em um supermercado perto de casa, na Gastão Vidigal, perto do Ceasa e na minha
total ignorância em comprar bebida alcoolica escolhi um vinho com um preço, que
na minha opinião, era justo. Um vinho tinto italiano.
Consegui chegar no tempo previsto e
fui recepcionado pelo Hans vestindo um avental branco com uma pimenta vermelha
enorme estampada e o pano de prato pendurado no ombro.
–
Vamos
entrando.....
–
Mas...
o que aconteceu com a sua mão?
–
Lembra
daqueles repuxões?Pois é....
–
Vamos
para a cozinha. Lá você me conta.
–
Hummm,
o cheiro esta bom.
-
Trouxe o seu vinho?
–
Meu
vinho? Voce não vai beber?
–
Nunca
fui chegado em vinho. Prefiro uma cerveja ou uma birita.
–
Não
sabia disso.
–
Precisa
saber mais a meu respeito.
–
O
que sei, já me basta. Limpou a cozinha??
–
Passei
um pano e tirei algumas formigas que estavam dentro do meu açucareiro.
–
Que
progresso!
–
Abre
a geladeira. Eu preparei um tira gosto. Tenho que ficar mexendo a panela.
–
Ora,
ora....você quem fez essa beringela?
–
Deu
trabalhão, portanto coma sem reclamar. O azeite está no armário aí do lado e
cuidado com a Clementina.
–
Clementina?
–
A
minha baratinha de estimação. Ela mora atrás da lata de azeite.
–
Ah,
ta...vou bater, antes de abrir a porta.
–
Isso...rs.
Me fale a respeito da sua mão.
–
Fui
ao médico e não soube me dizer o que está acontecendo. Minhas unhas quase foram
arrancadas. Doeu horrores. Tenho que fazer alguns exames.
–
Então
piorou desde a última vez que saímos?
–
Muito.
–
Hans
ficou em silencio por alguns segundos e depois disse:
–
Como
está a berinjela?
–
Muito
boa.Voce parece que aperfeiçoou os seus dotes culinários. Não tem pão?
–
Adotei
a cozinha como terapia . Eu não como pão. A cozinha não é um lugar que você
aprecia muito, né?
–
Ah,
não...estou contratando até uma empregada para cozinhar para mim. Cansei de esquentar comida no
microondas.
–
Mas,
o que voce fez além do risoto?
–
Fiz
uma carne de cordeiro assada. Receita muito antiga, italiana.
–
Já
vi que vou passar bem. O vinho também é italiano....
–
Cuidado,
gula é pecado....se bem que nessa casa,
ela corre solta...rs.
Falou isso e experimentou o risoto
na palma da mão.
–
Ok,
já está no ponto. Vamos papar.
Enquanto Hans passava o risoto e a
carne para as devidas travessas, eu procurava um saca rolhas.
–
Voce
tem taça para vinho?
–
Não.
Sabe o que eu lembrei? Esqueci de botar a mesa...
–
Deixe
para la...rs....vamos almoçar no estilo americano.
Fomos para a sala de tv, cada um
carregando o seu prato. Aproximei-me da janela para apreciar a vista que não
era das melhores. O Cemitério da Vila Madalena. Se eu colocasse a cabeça mais
para fora da janela, podia ver um pedaço da rua dos bares, a Ignacio Pereira da
Rocha..
-Tinha-me esquecido da vista da sua janela, Hans..
–
É
a inspiração para o meu
trabalho....sente-se. Como vai o seu novo cargo?
–
Meio
chato. Muita burocracia, pouca ação, passo a maior parte do tempo dentro do
escritório falando ao telefone e olhando para o quadro.
–
Que
quadro?
–
O
meu chefe tirou da sala dele um quadro de três crianças sentadas em uma rua de
pedras e colocou na parede em frente a minha mesa..
–
Sei....Quando
terminarmos vamos ao meu escritório quero te mostrar meu novo PC.
_ Hans, você se superou nesses dois
pratos. Pena que voce não goste de vinho. Escolhi a dedo este.rs
-Modestia a parte ficou melhor do
que eu imaginava e vinho e coisa de missa....rs. Está dando para comer só com
uma mão?
-Ja me acostumei e esse cordeiro
está bem mole, da para cortar no garfo.
–
Cordeiro
geralmente é mole...E o médico não desconfia de nada que possa ter causado esse
problema ?
–
A
princípio pensou que fosse algum trauma
ou diabetes, mas não aconteceu nada e não tenho diabetes aí, pediu para fazer alguns exames e voltar
com os resultados.
–
Fora
isso, a vida esta normal?
–
Nada.
Tem acontecido muitas coisa estranhas, coisa que você dará risadas se seu
contar.
–
Estou
com vontade de rir...me conte....
