terça-feira, 21 de maio de 2013

CAPÍTULO I




 INÍCIO

                       Seis e meia. Já está na hora de juntar as coisas e ir embora. Pela janela da minha sala eu via que seria outro dia de caos em São Paulo. As nuvens já haviam formado um enorme tapete negro em cima da cidade.

O laboratório em que trabalho fica em Interlagos, bairro da zona sul de São Paulo e eu morava na Lapa, zona oeste, ou seja, tinha um bom trajeto para percorrer na marginal pinheiros. Em dias normais eu levo 40 minutos para chegar em casa, mas nestes dias de tempestades, com sorte eu chegaria em 3 horas.

Desliguei o computador, juntei meus pertences e apressei-me em sair do prédio.

Despedi-me  de  Suzana,  nossa secretária, digo, nossa, por que ela servia a mim e a  dois engenheiros. Pessoa pacata, já com os seus 40 anos, cabelos longos, ruivos, porém sempre presos, bem magra.

-Até amanhã Suzana. Quero ver se chego em casa antes do diluvio...

-Eu também já vou sair....mas acho que não vai adiantar muito....

- Bom, pelo menos quero entrar no carro, seco....rs....

Ao chegar no pátio do estacionamento uma ventania anunciava que eu tinha pouco tempo para chegar  ao meu carro.

Consegui entrar no Opala são e seco. Mais do que depressa dirigi-me para a saída do estacionamento, pois quando caem essas tempestades, as ruas em volta do laboratório alagam e eu não estava querendo dormir no meu escritório, coisa que já havia acontecido no ano anterior por conta de uma dessas tempestades.

Liguei o rádio e era óbvio que o destaque da hora era a chuva que já começava a molhar o meu para-brisas e lentamente ia engrossando.

Consegui passar pela primeira etapa e quando acessei a Marginal a água já caia solta. Me conformava com a idéia de chegar em casa depois das dez da noite....

Consegui acessar a via expressa, digo, consegui, pois o trânsito já estava congestionado e não havia 10 minutos que estava chovendo.

Naquele anda e para eu via que o limpador de para brisa ligado ou desligado era  a mesma coisa. Já não enxergava além do capô do carro e o desembaçador  era cúmplice do limpador.

Com uma flanela que deixava no porta treco, eu tentava inutilmente desembaçar, pelo menos, o vidro da frente, já que  o de trás, era melhor esquecer...

A uma certa altura já era possível ver os primeiros efeitos da tormenta. Vários carros parados no acostamento vítimas dos pontos de alagamento. Tentaram passar e ficaram. Aí era a tragédia. Sair do carro, empurrar e ficar por ali  sabe la até que horas além da despesa com o guincho e a roupa molhada. Eu ia na faixa do meio, onde o acúmulo de água era menor.

Após  40 minutos de chuva forte, São Pedro deu uma trégua. Abri as duas janelas do carro para desembaçar os vidros e consegui ver melhor o resultado do aguaceiro à minha volta. O rio Pinheiros estava muito acima do seu nível, alcançando os trilhos do trem. Na superfície do rio, sendo levados pela correnteza , garrafas pet, sacos de lixo, partes de vegetação de algum lugar ou da própria margem do rio, um sofá e logo atrás parecia ser uma cadeira seguidos por objetos não identificados  e outras coisas mais que não vale a pena comentar.

                      Depois de sofríveis 3 horas  consegui pegar a via local e sair pela ponte da Anhanguera. Já estava perto de casa.

Após mais alguns pontos de alagamento e trânsito parado, cheguei no meu prédio.

A chuva já havia parado há muito tempo, mas as consequências com certeza perdurariam até o dia seguinte, ou mais.

Parei o carro e percebi que a garagem ainda estava vazia em um horário em que geralmente a maioria das vagas já estavam ocupadas.

Entrei no elevador, tecla do quinto andar e me olhei no espelho. Os anos haviam passado. O cabelo já não era da mesma cor e quantidade,  as marcas de expressão estavam bem acentuadas. Fora, que para observar tudo isso, eu tive que me aproximar bem do espelho pois a visão também denunciava que eu já não era mais um universitário.

No hall de entrada eu ouvia a TV do meu vizinho, o Sr Djalma. Viúvo morava ali há mais de 15 anos sozinho. Já beirava os 80 anos e não queria saber de sair dali. Falar em casa de repouso com ele era arrumar inimizade para resto da vida, a dele pelo menos...

“Ainda bem que a energia não acabou”.

Deixei a mala no sofá e após tanto tempo, consegui ir ao banheiro. Logo após, liguei a TV e fui ver o que eu conseguiria fazer para o jantar.

Para facilitar a minha vida eu enchia a geladeira com produtos para micro-ondas.Nada saudável, mas muito prático.

Escolhi a lasanha ao sugo e a deixei esquentar no micro-ondas enquanto pegava o refrigerante e enchia  o copo até derramar.

Enquanto esperava o jantar, dei uma chegada na sala para ver o que estava passando na TV.

Como havia chegado tarde em casa, o jornal já havia acabado e estava começando a famigerada novela das oito que sempre começa depois das nove. Troquei de canal e após rodar 50 dos 120 canais da TV a cabo deixei em um documentário sobre as catástrofes naturais do Planeta que ocorreram e aquelas que ainda estão por vir. Com certeza uma delas tinha acontecido hoje.

O micro-ondas apitou e fui buscar o meu jantar. Sentei-me na poltrona em frente a TV e voltei a trocar de canais pensando o quanto de dinheiro eu jogava fora pagando por aqueles cento e tantos canais, sendo que apenas uma meia duzia prestava.

Resolvi deixar mais uma vez no canal de documentários e com a barriga cheia não demorou para que eu começasse a “pescar” no sofá.

Vendo que em breve eu acabaria ficando por ali mesmo, levantei-me e pus-me a seguir a rotina de todo ser humano alguns minutos antes de ir para a cama. Quando olhei o rádio relógio no meu criado mudo, pela ultima vez, eram 11h. Deitei na cama, apaguei a luz e não vi mais nada.

Acordei assustado com o  celular tocando desesperadamente. Olhei no rádio relógio e eram quatro horas da manhã. O visor do celular acusava que a chamada era do laboratório, deixei o meu número com a segurança em caso de alguma emergência noturna. Ossos do ofício.

-Alô?

-Dr Roberto? É o Agenor... sou o segurança da noite do laboratório.

-Bom dia, Agenor.Aconteceu alguma coisa?

-A energia acabou e o gerador não ligou. Tenho o telefone do Sr aqui, na listinha, em caso de acontecer alguma coisa de madrugada.

-Você é novo aí, né?

-Estou cobrindo as férias do outro vigilante....

-Então não te passaram os procedimentos de emergência, nesses casos de queda do gerador?

-Não senhor.....

Não adiantava ficar argumentando com aquela criatura do outro lado da linha. A situação tinha que ser resolvida logo, pois com a queda de energia, as geladeiras onde estavam armazenadas as vacinas paravam e com isso havia um tempo hábil para religa-las antes que os medicamentos deteriorassem, já que não havia previsão da volta da energia..

-Estou indo para aí....Daqui a uma hora hora vá para o portão da frente. Eu tenho um opala prata.

-Ok Dr....

Sabia que não iria dar tempo de voltar para casa para tomar banho, me trocar e voltar para o laboratório, então já fui preparado para ficar o dia todo.

Fazia tempo que eu não saia de casa, ou chegava em casa de madrugada. Tinha esquecido o quanto era tranquilo o trânsito, apesar que, a esta hora, várias pessoas já estavam na rua prontas para enfrentar mais um dia de loucura no transporte coletivo  para chegar no trabalho.


Porém, neste dia, o trajeto seria mais doloroso, por conta dos estragos deixados pela chuva no dia anterior. Muitas ruas estavam alagadas, arvores caídas e sujeira espalhada por todo o lado.

Apesar do trânsito estar tranquilo, em alguns lugares estava dificil de dirigir.Enfim, entrei na Marginal e em incríveis 20 minutos cheguei à porta do laboratório.