–
Tenho
ouvido passos, coisas se arrastando em casa e no escritório. Aquele quadro que
eu comentei, estava completamente torto na parede outro dia, sendo que a minha sala estava
trancada na minha ausência.
–
Essas
coisas acontecem à noite ou de dia?
–
Sem
horário...
–
Tem
rezado o pai nosso antes de dormir?rs.
–
Estou
falando sério Hans. Aí fico associando com o que aquela vidente disse a
respeito de haver uma entidade dentro de mim.
–
Você
falou que ela pediu para que voltasse lá....
–
Não
sei se devo ficar alimentando isso.
–
Ora,
Beto....não está curioso? Você acredita em sere do além?
–
Sim,
mas não a ponto de querer ouvi-los ou vê-los....
–
Pode
ser que , por algum motivo, agora, eles
queiram que você saiba da presença deles ..
–
O
que é isso Hans, uma segunda parte de “sexto sentido”?rs
–
Quem
sabe os sintomas inexplicáveis com a sua
mão seja o inicio de um contato?
–
Não
estou entendendo nada e você está me botando medo. Aliás desde quando você tem
essas crenças em fantasmas e afins? Sempre achei você fosse ateu...rs
–
Posso
te afirmar que, se existe alguém que acredita na existência de Deus, esse
alguém sou eu..
–
Desconhecia
esse seu lado espiritual.... Você acha que eu deveria voltar na cartomante?
–
Ora,
eu iria querer escutar mais.
–
Que
tal ir comigo? Amanhã, antes do almoço?
–
Uma
diversão para o Sábado de manhã...eu topo!
–
Quer
mais risoto?
–
Na
verdade quero um pouco mais dos dois....
–
Eu
acho que quem o está assombrando é Biemô....rs. Trate de beber esse vinho, senão ele vai ralo abaixo.
–
Não
vou beber a garrafa inteira. Levo de volta para casa.E que é Biemô?
–
É
o demônio da gula...rs
Após me empanturrar de comida, Hans me levou ao seu quarto. Ao
abrir a porta, deparei-me com uma cena, digamos, macabra.
Grande parte das paredes do quarto,
estavam cobertas com impressões em papel, dos trabalhos que Hans já havia
feito. Dezenas de imagens de pessoas posando, como mortas dentro dos esquifes.
–
Meu
Deus Hans..Como voce consegue dormir aqui?
–
Ué,
não posso ficar incomodado com o meu trabalho e eu só penduro na parede aqueles
que já morreram.
–
Pior
ainda....
–
Os
artistas fazem quadros para serem pendurados...Eu faço meu trabalho e gosto de pendura-los.
Mas sente ai. Veja que bela máquina eu comprei.
Ele começou a me mostrar o
computador e toda a tecnologia que ele
oferecia e repidez de processamento, porém aquelas imagens nas paredes, estavam
me prendendo mais a atenção e de certo modo, me incomodando. Não estava me
sentindo bem lá dentro.
No meio das explicações, eu o
interrompi.
–
Hans,
vamos sair daqui.
–
O
que foi?
–
Não
estou me sentindo bem...
–
Será
que foi a comida?
–
Não
é a comida....vamos sair.
–
Ok...
–
Vamos
para a cozinha, vou te ajudar com a louça.
–
Deixe
para lá. Te convidei para jantar e não para lavar louça. Vamos descer e dar uma
volta a pé. Os bares a essa hora estão começando a encher. Podemos tomar um
café em um deles que eu conheço.Moças interessantes o frequentam
–
Ok.
Vamos.
Na realidade eu estava dando graças
a Deus de poder sair dali, após a visita ao quarto.
Já tinha passado das dez e meia e
caminhávamos pela Inácio, vendo o transito na rua começando a se complicar por
conta do fluxo de carros e dos manobristas que paravam o trânsito para embarcar
o desembarcar os clientes dos bares.
Estava uma noite agradável, sem
sinais de chuva, o que atraía o paulistano às ruas.
–
Você
costuma frequentar esses bares, Hans?
–
Não.
A maioria tem música ao vivo ou Karaoke e eu odeio barulheira. Vou, as vezes,
em um ou outro para tomar café e ler o jornal. Mas são lugares sossegados. .
Chegamos em um cafeteria, onde o movimento era somente de pessoas que
queriam tomar um café, comer um pão de queijo, ler um jornal ou uma revista
oferecidos pelo lugar.
–
Venho
aqui eventualmente – comentou Hans.
Sentamos em uma mesa perto da janela
que dava vista para a rua.
- Está ansioso para este Domingo?
–
Para
falar a verdade estou. Me sinto um adolescente indo para o seu primeiro
encontro.rs
–
Quanto
tempo faz que você não sai com uma
moçoila?
–
Ah...
já tem um tempão...
–
Bom,
eu tentei te ajudar...rs
–
Não
curto essa putaria que voce faz. Prefiro conhecer a pessoa, conversar, me
sentir atraído.
–
Você
é do tipo romantico?
–
Acho
que sim..rs.
–
Você
ainda acredita no amor?
–
Hans,
o dia em que o amor acabar, vai ser o dia em que Deus não mais existirá. E não
acho que ele vai simplesmente deixar de
existir. Eu acredito em um equilíbrio
onde amor e ódio devem existir simultaneamente. Um não existe sem o outro.
–
Sim,
o positivo e o negativo. Mas concorda que sempre haverá a disputa entre os
dois?
–
É
inevitavel. O Diabo sempre tentará assumir a portaria do Paraíso...rs
–
Acha
que ele conseguirá?
–
Segundo
dizem, não....Mas do jeito que a humanidade está indo, acho que essa
possibilidade não pode ser decartada. O ser humano está agredindo demais a si
mesmo e o mundo em que vive. Deus não deve estar nada contente e não acho que o
Diabo tenha nada a ver com isso.
–
Não?
–
Não...a
degradação humana é conseqüência da falta de equilíbrio. O homem já
não respeita nem a Deus nem ao Diabo. Virou uma baderna. Está tudo no limbo.
Hans me encarou sem falar nada.
- Ficou preocupado?Perguntei.
- É o que você acha? Perguntou-me.
- É....
Neste instante ouve-se três
estampidos e gritaria fora da cafeteria.
Pagamos a conta e saímos até a calçada e a uns 50metros a frente, no semáforo,
já havia uma aglomeração de pessoas em volta de um veiculo que estava parado,
provavelmente a causa do alvoroço..
Ao chegarmos perto já se escutava os
comentários.
–
Eram
em dois em cima de uma motocicleta...
Quando chegamos junto à porta do
motorista, via-se um jovem de não mais
de 20 anos, desacordado, caído no banco do passageiro. No asfalto, o vidro que
fora estilhaçado provavelmente pelos tiros escutados por nós.
–
Já
chamaram o resgate? - Perguntou alguém.
–
Eu
vi tudo. Pediram o relógio e o rapaz tentou arrancat com o carro. O garupa
atirou três vezes. – Comentou um segurança de um dos bares.
–
Está
vendo Hans? Quantas vezes voce acha que isso acontece, por dia, no mundo?
Em silêncio, Hans observava a
movimentação em volta do carro.
Cheguei perto da janela e Dava para se
ver uma enorme quantidade de sangue que escorria pela lateral da cabeça do
jovem e escorria pela camisa branca, sujando o banco do carro de tecido claro,
o que destacava mais ainda a cena horrível.
–
Esse
já era...- Disse Hans.
–
Como
você sabe? O resgate ainda não chegou....
–
Vai
por mim. Já era.
–
Que
pessimismo....
–
Vamos
voltar para a minha casa? Quero fumar e deixei o cachimbo lá.
Ainda estava perplexo com a cena e
não respondi de imediato. Não conseguia parar de olhar o jovem dentro do carro
e acho que Hans tinha razão, pois em nenhum momento vi aquela pessoa sequer se
mecher .
- Beto.....
–
Sim,
o que?
–
Vamos
voltar para casa. Quero fumar.
–
Ok,
ok....Não quero mais ir ao seu quarto.
–
Certo...rs...
Ao chegarmos ao seu prédio, ouvia-se
uma sirene que provavelmente deveria ser do resgate.
-Chegaram, até que rápido.
-Viagem perdida- Retrucou Hans.
Lá pelas duas horas da manhã
despedi-me. Se deixasse, varava-mos a noite papeando.
–
Acabou
tomando a garrafa inteira do vinho, hein?rs....
–
Pois
é. A gente foi conversando e eu fui secando a garrafa...
–
Quer
ir de taxi?
–
Não...
estou bem. Um pouco sonolento, mas bem... Amanhã as onze?
–
Estarei
lá e cuidado nos sinais....
Ao chegar em casa, no hall de
entrada do apartamento, mais uma vez escutava a tv do Seu Djalma.
–
Acho
que ele perdeu a noção de volume e de horário..
Quando eu fechava a porta de casa
pouco se escutava de dentro do apartamento, muito menos se estivesse no meu quarto, por isso não me incomodava. Só
achei fora do habitual ele estar vendo tv aquela hora. Com o passar do tempo você acaba
conhecendo os hábitos dos seus vizinhos e esse não era um hábito do seu Djalma.
Eu estava baqueado por conta do vinho. Só deu
tempo de tirar a roupa e cair na cama. Apaguei.
Acordei com o meu celular tocando.
Olhei no rádio relogio e eram onze e dez da manhã.
–
Caspita....perdi
a hora.