Ao longe eu via o vigia se aproximando do portão,empunhando uma lanterna..

-Bom dia, Dr.

-Bom dia. Pelo visto ainda estamos sem energia. Você ligou para a concessionária para saber qual a previsão da volta?

-Liguei Dr. Eles falaram que só depois das 10h. Estão com muitas ocorrências.

-Sei....bom, vamos ver por que o gerador não acionou...

-Me acompanhe com a sua lanterna. A minha está no escritório.

Estava começando a amanhecer, mas a escuridão ainda  perduraria por pelo menos mais meia hora.

-Engraçado o automático do gerador não ter acionado. Foi feita a manutenção semana passada.

Enquanto o vigia apontava o facho de luz para a cabine do gerador eu verificava as chaves de acionamento e reparei que um dos contatos estava queimado.



-Eu vou te ensinar como ligar o manual quando o automático não entrar, Ok?
Não obtive resposta. Sem olhar para trás, chamei novamente, enquanto fechava a porta do painel.
-Ok??
Novamente não obtive resposta, mas desta vez olhei para trás e a única coisa que eu via era o brilho da lanterna que me ofuscava. Joguei o corpo para o lado e vi que o  vigia estava com fones de ouvido, escutando música pelo celular olhando em direção oposta a minha. Dei dois tapinhas no seu ombro. Com o susto ele praticamente arrancou os fones de ouvido.
     Desculpe Dr. Já terminou?
     Já....quero te ensinar a ligar o manual quando o automático não funcionar, mesmo por que vou ter que falar com o eletricista agora de manhã.
     Está vendo estes dois botões? O vermelho e o verde? Primeiro você aperta o vermelho e depois o verde e depois aciona está chave.
     Ao acionar a chave o barulhento motor diesel começou a funcionar e várias luzes acenderam em volta do laboratório.
     Entendeu, como funciona o acionamento manual?
     Entendi Dr.
                            Quer horas são?Perguntei.
     Quase cinco e meia.
     Vou ver se as geladeiras voltaram a funcionar.
     Precisa de mim, Dr?
     Não, obrigado. Pode voltar para o seu posto. Você vai ficar todas as noites cobrindo o outro vigia?
     Parece que sim. Até o mês que vem.
     Se alguém o substituir, não esqueça de passar esse procedimento.
                            Segui até os fundos do laboratório, abri a porta  do almoxarifado e desativei o alarme. Dava para escutar o barulho dos compressores das geladeiras trabalhando.
      “Funcionando de novo”.
                           Ainda não eram seis horas. Meu expediente começava as sete. Tinha saído de casa sem comer nada e resolvi dar um pulo no boteco do portuga que ficava em frente ao laboratório.A essa hora ele já estava aberto visando a freguesia que chegava de madrugada para esperar os ônibus no ponto ao lado do boteco.
                           Com o dia já clareando, era possível observar o estrago causado pela chuva do dia anterior. Muitos pontos de alagamento, sacos de lixos no meio da rua, muito barro, alguns carros que tiveram o azar de estar na hora e lugar errados.
                          Atravessei a rua desviando de algumas poças de agua e entrei no boteco em frente ao laboratório..
O velho português estava naquele ponto há mais de 20 anos. Conhecia todos da região e a mim há pelo menos 10 anos. Os operários do laboratório que não levavam marmita almoçavam ali.
                       
Juntando os passageiros dos ônibus mais os operários do laboratório, o portuga ganhava uma boa grana entre marmitas, cachaça e almoço no local. Incluo a cachaça, por que era normal encontrar, durante todo  o dia, pinguços adentrando sóbrios e saindo completamente embriagados.
Vi o portuga de camiseta branca, chinelo de dedo e barra da calça nos joelhos, com um rodo, provavelmente acabando de limpar o estrago do dia anterior dentro do boteco.
     Bom dia portuga.
    Sem parar o que estava fazendo, apenas retrucou:
     Ainda não fiz o café.
     Muito estrago?
     Não fui para casa.....passei a noite limpando tudo.
     O mau humor era evidente e eu não podia culpá-lo.
     Deixa para la portuga. Quando chegar a copeira do laboratório eu tomo um café .
     Ia dando meia volta quando ouvi um suspiro.
     Sente aí Dr. Vou fazer o café e descansar um pouco. Ainda não comprei pãozinho,mas tenho bolo de ontem.
     Aquele de laranja que a sua esposa faz?
     Aquele mesmo.
       Percebi um esboço de  sorriso naquele rosto, castigado pelo tempo e com a barba por fazer.
     Tirei duas cadeiras de cima de uma das mesas e fiquei observando o movimento enquanto esperava o meu café com bolo.
         O povo passava e eu não podia deixar de ouvir as conversas e lamentações.
          -”Não sobrou nada. A água estava na altura da cintura dentro do barraco”.
-”Cheguei em casa quase a meia noite. Ainda bem que minha mãe foi buscar as crianças na creche”
-”Perdeu o marido e a sobrinha. A parede caiu em cima deles”....
     Cá esta´.....
   Era o portuga com dois copinhos de café e um belo pedaço de bolo de laranja.
     Você não vai comer, portuga?
     Não...é de ontem....(rs)
  - Portuga, se fosse da semana passada eu ia comer. Esse bolo não tem igual
   Cheio de orgulho, da guloseima da mulher, respondeu.
- Eu sei Dr., pode comer que ainda está fresquinho.Eu o guardei dentro dessas embalagens modernas que conservam as coisas por mais tempo.
   Após alguns segundos de silêncio e um gole de café ele desabafou.
                           
- Sabe Dr, eu estou cansado. São 50 anos anos nessa luta. Ano que vem vou pegar minha mulher e voltar para Portugal. Meus filhos jã estão criados. Vou viver do que juntei a vida toda. Já não tenho a disposição de antigamente e esses acontecimentos me desanimam mais ainda.
     È difícil portuga. Já, Eu, não posso me dar o luxo de parar de trabalhar. Tenho que me  manter . Nunca  juntei dinheiro.
    Não é luxo....estou doente e velho. Quero aproveitar o que me resta de vida.
     Doente?
     È...parece que tenho alguma coisa no coração entupidas, sei la....O médico lá do Hospital das clínicas disse que teria que me aposentar e cuidar da saúde. Você já foi lá no Hc, Dr?
     Só passo em frente as vezes, mas nunca entrei.
     Nem  em Portugal tem coisa igual. O problema é a demora....muita gente. Me disseram que pessoas do país inteiro vão lá se tratar.
     Já ouvi falar a mesma coisa. Mas eu tenho convenio saúde. Vou em hospitais do convenio, quando preciso.
     Ah, Dr vc devia ir um dia . Tenho tratamento VIP, não é assim que se fala?
    Ele falava isso com se tivesse indicando um restaurante.
     É isso mesmo...rs.
     Não posso ficar fazendo esforço e tenho que evitar um tal de stresse....
     Sua mulher aceitou a idéia de voltar para Portugal?
    Naquele instante ele mudou de feição e se manteve em silêncio por alguns segundos. Olhar fixo no copinho de café que segurava e o balançava, naquele movimento circular de misturar o café com o açúcar.
     Dr... na realidade ela chora, se lamentando que não verá mais os netos.
     E por que vc vai embora? Não pode se aposentar e ficar aqui?
     Eu quero morrer na minha terra Dr. Eu sinto que não tenho muito mais tempo de vida. O médico disse que a minha situação é grave. Não da nem para operar.
     Vi dois fios de lagrimas correrem pelos seus olhos.

     Vc não pode sentir isso, portuga.
     Não é só sentimento. É certeza.
     Resolvi mudar de assunto.
     Será que hoje vai cair aquele pé d´agua de ontem?
     Pode ser Dr, pode ser....
                                     Percebi que não conseguiria  distrai-lo com o novo assunto e com o passar do tempo já eram quase 7 horas.

     Portuga, vou assumir meu cargo la no laboratorio.Quanto te devo?