Atendi o telefone e era o Hans que
estava lá embaixo, me esperando.
–
E
ai?
–
Eu
me atrasei...sobe.
–
Não
eu te espero aqui embaixo. Acabei de acender o cachimbo.
Tomei um banho rapido, vesti-me e em
20 minutos estava no térreo.
–
Cheguei.
–
Ah..a
bela adormecida embriagada.....
–
É..
exagerei ontem.
–
Lembra
onde deixou o seu carro?rs
–
Também
eu não estava desse jeito...Deixe seu carro estacionado. Vamos a pé. É aqui
perto.
–
O
Sr é quem manda.....e depois?Onde vamos almoçar?
–
Vamos
lá no Shooping Villa Lobos.
–
Chic...
–
Topas
tomar um café no boteco? na pressa, não tomei e nem comi nada.
Entramos no boteco na esquina da rua
do meu prédio e lá, também, o dono era português. Por que será que português
gosta tanto de padaria e boteco?
Tomei um pingado com um pão na chapa
e Hans, com muita coragem, comia uma coxinha.
–
Quer
uma mordida? Está boa....falta pimentinha...
–
Você
é louco de comer isso....
–
O
que não mata, engorda...
–
O
problema são os sintomas antes da morte...
–
Está
muito boa para estar estragada.
SaÍmos do boteco e chegamos à
casinha. Toquei a campainha e novamente veio o moleque abrir a porta.
18/06/2013
18/06/2013
–
Entrem. Vou chamar a minha avó.
E lÁ se foi casa a dentro
gritando pela avó.
Hans começou a gemer e se apoiou
na parede com uma das mãos.
–
Tudo bem Hans?
–
Esse cheiro de rosas....me da enjôo....
–
Da outra vez tinha o mesmo cheiro. Esse enjôo deve ser da coxinha...
- Nada, a coxinha tava boa.
A velhota apareceu com o mesmo
traje da outra vez e pediu para que a acompanhassemos a outra sala.
Sentamos na mesa.
–
Pensei que você não iria voltar.
–
Lembra-se de mim?
–
Lembro-me. Por sua causa tive que comprar novos búzios.
–
Por minha causa?
–
Na realidade não sei se foi você, ou se aqueles buzios já estavam bem
carregados....sei lá. Mas foi bom que voltou. E você, é parente ou amigo?
–
Um velho amigo, quase parente...
Ela ficou fitando Hans e só
desviou o olhar quando eu a chamei.
–
Vamos começar?
–
Hã? Vamos, vamos...desculpe.
O visual era o mesmo da primeira
vez. A mesma bandeja redonda coberta com um pano branco no centro da mesa,
o relógio na parede...
Ela puxou a bandeja, a descobriu e começou a revolver as
conchinhas.
–
Quem é o primeiro?
–
Eu só estou acompanhando – Disse Hans.
–
Não acredita no que os búzios vão dizer?
–
Prefiro ficar olhando.
–
Melhorou do enjôo, Hans?
–
Não.
–
Está suando....
–
Está quente aqui dentro.
Enquanto jogava os buzios na
bandeja a velhota fitava Hans.
Remexeu as conchinhas e durante
alguns segundos ficou estática observando-as.
–
Seu nome é Hans?
–
Sim, senhora...mas eu não estou participando.
–
Está sim.
Hans olhou para mim com cara de
espanto.
–
Não pretendo desembolsar um tostão, senhora....Qual o seu nome?
–
Zenaide e não vão pagar nada.
–
Nem eu?
–
Nem você.
–
Por que?
–
Os Orixás falaram para não cobrar.
–
Ah, tá.... - Esboçou Hans
Recolheu os buzios e jogou-os
novamente.
–
Continuo vendo duas entidades em você. E tenho certeza que os búzios
não estão enganados. Não entendi, lhufas.
–
Você se recuperou bem do acidente, Hans.
–
Como sabe que ele sofreu um acidente?
–
Sei, também, que você estava junto.
–
O que mais você sabe? Disse Hans.
Hans pingava de suor, enquanto
eu e a velhota estávamos enxutos.
Ela recolheu os búzios e
novamente os jogou na bandeja e cobriu-a com a toalha branca.
–
Me de a sua mão direita , Hans.
Ele sorriu e a estendeu para
Zenaide. Ela pegou-a e colocou sobre a tolha branca.
Abaixou a cabeça e fechou os
olhos e começou a falar algo, sussurando. Após alguns segundos, olhei para hans
e vi um filete de sangue escorrendo pelo seu nariz.
–
Hans! O que está acontecendo?
seu nariz está sangrando...
–
Estou somente com enjôo e calor.
Tirou o lenço do bolso e limpou
o sangue.
Zenaide levanta a cabeça e com
um tom de voz diferente, disse para Hans.
–
O dia está próximo.
Os dois ficaram se olhando e eu
não entendia mais nada.
Comecei a sentir as extremidades
dos meus dedos da mão a formigar de novo e a
segurei junto ao peito. Isso quebrou a troca de olhares dos dois.
–
O que foi, Beto?
–
Minha mão....de novo....
–
De-me sua mão, disse Zenaide.
Estendi-lhe a mão e ela
suavamente encostou a palma da mão dela sobre o dorso da minha.
–
Estão querendo te levar.
–
Quem quer me levar?
–
Os que ficaram.
Já estava cansado daquela
babozeira e o que deveria ser uma diversão acabou se tornando uma chateação.
Levantei-me e chamei Hans.
–
Vamos embora. Chega. Minha mão está doendo de novo.
Antes de sairmos a velhota
enrolou os búzios no pano branco sem toca-los e as deu para Hans.
Sáimos de lá e durante metade do
trajeto de volta ao meu apartamento, ficamos em silêncio.
- Você entendeu alguma coisa? -
Perguntei.
–
Entendi que eu tenho que fazer algo e que alguém quer levar você para
algum lugar....rs
–
Como você esta?melhorou?
–
Melhorei....aquele cheiro me deu enjoo. Fora o calor....
–
E o seu nariz?
–
Normal. Quando está muito quente, ele sangra. Fragilidade capilar. O
pior é que passei por tudo isso e essa não era a pessoa que realizei o trabalho
e não recebi o pagamento....mas foi divertido e ainda por cima ganhei um
brinde.
–
É verdade....vamos dar uma olhada nos búzios.
Hans abriu a toalhinha e fiquei
pasmo ao ver que a grande maioria dos buzios havia virado cinzas.
–
Que estranho.....
–
Melhor jogar fora....disse Hans.
Balançou a toalha e aquela cinza
se dissipou no ar. A toalha ele jogou numa lixeira.
–
A sua mão melhorou?
–
Tinha me esquecido.....não sinto mais nada. Passou...
–
Que bom....
Ao chegar na portaria do prédio
pedi para Hans aguardar na calçada, pois eu iria somente buscar o carro na
garagem.
–
Vamos no meu que já está aqui fora – Disse ele.
Conforme combinado fomos ao
shopping villa lobos, almoçar.
Durante o caminho, seguindo pela
Fonseca Rodrigues, passando ao lado do Parque Villa Lobos, fiquei pensando no
que a velhota havia dito.
–
Como é que ela sabia do acidente?
–
Ainda está pensando nisso?rs...
–
Você não está curioso?
–
Alguns seres humanos possuem esse dom....
–
Sou meio cético com essas coisas. E agora tem gente, ou sei la´o que ,
querendo me levar....
–
já conversamos sobre isso, lembra-se?
–
Aliás, nunca tinha visto você tão crédulo nestas coisas....
–
É, mas quem escuta e vê coisas é você...
–
Só ouvi, nunca vi nada...
–
E acha pouco? Sou eu que ponho as pessoas no caixão e é você que as ouve
sapateando em casa, no escritório....
–
Tá bom, tá bom...
A fila para entrar no shopping
já estava desde a marginal e ficamos parados, esperando.
Aquele sábado estava muito
quente para aquela hora, o que significa que a tarde prometia outro temporal.
Após uns dez minutos de espera
entramos na garagem e depois de meia hora rodando, conseguimos estacionar.
–
Aleluia....- disse, eu.
–
Eu já estava quase indo embora. Não tenho paciência para estas coisas.
–
Bom, agora que já conseguimos, vamos relaxar.
Incrivel como Paulistano gosta
de shopping, Virou um lugar para se passear com a família. Você nem precisa
comprar nada. Vai, passeia, come alguma coisa, pode ir ao cinema e vai embora.
Antes de almoçar demos uma volta
e paramos em algumas lojas de interesse em comum , principalmente de eletro
eletrônicos. Hans olhava os computadores e eu as tvs de LCD e home theaters,
passando pelas maquinas fotográficas digitais.
Outro lugar que gostavamos era a mega livraria. Mas antes de irmos lá,
resolvemos almoçar em um daqueles fastfood da praça de alimentação.
Enquanto comiamos, em silencio,
observava as pessoas a nossa volta. A diversidade de criaturas humanas era
impressionante. Isso por que estavamos em um pedaço desprezivel do planeta.
Hans não tirava os olhos do
prato, enquanto devorava seu nhoque ao sugo.
–
Engraçado Hans....voce fica observando as pessoas e vê como cada pessoa
é única, mas ao mesmo tempo são todas iguais....
–
É isso que torna a vida interessante...fisicamente algumas
caracteristicas destinguem uma pessoa das outras, porém a maior diferença é
invisivel. O intelecto e o espírito. Já pensou se todos pensassem e agissem do
mesmo modo, sem distinção? Se todos fossem intelectualmente iguais? Esse mundo
seria uma chatice....