Continuação - 22/05/13




     Nada Dr. O café é por minha conta e não vou cobrar o  bolo do dia anterior....


      Levantei-me e  saí do boteco, atravessei a rua já bem mais movimentada, passei pela portaria do laboratório e segui rumo ao meu escritório no 3° andar.


                                                            


     - Bom dia Suzana.
                                 -Chegou cedo Dr. Foi por causa da falta de energia?
            -Cheguei mais cedo ainda. O gerador não tinha ligado na madrugada
           - Pois é.....se a energia não voltar logo, vai atrasar todo o meu serviço.
            -  Parece que as 10 horas as coisas vão se normalizar...até lá, relaxe..rs.

        Deixei um comunicado interno  na mesa do  eletricista para  verificar o gerador e fui para a copa tomar um outro café para passar o tempo enquanto a energia não voltava.


                              Eu e mais da metade do laboratório tivemos a mesma  ideia. Peguei o meu café e juntei-me a uma rodinha de funcionários.


                            A conversa girava em torno de futebol e mulheres. Assunto típico de rodinha de homens.

                      As mulheres estavam vendo  bijuterias que uma colega revendia. Coisa proibida de se fazer dentro do laboratório, mas todos nós fazíamos vista grossa.

                                   -Diz aí Dr. Roberto, o Sr. já viu a secretária nova da diretoria?
                                    A pergunta veio do Agenor, nosso office boy.
                                 - Ainda não. Vou pouco ao quarto andar.
            - Ah, Dr...dá uma passadinha, lá....rs.Uma loucura. Carne da melhor qualidade;
            - Para eu subir lá tenho que ter um boa desculpa....quero distância do quarto andar.  O melhor empregado é aquele que o chefe não sabe que ele existe.
- È verdade Dr...é que eu a vejo no ponto de onibus.as 6 horas. Até o portuga fica de olho quando ela atravessa a rua....rs
-Por falar nisso, vamos ficar sem o portuga.
-Oxe....mas por que?
Ele esta doente. Diz que quer morrer na terra dele. Achei um pouco trágico demais...            
Jorge, o nosso comprador entra na conversa, após dar um gole de café e sentar-se  num banquinho de plástico que estava no canto da parede..                                                                          
- Gente boa. Já bati altos papos com ele. Até de informática ele manja. Me pediu ajuda para comprar um Pc. Ele queria  montar  planilhas para controle de caixa, estoque, enfim informatizar o boteco. Que coisa ..... O que ele tem?
-Pelo o que eu entendi, o coração não está nada bem...
-Meu pai, morreu de repente por conta do coração. Não deu nem para acudir. Caiu duro. Eu ainda estava na faculdade. Ele não conseguiu ver a minha formatura.Era um dos maiores desejos dele.
Quem fez os  comentáriso era o Flavio,nosso técnico de Ti.
Nesse instante a rodinha ficou em silêncio por alguns segundos. Não havia nenhum comentário a fazer a respeito. Existem situações  em que o silêncio exprime o sentimento e a opinião de todos.
Meu celular toca. Era Hans, um amigo meu de infância. Conheci-o no colégio ainda na segunda série do primário. Estudamos juntos até o final do colegial, onde nos afastamos por seguirmos profissões diferentes. Ele se formou em design industrial e eu, coisa que ainda não comentei, me formei em  administração Hospitalar.
Levantei-me da rodinha e fui até a janela do refeitório, onde eu poderia ouvir e falar melhor.
- Fala Hans. Acordou agora?
-Olá chefia.....Nada....levantei cedinho. Tenho muitos clientes para terminar.
-Você  e esse seu trabalho sinistro. E o que mais me admira é que tem gente que paga por isso...
- E bem, Dr! Vamos tomar um café hoje a noite? To cansado de ficar em casa.Muito calor. Por minha conta.
- Fechado. Nove e meia?
- Te pego na porta do prédio, beijo.
 Guardei o celular no bolso e voltei para a rodinha.
Ficamos no papo por mais uma hora, quando a energia voltou mais cedo que o esperado. Maravilha.
Voltei para o meu escritório e liguei para a manutençaõ verificar se as geladeiras já estavam recebendo energia da concessionária.Tudo Ok.
O decorrer do dia foi como de costume. Muitos telefonemas, contatos com fornecedores, clientes, cotações e   alguns problemas internos.
Ao final do dia , depois de muitos telefonemas e cafés, dei por encerrado o expediente. Já eram quase seis e meia.
Desliguei meu pc, juntei todos os papéis em uma pilha só e pus no canto direito da mesa. Arrumação express.
Fui até a janela ver o que me esperava la fora e por enquanto  a visão não era assustadora. Não parecia que iria chover, pelo menos tão cedo.
-Estou indo Suzana....Bom final de semana!
-Obrigada Dr. Para o Sr também.
-Ja estava a caminho do elevador quando de súbito me veio uma ideia. Suzana era viuva  e tinha um filho de dez anos. Eu sabia que ela nos finais de semana não era de sair com o moleque, sei lá quais eram os motivos e afinal de contas, ela era uma mulher interessante.
Voltei a mesa dela.
-Suzana que tal um fim de semana, desses, sairmos eu você e seu filho para passearmos?
                     -Num sei Dr....não somos de sair muito. O máximo que fazemos é ir na casa da minha mãe aos Domingos. O Sr sabe o dinheiro é curto...depois que o meu marido morreu a vida ficou bem difícil.
                     - Estou convidando. Podemos ir a algum parque, sei lá. Vou pensar.Eu queria fazer algo de diferente nos finais de semana em boa companhia. Fico em casa morgando ou saio com um amigo para um café à noite.
        Num sei Dr....
        Pense...Este final de semana não vai dar, pois vou dar uma geral no meu apartamento. Um bota fora.Vou jogar tudo o que eu não estiver usando no lixo. Um monte de tranqueiras...Mas, vai pensando...
        Vou pensar Dr, conversar com o meu filho...
        Bom, então vou-me...ainda tenho um compromisso.
        Consegui chegar em tempo recorde em casa apesar de ser sexta feira.
        Como de hábito liguei a TV  e fui para a cozinha descongelar algo para comer.
        “Ai, Ai...apesar da facilidade, já estou começando a ficar farto dessas comidas prontas”.
        Terminei de jantar e ouvi o vento bater na vidraça anunciando que a chuva viria tardia, mas viria.
Ainda eram 8 horas e dava para relaxar um pouco antes do Hans chegar. Tomei um banho rápido, pus uma bermuda e sentei-me na poltrona para ver um pouco de TV.
        Depois de tomar banho e sentar na frente de uma TV, só podia dar em uma coisa. Adormeci.
        Eu estava em um sono profundo, sonhando com algo estranho. Acordei de repente e por mais que quisesse, não conseguia lembrar  do sonho. Mas sabia que tinha sido estranho.
         Voltei a realidade. “O Hans já deve  estar la em baixo!!
        O celular tocou e atendi rapidamente
        Já estou descendo!!!!
        Falou...
                  Vesti-me depressa e desci pelas escadas pois o elevador estava no ultimo andar e eu não tinha paciência para ficar esperando ele chegar.De manhã, ao sair para o trabalho, ai é que eu não o esperava. Sempre acordei de mau humor e se tem algo que me deixa irritado é as seis horas da manhã ter que dar bom dia dentro de elevador para algum vizinho e ficar com cara de paisagem até a garagem.
                              A escadaria do prédio possui aquele sistema de sensor de presença que acende a luz em cada lance da escada. Eu não deveria descer a escada muito rápido pois não daria tempo de acender a luz do lance seguinte, Porém eu estava com pressa...e nisso só no meio do lance de escada  a luz acendia. Até ai, tudo bem , pois eu conhecia aquela escadaria de cor e salteado. Poderia desce-la sem luz alguma.
                           Já estava no primeiro andar rumo ao térreo, quando nesse acende e apaga um dos sensores devia estar quebrado e  não ativou a iluminação. Na escuridão, eu via no último lance de escada  a  luminosidade que vinha do térreo. Nisso, escutei bem atras de mim passos de alguém subindo as escadas.”Estranho..ninguem passou por mim....”, pensei. Como estava com pressa, segui em frente.
        Hans estava de pé, fora do carro, fumando seu cachimbo, estacionado em fila dupla.
        -Dormiu de novo, hein?
        -Um cochilo....
        -Sei...rs
        -Quer ir ainda?
        Lógico....uma saída com tudo pago não se tem todos os dias.
        Eu só estou somando.....
        Sabia que isso não ia sair barato....
        Onde vamos?
        No lugar de sempre.Pode ser?
        Logico. È você quem manda!.
                  O lugar de sempre era uma cafeteria nos Jardins, bairro nobre da cidade.
        Após quase meia hora procurando um lugar para estacionar, conseguimos uma vaga e nos apressamos, pois já estava começando a chover.
        Sentamos em uma mesa de canto. Essa cafeteria estava sempre lotada. Em dias de chuva era um belo programa.
 -Me conte as novas, Beto.
.Vidinha de sempre.....saio de manhã e volto no final do dia. O que está me estressando são essas chuvas de verão à tarde. As vezes levo até 4 horas para chegar em casa.
Ora...no verão reclamam que chove, no inverno é por que tem estiagem....ninguém nunca está contente. Mas também ou o povo morre de sede ou morre afogado. Essa historia de estações do ano não foi muito bem bolada...rs.
Ou será que foi e nós estamos estragando tudo? Mas, feliz é vc que trabalha em casa.
Mais ou menos...fico preso a semana inteira no apartamento.Só saio de madrugada para ir ao supermercado e mesmo assim somente umas duas vezes por semana. A não ser nos finais de semana que caio na perdição da carne..
Vai no supermercado de madrugada?
Ah, é bem melhor. Todos os caixas vazios. Sem tumulto. Gosto de sossego e da noite.
E a clientela, está crescendo?
Toda a semana tem aumentado entre dois ou tres.Uma maravilha.
Hans tinha um meio de ganhar a vida um tanto quanto peculiar e sinistro.Trabalhava em casa por conta própria, com edição de fotos. Montava albuns de casamento, aniversários, etc . Há algum tempo surgiu uma idéia  que hoje seria o seu carro chefe de trabalho.
O cliente enviava uma foto em que estivesse deitado naquela posição típica de defunto dentro do esquife. A partir daí, Hans fazia todo o trabalho de criar  o visual desta pessoa dentro do esquife.
Primeiro deixava a pessoa com palides cadáverica, depois vestia-a com a roupa de sua preferência e finalmente criava um esquife personalizado com  a decoração dentro do mesmo tais como flores, arranjos, etc. Então o cliente anexava no testamento a vontade de ser visto no seu velório daquele jeito. Simplesmente horripilante.
-Quando você vai me enviar uma foto sua?
-Jamais.
                    -
Ora que preconceito...Todos nós pensamos na morte. Faço de graça para você, uma barbada....Vc sabia que já fui em vários velórios só para ver como ficou meu trabalho? As vezes levo a foto impressa para ver se o original está fiel. 
- Você é doido. Por que não abre uma funerária?
 - Ah, não....muito deprimente. Vc só negocia com a pessoa morta. O legal é negociar com ela viva assinando o contrato de trabalho. Não quero problemas com as autoridades.