–
E a diferença espiritual?
–
A diferença está em que nivel você está na escala de ascenção
espiritual.
–
Explique-se.
–
Seu ceticismo não deixará você entender.
–
Tente.
–
Existem categorias de espiritos. Aqueles que que já estão em alto grau
de ascenção, aqueles de médio grau e os que estão na base dessa escala , os
lanterninhas.
Enquanto limpava o prato com um
pedaço de pão italiano, continuava.
–
Os grandes espiritos, são aqueles que estão ao lado de Deus. Os anjos,
santos, etc. Os de médio grau, são os seres humanos que ainda tem de trabalhar
muito para ascenderem ao lado de Deus. Dentre esses, existem sub categorias que
definem cada ser humano.
–
E os baixos espiritos?
–
Os demônios, já que não estão
nem estarão um dia ao lado de Deus ou chegarão perto dele.
–
E Chefão?
–
Ele é um espirito que estava no topo dessa classificação. Aí como todos
sabem, resolveu se rebelar e foi lançado ao inferno e aí ele é o culpado de
todas as besteiras cometidas pelo ser humano e tititititi....
–
Você acredita nisso tudo que me falou?
–
Essa é a versão que todos acreditam, Beto.
–
Sim, mas discordo da classificação Não acho que o diabo seja um
espirito, dito, baixo.
–
Não?
–
Não. Ele é Superior. Ainda é um anjo, apesar do seu antagonismo
celestial. Ele é parte fundamental do equilibrio.
–
Quer dizer que, você acha, que a existência do Diabo é necessária?
–
Tanto quanto ao do criador. Um não tem função sem o outro.
–
Bela teoria...
–
Isso não é teoria, é fato. O positivo não existe sem o negativo e
vice-versa.
Levantamos da mesa e observei
que atrás de nós uma família esperava vagar a mesa.
- Podemos sentar?
Prontamente respondi que sim.
Pai mãe e uma criança,
aparentando uns 6 anos, com sinais característicos de síndrome de Down.
–
Vamos. O ser humano me entedia – disse Hans.
–
Mas gosta do ser humano feminino, né?
–
Necessidade hormonal.
Após vários minutos de sufoca
também para sair do estacionamento, conseguimos deixar o shopping.
Chegamos no prédio e após sair
do elevador, ouvia-se a TV do seu Djalma com o volume alto, coisa que se tornou
habitual.
–
O seu vizinho é surdo?
–
De uns tempos para cá, parece que ficou...rs...coitado está velhinho.
Hans apenas olhou por alguns
instantes para a porta do seu Djalma enquanto eu destrancava a minha.
De repente a porta do seu Djalma se abre e ele aparece,
ficando imóvel, nos observando, ou melhor olhando fixamente para Hans.
Ficou assim por um tempo e os
dois se entreolhavam. Quebrei o gelo.
–
Boa tarde seu Djalma!
Não obtive resposta.Foi quando
Hans tentou algo.
–
Muito prazer, seu Djalma!
Estendeu a mão para cumprimentar
o que não foi correspondido. O velhinho simplesmente resmungou algo que não entendi
e fechou a porta.
–
O que ele disse? Perguntei.
–
Também na entendi....será que ele tomou algo?rs
–
Esse velho está cada dia pior...Ultimamente, passa a madrugada com a TV
ligada no último volume e com uma conversa estranha.
–
Um dia você Chegará lá, Beto....rs.
Entramos no apartamento e falei
para Hans se acomodar pois antes do café eu iria ao banheiro.
–
Em qual parte você está?
–
Parte do que?
–
Deste livro...
Antes de se acomodar ele
observava a Biblia ao lado da Tv.
–
Nenhuma....não estou lendo. Achei no alto do meu armário em um dia de faxina.
Não tinha onde coloca-la e a pus aqui. Um belo enfeite, não acha. Você já a
leu? - Perguntei.
–
Sei do seu conteúdo....até faço parte de alguns capítulos...rs
–
Com certeza....Apocalipse.......rs.
–
Você tem muitos dvds de filmes de terror....
–
Desde criança filmes de terror me fascinam. Você lembra quando fomos
assistir a estréia de Poltergeist no cinema?
–
Não.... - Respondeu tentando se lembrar.
–
Pensando bem, acho que a idade tem afetado a sua memória.
Hans esboçou um sorriso enquanto
olhava a capa de um dos dvds.
- Volto já.Fique a vontade.
Entretido com a sinopse de um
dos filmes, acho que nem escutou.
Ao voltar perguntei:
–
café?
Não obtive resposta. Tentei em
um tom mais alto.
- Hans, quer o café, agora?
–
Hã???/Sim,sim...quero. Com adoçante. Quero emagrecer.
–
Depois de tudo o que comeu no Shooping?rs .Qual filme esta olhando tão
interessado?
–
A profecia....
–
Qual deles? São vários filmes...
–
O último....quando o anticristo sobe ao poder...
–
A trilha sonora é assustadora e linda
em todos. - completei.
Enquanto pegava outro filme da
série ele comentou.
–
Esses filmes são baseados no ultimo capitulo do seu livro.
–
Eu sei. Vou para a cozinha fazer o café.
–
Posso ficar olhando os filmes?
–
Fique a vontade...já volto.
Voltei com o café e Hans havia
colocado um dos dvds para assistir.
Percebi que era o ultimo filme
da trilogia da Profecia. Porém ele não estava assistindo o
filme desde o começo. Pulava as partes e assistia trechos que julgava
interessante.
Deixei o café em cima da mesa de
centro enquanto observava ele “assistindo” ao filme, extremamente interessado.
Depois de uns 5minutos de silêncio,
alertei-o
–
Hans, o café vai gelar...
–
Ah, desculpe....estava compenetrado.
–
Percebi....Gostou do filme?
–
Interessante. Você já fez uma comparação entre o filme e o que está
escrito no tal do apocalipse?
–
Sei a respeito, o que a maioria das pessoas sabe. Nunca me aprofundei
no assunto.O que o está
intrigando tanto?
–
Que tudo isso pode não acontecer.....
–
Mas quem disse que vai? São só textos religiosos escritos por
alguém com muita imaginação....
–
É o que você acha?
–
Ora, Hans, você consegue imaginar o filho do diabo andando pela terra
com o numero 666 escrito na palma da mão, manipulando massas e dragões saindo
do mar com não sei quantos chifres.
Neste instante escutei um
trovão. Parecia que o tempo tinha dado uma virada brusca. A sala escureceu de
repente.
–
Parece que vai chover....
–
Que chova agora, a noite vou à uma festa. E a sua namorada?Não é amanhã
que vocês vão sair?
–
Ela não é minha namorada. Depois preciso ligar para ela para confirmar.
Vai que mudou de ideia.
–
Ela vai. Fique tranquilo. E a viagem? Já está tudo certo?
–
Já. São só tres dias, tranquilo. Quer que eu traga uma lembrancinha?
–
Umas duas Pernambucanas....
–
Não cabe na mala. Te trago uma cabaça, pode ser?
–
Sem dúvida...rs
Voltando a sua atenção novamente
para o filme, Hans ficou em silêncio. Aproveitei para ligar para Suzana e assim combinarmos o horário que eu passaria
para buscá-los. Usei o telefone do meu quarto.
Após uma breve conversa, ficou combinado que eu
passaria as 9h.
Quando voltei, Hans ainda estava
de pé .
–
Vou-me embora. Posso levar esses filmes emprestados?
–
Já vai? Com essa chuva?...
–
Quero tirar uma soneca antes de sair a noite.
–
Ok..pode levar os filmes que quiser.
–
Obrigado pela diversão e pelo almoço.
–
De nada e desculpe pelo seu Djalma.
–
Ele é inofensivo.....
Hans saiu pela porta e eu aproveitei a chuva para, também, tirar
um cochilo. Recostei na poltrona e em alguns minutos eu adormeci.
O sono foi profundo e nas duas
horas que dormi sonhei com tudo de estranho que eu tinha passado ultimamente, porém de modo mais
explicito, como se os detalhes estivessem sido mostrados no sonho. Era quase um
pesadelo....
A lembrança ficou comigo em cada
detalhe, não era um daqueles sonhos que
após alguns dias você o esquecia. E esse era apenas o primeiro de vários que eu
teria.
Sonhei que estava
em um hospital, andando pelos corredores dos quartos. Pessoas, que pareciam ser
médicos ou enfermeiros, passavam por mim, cabisbaixos, e não me viam. O
corredor parecia não ter fim. A frente centenas e centenas de portas fechadas
tanto do meu lado esquerdo quanto direito.
Tudo era branco, as
vezes via os tais médicos saindo de um quarto, com uma prancheta na mão.
Continuei andando
naquele corredor infinito, quando ao passar pó uma das portas ela se entreabriu.
Parei de frente a
ela mas não conseguia ver o que havia do outro lado. Hesitei um pouco, mas
devagar empurrei a porta.
Entrei e era um
quarto típico de um hospital. Totalmente branco, com dois leitos.
Ao chegar perto
dos leitos, vi que eram ocupados pela mesma pessoa. Isso mesmo, como se fossem gêmeos
idênticos, ali deitados.
Em um dos leitos
uma criança dormia enquanto alguém estava debruçado na cama, também dormindo.