 - E tem validade esse contrato?

   - Assinado pelo cliente, com firma reconhecida.

                        Naquele instante senti que a pontas dos meus dedos estavam repuxando, como se estivessem puxando as minhas unhas com um alicate. Não doia, era somente a sensação de estarem sendo puxadas. Só na mão direita.

                        Comecei a abrir e fechar a mão o que chamou a atenção de Hans.
      - O que foi?
     - Nada...uma sensação estranha de repuxo nas pontas dos dedos...parece que  minhas unhas estão sendo puxadas.
                       - Só na mão direita?
                        Só...
                       - Já procurou um médico?
                       - È a primeira vez que sinto isso....
                        -Bom, se piorar procure um médico. Pode ser circulação, sei lá...na idade em que estamos, pode ser que você se salve se diagnosticado atempo...rs. Tem certeza da foto?
-Absoluta. Ah, Quase me esqueci de te contar. Convidei Suzana para sairmos em um final de semana desses, quer dizer ela e o filho.

24/05/13



        Muito bem!!!Mas com o filho?Vai ficar de ama seca?

        Ah, é só uma compainha para sair. Estou farto de sair só com bode velho...rs

        Faz muito bem. Depois se você quiser, lhe apresento umas amigas minhas.Umas capetinhas.

        Não obrigado. Tenho medo delas...rs. Prefiro arrumar sozinho.

        Já percebeu que somos cinquentões solteiros, Beto?

        O que será que temos de errado ou fizemos de errado?

        Vc eu não sei, o meu caso foi por opção. Um dia poderia ir embora e deixar alguém magoado.

        Voce sente falta de compainha, Hans?

        As vezes, em casa, fico entediado...