Porém, no outro leito, a mesma criança estava acordada e inquieta se debatendo.
Voltei-me para o
outro lado e percebi que quem acompanhava a criança era uma mulher que tapava
seu rosto com os braços em cima do colchão. Cheguei mais perto e quando estava
prestes a chama-la a mesma levantou o rosto. Para meu espanto, era Suzana. O rosto
e os olhos estavam inchados o que denunciava choro recente.
Ela olhou para
mim e começou a chorar novamente e voltou a posição anterior. Não consegui
falar nada.
Aproximei-me do
garoto e pus a mão na sua testa. Estava gelada e ele pálido.
Dei a volta e no
outro leito tentei encostar a mão na testa do outro garoto. A minha mão
transfixou a cabeça dele. Não conseguia tocá-lo.
Neste momento ele
olhou para mim e disse:
- Já estou
pronto. A dor passou e posso ir. Vou com você?
- Comigo?
Respondi.
- O médico disse
que quando você chegasse eu poderia ir.
-Ir onde comigo?
Nesse momento
entrou mais alguém no quarto.
Um rapaz
aparentando seus 30 anos que vestia uma roupa branca e um jaleco, também
branco.
Chegou perto de mim
e fitando o rapaz disse.
- São muitos. Não
podem ir embora.
- Por que não?
- Não tem para
onde ir. Estão presos e sofrendo.
-Presos?
- Sim. Estamos
mantendo a ordem, mas não foi para isso que fomos criados.
Nisso ele
levantou a cabeça e obsevei que seus olhos estavam vazios apenas duas órbitas
escuras me fitavam.
Ele repetiu.
- Não foi para
isso que fomos criados!!!!
Senti meu coração
disparar. Ele sorriu para mim, me deu as costas e saiu pela porta. Quando
voltei o meu olhar para o leito, já não estava mais naquele quarto e sim novamente
no corredor.
Aos poucos
apareciam mais pessoas vestidas de branco que saiam do quarto, mas desta vez
elas me viam e começaram a me puxar pela mão, cada uma querendo me levar para o
seu respectivo quarto.
Nisso aquele
médico apareceu novamente e enraivecido empurrava as pessoas as afastando de
mim e exclamando:
- Voltem!Voltem!
24/06/2013
24/06/2013
Acordei assustado com a TV
ligada. Durante o sono a energia tinha acabado graças a tempestade e ao retornar,
ligou-a saindo do stand by. A TV era antiga mas já possuía alguns requintes
tecnológicos.
Levantei assustado e molhado de
suor. Meus dedos novamente formigavam.
Fui até a cozinha tomar algo e
tentei entender alguma coisa a respeito do que eu tinha sonhado.
Voltei para a sala, sentei-me no
sofá e com o copo de refrigerante na mão esquerda, trocava os canais da TV com
a direita. Após alguns minutos trocando
de canal, parei no Discovery channel onde passava um documentário sobre ataques
de tubarão. Assisti um bom pedaço do documentário e depois desliguei a Tv e
resolvi acessar a internet. Coloquei o meu lap top no colo e acessei o meu
e-mail. O de sempre. Propagandas, pornografia enviada pelo Hans, nada demais.
Na realidade eu estava tentando
me distrair para esquecer o sonho que tive, mas de minuto em minuto eu via
flashes dele na minha mente.
Resolvi ir dormir pois, já eram
dez e meia e teria que levantar um pouco
mais cedo para buscar a Suzana e o seu filho.
Não vou negar que estava entusiasmado com a
situação. Fui dormir ancioso.
As seis horas eu despertei,
apesar de ter programado o despertador para as sete e meia.
Ainda estava escuro e parecia que eu já estava
acordado à horas.
Tentei levantar-me mas não
consegui. A sensação era que eu estava pregado na cama. Os braços juntos ao
corpo com as palmas das mãos estendidas de encontro ao lençol . Eu não
conseguia elevar meu tronco, nem movê-lo, mas minhas pernas estavam livres.
Também conseguia mover a cabeça.
Meu coração disparou e senti um
calafrio na espinha.
A sensação que eu tinha era que
algo estava em cima de mim e me abraçava com toda a força. Eu chegava a sentir
a pressão desse abraço.
A um dado momento, acho que
senti uma baforada no meu ouvido, porém não via nada além da escuridão e comecei a me
debater tentando me livrar daquele abraço.
Na verdade eu tinha sonhado que
acordara. Quando realmente acordei saltei da cama como se quisesse fugir daquela
situação.
“Belo pesadelo”..., pensei.
Olhei no rádio relógio e ao
contrário do sonho, o sol entrava pelas frestas da minha persiana. Já eram
07h45.
Fui para o banho e enquanto me
despia, naquele movimento de tirar a camiseta, senti meus dois braços doerem na
altura do cotovelo.
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