        Por que não arruma um bichincho de estimação como um cão ou gato, para te fazer compainha?
                        Talvez  uma serpente, indagou. Elas não fazem cocô no meio do tapete e nem tem pulgas.E o principal, não latem nem miam. Sabia que agora é moda ter serpentes em casa? Elas são dóceis e só dão o bote na hora certa.rs.Mas isso seria um hobby, ou acha que vou deixar de fazer minhas noitadas ? Você poderia ficar com ela nos finais de semana em que eu  fosse para a farra. O que acha?
Não gosto de animais, ainda mais rastejantes....
                        Um dos  fatores que tornava Hans um péssimo companheiro, era que ele não conseguia ficar com uma só pessoa. Tinha que diversificar e rápido.Um mulherengo ao extremo.
                        E o papo ia longe. Se deixasse, varava  a noite. Apesar do dia seguinte ser Sábado eu havia dormido pouco e estava exausto. Nem as quatro xícaras de café estavam me segurando.
                        Vamos indo Hans?
                        Já?
                        Como, já? Já são quase duas horas da manhã....Estou exausto....
                        Ok, Ok...vou pedir a conta, mesmo por que amanhã cedo, tenho culto na minha igreja.
Você "mata" as pessoas e depois vai a missa?rs
Não é missa.è um culto religioso.Tiro o peso da consciência e alivio a alma dos pecados. Vamos?
Não posso. Me programei para arrumar a casa. Depois não sou muito adepto a missas e afins. Posso conversar com Deus em qualquer lugar sem a intervenção de ninguém....Todos deveriam fazer isso, acabaria com um monte de charlatães que pegam dinheiro dos menos avisados e desesperados.
-É o livre arbítrio, Beto....
Saimos da cafeteria e um cheiro de dama da noite pairava pelo ar.
-Adoro esse cheiro....
-Ora, Beto...coisa mais enjoativa...
                         Hans me deixou na porta de casa e saiu fumando o cachimbo. Sabia que eu não gostava nem do cheiro nem da fumaça, então evitava de fuma-lo na minha presença. Já bastava o cheiro que o carro e ele próprio exalavam de fumo queimado.
                        Com a chuva, que havia caído mais cedo, a temperatura estava bem agradável. Senti que aquela noite eu teria um sono mais tranquilo, pois no verão eu padecia para dormir por conta do calor. Só tinha um ventilador que mal e porcamente movimentava o ar dentro do meu quarto e fazia um barulho extremamente irritante.
                        Ao entrar no prédio, vi   Seu Djalma esperando o elevador. Estava com calça de pijamas, meia social, chinelo de tiras e um hobbie por cima do corpo. Devia ter acordado a pouco tempo, pois os poucos fios de cabelo que haviam na sua cabeça , estavam despenteados.
                        Cumprimentei-o e estava esperando o elevador quando seu Djalma se pôs bem ao meu lado.
                       Tudo bem, Seu Djalma?
                        Vamos indo....Meu jornal ainda não chegou.
                        Está cedo, Seu Djalma. Só lá pelas cinco horas o jornaleiro entrega.
                        No elevador, já subindo, ele me questiona:
                        Você tem ouvido a reforma do vizinho de cima do meu apartamento? Um barulho infernal o dia inteiro.
                        Não, seu Djalma. Durante o dia eu trabalho. Está incomodando muito o Sr?
                        Não consigo dormir à tarde. E o pior que fui reclamar com o zelador e ele disse que o s pedreiros trabalham em horário permitido pelo condomínio.
                        Calma seu Djalma, uma hora acaba. Por que o Sr não fica lá em baixo a tarde? O condominio tem um belo jardim...
                        Que nada...gosto de ficar em casa e dormir após o almoço. Não sabia que a velhice  seria tão barulhenta.
                        Descemos do elevador e nos despedimos. Ainda escutei ele tossir antes de fechar a porta do  apartamento.
                        Só deu tempo de ir ao banheiro e tirar a roupa. Despenquei em cima da cama e apaguei.
                        Acordei em torno das dez horas da manhã e fiquei na cama olhando para o teto, curtindo a preguiça e a não obrigação de ter que ir trabalhar.
Lembrei-me que aquele Sábado era o dia de fazer a faxina que havia programado.Levantei-me, abri todas as janelas da casa  e fui para o banho. Só acordo, de verdade, depois de um bom banho e com calor ou não, água quente, bem quente.Dizem que faz mal, sei lá...
Após o banho, fui comer algo e nada melhor que pão na chapa com uma média. Só que lembrei-me que o pão eu tinha, mas o café fazia tempo que eu não comprava e o leite, estragou. Engraçado....não sabia que estava aqui há tanto tempo. A única bebida, fora água, era suco de uva. E assim foi, pão na chapa (frigideira) com suco de uva.
Voltei para o quarto onde começaria a faxina. Liguei o rádio relógio numa estação de musica clássica e abri os armários.
 Como a maioria das pessoas eu estocava todas as tranqueiras  na ultima prateleira, lá em cima. Desci tudo.
A quantidade de porcarias que se guarda durante a vida é impressionante. Livros velhos, aparelhos quebrados, cartas de amigos, de namoradas, cartões postais antigos, cartões de Natal enviados por amigos e familiares, revistas e fotos, muitas fotos guardadas dentro de uma caixa de sapatos, tudo coberto de poeira.
Mas a quanto tempo eu não  limpo isso?
Com certeza as fotos eram as coisas mais interessantes e que provavelmente seriam poupadas.
E lá estavam elas, de parentes vivos, mortos, fotos minha quando criança e de viagens, com namoradas, com amigos.
Perdi vários minutos observando e depois tornei a guardá-las na caixa de camisas e deixei-as de lado.
Alguns livros técnicos foram poupados, porém outros iriam para algum sebo. Havia também uma biblia, que eu nem lembrava que tinha, embrulhada em papel celofane. Estava novinha, intacta.
-Vou botá-la na sala. Belo enfeite...
Peguei um saco de lixo de cem litros, e fui jogando o que  não me interessava fora. Em cinco minutos o primeiro lado do armário estava vazio e o saco cheio.
Do outro lado do armário, na parte superior, só havia duas malas para viagem, também empoeiradas, já que fazia muito tempo que eu não as usava. Acho que a ultima vez foi quando eu e o Hans sofremos o acidente.
De posse de um pano e um balde com água misturada com um limpador multiuso, subi em cima da cama e passei a limpar o armário por dentro.Tirei as malas e as joguei fora do quarto para posteriormente limpá-las.

Apesar de parecer que foi coisa rápida, quem já passou por isso sabe que no mínimo leva-se duas horas só para separar e limpar tudo. Trabalhão....
Quando vi no relógio, já eram mais de meio dia e eu não queria passar muito mais tempo naquilo.
Faltava limpar as malas e devolve-las ao armário. Coloquei-as em cima da cama e quando ia virando uma de ponta cabeça ouvi algo se mexer dentro dela. Provavelmente havia se soltado quando a joguei no chão.
Ao abri-la, vi que havia um caderno universitário  la dentro.O caderno estava visivelmente faltando folhas e as que restaram estavam em branco.O que restou do caderno deixei em cima do criado mudo. Poderia servir de rascunho.
Guardei as malas de volta, separei os livros que ia me desfazer e joguei o saco preto na lixeira do prédio.
Fui até a sala e coloquei a Biblia ao lado da tv,
Ainda havia mais coisas para ser jogada fora dentro de estantes na minha sala, porém ficaria para uma outra vez, mesmo por que lembrei que nos fundos do apartamento havia um quarto de empregadas, lotado de tranqueiras. Esse quarto levaria mais do que um final de semana para limpá-lo.
Tomei outro banho, graças a quantidade poeira que havia se impregnado em mim.
Depois de toda aquela canseira, resolvi me premiar com um almoço em um restaurante por quilo  que havia perto de casa. Umas duas quadras.
Aproveitava para dar uma caminhada enquanto o céu ainda estava aberto, pois nesta época do ano, o tempo era uma incognita, do nada  as coisas mudavam.
Esperava o elevador no hall social e eu conseguia escutar  a tv do seu Djalma em volume bem alto.
Fazia tempo que eu não saia pelo térreo de  dia .Sempre chegava pela garagem e subia de elevador direto para o apartamento.
Na portaria, estava o antigo porteiro, Seu Osmar, a quem eu não via há pelo menos um mês.
        Ola Dr. Quanto tempo.....
        Bom dia, Osmar. Como tem passado?
        Bem Dr. A vidinha de sempre, abrindo e fechando o portão, separando correspondência, consertando um chuveiro...
        Esta tudo tranqüilo, então....Até já!!
O Osmar era o funcionário mais antigo do prédio. Trabalhava ali há mais de 15 anos. Pessoa de extrema confiança. Pau para toda obra. Era porteiro, encanador, eletricista e de vez em quando fazia uns serviços de pintura. Ele já tinha me tirado do sufoco algumas vezes com o chuveiro  elétrico.
 Aproveitei a caminhada para observar o que havia em volta de onde eu morava. Dentro do carro, nunca observamos o que esta a nossa volta, só o que está a nossa frente e rápido.
-Ora, nunca tinha visto esta loja de aquários....
Entrei no restaurante, que ainda estava vazio, apanhei um prato e por conta do enorme  calor que fazia, tanto lá fora e multiplicado por  dois dentro do restaurante, só me servi de uma saladinha que não pesou 150g. Peguei um refrigerante e sentei-me em uma mesa a qual me dava visão da rua.
Em dez minutos almocei.Fui ao caixa e paguei a" fortuna" de R$ 6 ,00 pela refeição.

25/05/2013




Sai do restaurante  e fiquei por alguns segundos observando o movimento. Descobri,  que tinha como vizinha, uma vidente em uma casinha ao lado do restaurante com uma faixa com os dizeres: “ Joga-se Buzios” R$ 10,00.

Na falta do que fazer, resolvi entrar e ver o que era. No minimo, ia me divertir.

Toquei a campainha e quem me atendeu foi um garoto de uns dez anos idade.

-Oi.

-É aqui que se joga Buzios?

        Minha Vó, entra.

A porta se abriu e ao entrar senti um cheiro de Rosas no ar. A casa era simples com móveis bem surrados. A sala onde fui levado pelo garoto, era uma sala de 3x3, mais ou menos, as paredes azul claro e tinha uma janela coberta por uma cortina de renda branca que só deixava passar a claridade suficiente para iluminar a sala. Havia uma mesa coberta por uma toalha branca, com duas cadeiras dispostas uma de frente para outra. Em cima da mesa havia uma bandeja coberta, também por uma toalha branca,  alguns apetrechos religiosos que eu desconheço faziam parte do ambiente, em cima de uma mesinha de canto. O relogio de parede quebrava o silêncio.

Não demorou cinco minutos para uma senhora já com uns setenta anos com um vestido branco e um tipo de turbante na cabeça aparecesse.

        Boa tarde.
        Boa tarde. Pode sentar.
        Como está meu filho, Tudo bem?
        Tudo tranquilo....
Nisso, descobriu a bandeja e começou a revolver um monte de conchinhas, os tais  búzios.
        Você Quer saber o que?
        Me fale tudo.
        Tudo é mais caro...
        Trinta, paga?
        Tá de bom tamanho.
Balançou as mãos cheias de conchinhas e as jogou dentro da bandeja, ornada por colares e outras coisas mais.
Aquelas conchinhas se espalharam pelo centro da bandeja e durante vários segundos, aquela mulher ficou observando e catando algumas conchinhas.
        E......
        To vendo o seus dias.....
        E.....
        Posso segurar sua mão direita?
Estendi-lhe a mão.
Remexeu mais um pouco os Búzios e fitou-me nos olhos.
        Qual o seu nome?
        Roberto.
        Quando nasceu?
        10 de outubro.
        De que ano?
        1969...
Mais uma remexida.
        Quarenta e três anos...Muito pouco.....tem bem mais do que isso.....mas ao mesmo tempo, é essa a idade.....estranho. Para falar a verdade não consigo enxergar a primeira idade. Mas por que duas idades?
        Duas idades?Ah, deve ser por sou mais novo do que aparento....rs
        Não, meu filho,  são duas coisas distintas...eu, hein...
Aquilo estava começando a ficar divertido.
        Como assim?
        Os Búzios estão dizendo que há duas entidades dentro de você.
        Ah, estão dizendo que sou bipolar?
        Bi o que? Aqui num fala que você é bicha...
        Não...que tenho duas personalidades....
        Dois espíritos, meu filho.
        Estou possuído por algum encosto????
        Não é possuído. Estão em harmonia , foi permitido que entrasse....Olha meu filho, deixe para lá.. não vou cobrar nada  de você... Esses Buzios estão velhos, esta leitura está confusa...sei la...Desculpe. Vamos tentar em um outro dia? Volte aqui no outro Sabado.
        Ok... que pena. Fique com dez reais pela perda de tempo.
Sai da casinha e atrás de mim, o neto dela estava com um saco plástico de supermercado fechado e pelo chacoalhar, o barulho parecia ser dos Buzios que acabavam de perder o emprego....
        Voltei para o prédio e liguei para o Hans.
        Já está com saudades?
        Fui a uma vidente.
Silêncio do outro lado.
        Hans?
        Estou escutando.....continue.
        Ela disse que eu tenho duas entidades dentro de mim. O que vc acha?
        Acho que a sua só, já lhe causa bastante aborrecimento.
        Mudando de assunto. Lembrei-me, hoje, do acidente que sofremos na Serra da Imigrantes. Vc ficou curado por inteiro? As vezes me dói o pescoço e fico pensando se esses repuxões nos dedos não são algum tipo de seqüela....
        Fiquei zerado. Só fiquei com a cicatriz na cabeça. Lembra dela? Pequena, mas profunda. O cabelo cobre, nem da para ver.
        Lembro..é por minha causa que você a tem. Deu com a sua cabeça na minha. Parece que a minha cabeça é mais dura que a sua.
        Ainda bem que reconhece....pois neste mesmo dia, cismou que não queria entrar na ambulância.
        As vezes tenho pesadelos com esse acidente.Aquele carroceiro, o capotamento...
        Ora Beto.... Até que foi divertido lá no hospital....
Esse sarcasmo de Hans as vezes me irritava. Mudei de assunto.
        Esta fazendo o que ?
        Estou no MSN combinando uma farra para hoje a noite e são duas anjinhas. Topas?
        Não, estou fora.
        Poxa.....rs..vou ter que ficar com as duas?
        Divirta-se.
        Vai ficar em casa curtindo as mágoas?
        Vou assistir a TV e relaxar. 
        Neste instante escutei ao longe o barulho que parecia ser o de um trovão. Fui até a janela e vi que logo acima do meu prédio se aproximava uma grande massa negra.
        É Hans, o negócio está ficando preto aqui....
        O que foi?
        Parece que São Pedro vai lavar o quintal dele.
        È bom que chova agora, assim a noite eu posso sair.
        Ok, vou desligar, tenho que fechar as janelas do apartamento.
        Vai lá....abraços.
Após fechar tudo, fui até a cozinha e apanhei um refrigerante na geladeira. Sentei-me na poltrona liguei a velha tv de tubo que resistia aos anos bravamente. Pelo menos ela já tinha controle remoto.
Estiquei as pernas em cima do puff e passei a trocar de canais até achar um filme de ficção cientifica da decada de 70. Quem não lembra de contatos imediatos do 3º Grau?
Lá fora começava a chuviscar e a sala ficou escura, anunciando que a tormenta já estava sobre mim.De repente a água desceu dos céus em forma de pedras de gelo. Fui até a janela e via lá em baixo o chão sendo castigado pelo impacto das pedrinhas.
Voltei a minha poltrona  e o telefone tocou.
-Alo?
        O que mais a vidente disse a você?
        Ué, que preocupação é essa Hans? Não falou mais nada. Achou que os buzios estavam estragados ou sei lá o que.
        Qual era o nome dela?
        Ah, não perguntei....
        Ué,,,rs...você conhece muitas videntes?
        Não, não...é que eu fiz um trabalho para uma nessas bandas que você mora e ela não me pagou o restante do combinado....
        Hummm...sei....então está bem. Fiquei de voltar la semana que vem, aí eu pergunto o nome, ok?
        Ok...obrigado.Depois agente se fala. Beijo.
Voltei a assistir o filme quando o mesmo foi interrompido pelo noticiario local. Aquela tempestade já estava causando estragos. Na marginal Pinheiros, perto da ponte da cidade universitária uma equipe de reportagem flagrou um um carro que aquaplanou em um ponto de alagamento e bateu  no guard rail . Graças a isso e a chuva, a marginal estava parada. De baixo da ponte o cinegrafista mostrava as imagens do local.
Vi, ao fundo, que o rio já estava bem acima do seu nivel e lá,  em cima daquele aguaceiro uma pequena embarcação que parecia uma jangadinha  mantinha-se firme em seu trajeto pelo rio com seu condutor de pé,encapuzado, controlando a frágil embarcação, com uma longa vara. A frente, daquela provável jangadaera iluminada  por um lampião que ia pendurado num pequeno mastro..
        Mas que hora que esse maluco resolveu navegar...Engraçado o reporter não tê-lo visto e nem comentado nada...
Passei a noite de Sabado em casa vendo Tv.
No domingo também não foi diferente a não ser pela visita do meu vizinho que me surpreendeu, ainda de manhã.
A campainha tocou e ao abrir a porta, seu Djalma me sorria  com um pacotinho nas mãos.
-Ola vizinho. Fui até a padaria e comprei uns paezinhos de queijo. Você tem café?
-Ola Seu Djalma. Vamos entrando.
        Licencinha...

 
  27/05/2013

Eu não me lembrava a ultima vez que ele tocou a minha campainha. Acho que foi quando  me pediu emprestado uma extensão de tomada que até hoje, ainda não tinha recebido de volta...

        Sente-se seu Djalma, vou fazer um cafézinho.

Ele retrucou:

        Eu te acompanho até a cozinha...
Enquanto preparava o café fui puxando assunto.
        Quais são as novas seu Djalma?
        Na minha idade não se tem novidades. Todos os dias são iguais, a não ser quando vou ao médico. Mas também o diagnostico é sempre o mesmo.
        Ora seu Djalma. O Sr precisa sair mais....Aproveite o dia , vá caminhar, visite parentes, viaje...O sr vai ver como as novidades aparecerão.
        Não tenho vontade. Gosto apenas quando meu filho e meus netos vem me visitar no final de cada mês.Ele me fala a mesma coisa.
        Por que não vai morar com eles?
        Por que tenho a minha casa, as minhas coisas. Não me sentiria a vontade.Ele já me propôs isso. Fico onde estou e depois, a minha nora é insuportável.
Eu já sabia dessa teimosia em morar sozinho, mas de certo modo eu lhe dava razão. O fato de ir morar com o filho implicaria em seguir novas regras e isso nem sempre teria uma boa aceitação por parte do inquilino.
        Depois, a minha casa está do jeito que a minha falecida esposa deixou. Não teria coragem de desmanchar tudo.
        Mas o fato de eu ficar em casa não quer dizer que eu não possa ter uma proza com o meu vizinho de vez em quando. A não ser que eu esteja incomodando....
        Nada disso... vamos nos falar mais. Eu também não sou de sair muito. Do trabalho para casa, de casa para o trabalho.
        E parece que nenhum dos dois recebe muitas visitas....
A frase terminou com um acesso de tosse.
        Tudo bem?
        Isso é resultado de 50 anos de tabagismo.
        Espero que tenha parado de fumar.....
        Não meu filho. Segundo o médico também não adianta mais.Ele disse que eu poderia continuar fumando.Com oitenta e cinco anos não me proibiu de fazer  nada, mesmo porque eu parando de fumar agora não iria adiantar. O enfisema não iria regredir..
        Prefere  açucar ou adoçante?
        Açucar. Já tomo  remédio para diabetes.
Dei a xícara para ele e fomos para a sala
Sentou-se  ,abriu o saquinho e o pos em cima da mesinha de canto entre as duas poltronas.
        Sabe Roberto, apesar de não querer sair de casa sinto-me só. Os dias demoram a passar e agora com esse vizinho reformando o apartamento, além de demorados os dias estão irritantes. A noite durmo de luz acesa, pois tenho medo de morrer no escuro....
Engraçado como as pessoas gostavam de se lamentar para mim. Primeiro o portuga e agora o Seu Djalma.
-Ora Seu Djalma....O Sr tem muito tempo de vida ainda.
-Filho, não sou bobo e nem você tambem o é....ambos sabemos que o apartamento ai do lado vai ficar vago em um curto espaço de tempo.
Jamais, algum dia, eu tinha pensado nisso,mas enfim só me restava escutar.
-Caro, você é a única pessoa, fora o Osmar, que troca algumas palavras comigo neste prédio, a não ser bom dia e boa tarde dados cinicamente pelos outros vizinhos. Sinto em você uma pureza de espirito muito grande.
Ele deu um gole no café  com a mão trêmula .
-Tenho um pedido a fazer.
Fiquei olhando-o atentamente só esperando. Sabe-se  lá o que iria sobrar para mim. Sempre sobra para mim...
- Se a morte o procurar, estenda-lhe a mão. O anjo saberá retribuir.
- Que história é essa, Seu Djalma? Está me assustando, falando em morte ( a minha?), anjo....
Sem responder, acabou de tomar o café e levantou-se. Percebi que ele não responderia a nenhuma pergunta.
        Bom vou para casa, ver televisão.
        Tenha um bom Domingo.O Sr não vai levar o pão de queijo?
        Não...eu odeio pão de queijo.
E saiu pela porta da frente.
Fiquei alguns segundos estático tentando imaginar o que poderia estar passando na cabeça daquele velho.
Acabei deixando o assunto de lado e fui dar uma olhada nos meu e-mails. Peguei meu notebook e fui para a mesa de jantar.
Como de costume, vários e-mails pornograficos, enviadosdo Hans, muitas correntes, alguns fornecedores entrando em contato e um e-mail curioso. Tinha como remetente GLDEO-AM. Como não havia nenhum anexo, resolvi abri-lo. A mensagem estava em branco.
        Perda de tempo....
Seguindo conselhos do Hans, fiz uma pagina minha no FACEBOOK. Segundo ele eu reveria muitos  amigos  já esquecidos assim como antigos colegas de colégio e faria novas amizades. No inicio isso é extremamente interessante, porém com o passar do tempo passa a  ser coisa de gente que não tem o que fazer o dia inteiro, fuçando a vida dos outros. Mas uma vez por semana eu acessava o site pois mantinha contato com algumas comunidades da minha área profissional. Neste quesito o site era bem útil.
Desliguei o note book e fui a cozinha apanhar um refrigerante. Enchi um copo, ainda era cedo para almoçar. O saco com os pães de queijo do Seu Djalma estava cheio. Ningum havia comido.  Para falar a verdade, só ele tomou um gole do café. O meu estava em cima da mesinha, sem ter sido tocado e agora estava gelado.
Liguei a TV. Em um canal só de noticiário. Estava passando uma reportagem a respeito do conflito milenar entre judeus e palestinos. Uma rivalidade que já havia matado milhares e milhares de pessoas durante tanto tempo e não tinha a menor previsão de acabar um dia. Tudo por um pedaço de deserto na Terra Santa.
Estava entretido assistindo  a reportagem quando, novamente senti aquele repuxo nas pontas dos dedos da mão direita. No mesmo instante,ouvi um barulho de algo que havia caído dentro do quarto levantei-me para ver o que era, afinal eu estava sozinho em casa . Ao chegar no quarto, tudo estava em ordem, a não ser o caderno que eu havia encontrado dentro da mala. Ele estava no chão, talvez tenha ficado muito na beirada do criado mudo e aos poucos foi caindo. Joguei o caderno em cima da cama e atentei-me a minha mão. Já era a segunda vez que sentia aquele repuxo. Visivelmente não havia nada, mas começava a me preocupar.
Após um Domingo caseiro, passando o dia comendo e vendo TV, as 10 horas fui dormir.
Segunda feira , apesar  de ser o começo da semana, dia nada comemorável para a maioria dos trabalhadores era para mim o fim do tedioso final de semana praticamente dentro de casa. Voltava  a minha rotina no laboratório onde o trabalho me descansava mais do que ficar em casa.
-Bom dia Suzana.
-Bom dia Dr
-Como passou o final de semana?
-Bem Dr. e o Sr?
-Também...fiquei praticamente em casa...
        Nós tambem.....
        Bom, o convite para o próximo final de semana esta de pé.
        Pode deixar Dr. Vou falar com o meu filho.
        Ah, Dr, O Dr Andre quer vê-lo as 10 horas.
        Vixi...o chefe? Ele estava de bom humor?
        Parecia estar...O que o Sr andou aprontando?rs
        Eu? nada, cumpro apenas meu dever....
        Não deve ser nada demais, Dr. Quem sabe não é um aumento de salário?
        Sei...rs
        Bom, as dez eu fico sabendo. Obrigado.
        De nada Dr.
Em qualquer lugar do mundo, quando o chefe quer falar com o funcionário, ou a coisa é muito boa ou é o caos e geralmente o funcionário acha que é o caos.
        Fiz as minhas inspeções de rotina e as cinco para as dez estava sentado no sofazinho do quarto andar esperando ser anunciado pela secretária. A moça realmente, conforme comentários da sexta feira, era bem chamativa. Alta, morena, cabelos longos lisos, seus 22 anos. Mas de cara já denunciava um defeito. Por ser a secretária do presidente, achava que era a filha do mesmo. Arrogante ao extremo., nem olhou para mim.
        O Dr Andre vai atender-lhe daqui a pouco.
        Grato....
A última vez que eu tinha subido no quarto andar tinha sido no final do ano passado para ver um problema no ar condicionado na sala do chefe. Isso já tinha uns 10 meses....
A diferença do quarto andar para o resto do prédio era gritante. Enquanto os outros andares o piso era de ceramica convencional com móveis de escritório de aço, e persianas nas janelas, o piso do quarto andar era revestido de marmore preto, com tapetes espalhados e duas poltronas de couro preto perto da mesa da secretária. Na frente dessas poltronas  uma mesa de centro de madeira e algumas revistas em cima dela.. A mesa da secretária era de madeira com o tampo de vidro e design inovador. A iluminação de lâmpadas halógenas e as paredes revestidas com madeira. Vários  quadros de gosto duvidoso enfeitavam o ambiente. Num dos cantos uma maquina de café e água em garrafas.
        Estava lendo uma das revistas que datava de dois meses atrás, quando a Sueli ( escutei ela falar o seu nome  ao telefone), após atender uma chamada  me avisou.
        O Sr pode entrar.
        Grato.
Abri a porta devagar.
        Com licença DR....
        Entre Roberto, entre...

28/05/2013



        Sente-se.

        A sala do Dr Andre era tão suntuosa quanto a recepção. Um detalhe que me chamou a atenção foi um quadro atrás da sua mesa com uma imagem pintada à óleo de três crianças sentadas em um caminho de pedras. A paisagem refletia um lugar bem pobre com casas, também, de pedras ao fundo. As crianças não tinham mais de 10 anos, vestiam roupas rasgadas e estavam descalças. As mesmas pareciam estar olhando para o pintor , pois os três olhares seguiam o observador. A expressão das mesmas refletia sofrimento, talves pela situação de pobreza que viviam.

-Fazia tempo que não conversavamos.

        Quase um ano DR, desde o incidente com o ar condicionado.

        Lembro-me. A quanto tempo está conosco?
        Dez anos DR.
        Bastante tempo. As pessoas o elogiam muito. Pontual, eficiente, colaborador.
        Cumpro o meu dever.
        Certo. Mas está na hora de colher o que você plantou.
        Preciso de um diretor administrativo. Alguém que me auxilie e coordene toda  a parte técnica dos equipamentos e pessoal do laboratório. Quero cuidar apenas dos fechamentos de negócios e  da parte financeira. Encara o desafio?
Poderia esperar tudo naquele momento, menos uma promoção. Nunca tinha me preocupado com ascenção profissional e coisa e tal. Apenas queria viver em paz, porém aquela oferta mecheu com o meu ego.
-Lógico Dr!
        O seu salario vai aumentar, mas não se esqueça que o trabalho também...
        Ok..
        Qual a sua disponibilidade para viagens?
        Sou sozinho Dr. Não tenho nada que me prenda.
        Perfeito...o mês que vem voce terá que ir para Recife visitar um laboratório. Existe a possibilidade de nos fundirmos a eles. È uma filial de um grande laboratório alemão. Quero que você avalie  todos os equipamentos e infraestrutura deles e me envie um relatório. Semana que vem, te passo mais detalhes.Tudo bem com a viagem? Coisa de tres dias...Eu não posso ir. Já tenho coisas demais para resolver aqui.
        Tranquilo, Dr.
        Muito bem! Meus parabéns. Arrume suas coisas pois seu novo escritório vai  ser aqui em cima a partir de amanhã.
        Certo.
        Vamos, te acompanho até a porta.
        Me despedi e da porta e ele comunicou o fato a secretária.
        Sueli, a partir de agora você servirá, também, ao Dr Roberto.
        Sim, senhor.
O ser humano é engraçado. Até quinze minutos  atrás aquela moça mal olhou para a minha cara, agora abriu um vasto sorriso me fitando nos olhos. Despedi-me do mesmo modo que apresentei-me 
. e andei até a mesa onde estava a maquina de café, coloquei uma xicara ao invés do copinho plastico do refeitório no bocal e apertei a opção capuccino. A máquina do refeitório não tinha capuccino, só café e olhe lá....
Voltei para o mundinho do terceiro andar. Segui em direção a mesa da Suzana, apoiei as duas mãos em cima da mesa me curvei em sua direção enquanto ela me encarava .
        Me conte Dr. Não esconda nada.
Sorri para ela e sussurei no seu ouvido.
        Fui promovido. Amanhã me mudo para o quarto andar.
        Sério? Meus parabéns Dr.
Ela levantou-se da cadeira e me deu um abraço por cima da mesa.
        Desculpe Dr...me exaltei....
Percebi que realmente ela tinha ficado contente com a notícia.
        Não tem problema. Eu também fiquei bem contente. Agora tenho que arrumar minhas coisas e transferi-las para o novo escritório.
        Eu ajudo Dr.
Enquanto arrumavamos as minha mudança dentro de duas caixas de papelão, me ocorreu uma idéia. Dei uma titubeada, mas consegui falar.
        Suzana, que tal jantarmos juntos para comemorarmos a minha promoção?
Ela parou o que estava fazendo, ficou calada por alguns segundos.
        Dr., não tenho com quem deixar meu filho à noite. Pego ele na creche as sete  horas. Mas o Sr tinha falado no final de semana...Hoje vou falar com ele...Acho que ele vai querer fazer algo de diferente neste Domingo.
Ela  sorriu para mim após concluir a frase. Aquele dia estava sendo realmente especial. Uma conquista profissional e outra pessoal em andamento. Óbvio que telefonei para o Hans.
        Oi, papa defunto. Está galinhando ou trabalhando?
        Nossa...quanta alegria...Trabalho e deixo o MSN ativo para as minhas safadezas. Mas me conte por que está tão serelepe?
        Fui promovido e acho que este final de semana terei uma companhia mais atraente que voce.
        Mal agradecido....A moçoila aceitou sair?
        Praticamente só vai falar com o filho.
        Ah, tinha esquecido do pimpolho ….E que promoçaõ é essa?
        Meu chefe me promoveu à diretor.
        Meus parabéns!!! Vamos comemorar!!!! Que  tal um café hoje a noite?
        Feito!Dessa vez Eu pago.
        Não acredito....posso pedir algo para comer, também?rs
        Engraçadinho. Eu te pego as nove emeia.
        Estarei a sua espera, com flores.
        Rs....abraços.
No final do dia e da mudança, misturada com os afazeres habituais despedi-me da minha antiga sala e da Suzana.
        Tchau Suzana, até amanhã...
        Até Dr....puxa....agora que eu percebi que não serei mais sua secretária.
        Não se preocupe...virei ve-la todos os dias. Só mudei para andar de cima.
Vi seus olhos se encherem de lágrimas.
-É verdade...desculpe, mas é que eu estava  tão acostumada com o Sr....rs
        Fique tranquila. Vou pensar no nosso passeio de Domingo, ok?E para de me chamar de Dr, ou Sr....
Dei um abraço nela e despedi-me antes que também me debulhasse em lagrimas e fizesse um papelão na frente dela, afinal de contas eu estava somente mudando de andar...
Com tantas novidades no dia, esqueci-me do verão e o que isso costumava acarretar nos finais de tarde....e desta vez a coisa estava preta, literalmente falando.
O trânsito já estava complicado por conta do horário, mas eu não estava nem ai...Liguei o radio em uma estação musical e resolvi relaxar.
A chuva caiu não em pingos,mas em baldes em cima da cidade. O transito parou de vez e enquanto o mundo acabava lá fora eu resolvi jogar sudoku no meu celular. Desliguei o motor do carro e me entreti no joguinho.
        Depois de mais ou menos 15 minutos assustei-me com a buzina do carro que estava atrás de mim.O trânsito havia andado uns cinquenta metros.
Peguei a flanela  e desembacei o para brisa, liguei o motor e andei os cinquenta metros. Aproveitei para desembaçar os vidros laterais do carro. Passei a flanela na janela do lado do passageiro e comecei a  desembaçar a minha. Conforme eu ia tendo visão do lado de fora via que o rio  já estava subindo rápido.A visão que eu tinha era extremamente limitada, graças a quantidade de água que caia  e a escuridão do céu. Apesar de não ter uma visão nítida, eu tornei a ver a pequena embarcação navegando no meio daquela tempestade com o mesmo homem, encapuzado com aquela vara comprida que servia de leme ou remo, enquanto o seu caminho era iluminado pelo lampião de luz amarela, na ponta da embarcação. Só que agora era ao vivo.
Vagarozamente ele passou por mim. A tempestada parecia não incomodá-lo. Fiquei observando-o até sumir no meio daquela chuva. Mais uma vez fiquei matutando quem seria aquele maluco que gostava de navegar nas tempestades naquele rio fétido.
A fila andou mais uns 50 metros e tornou  a parar. E assim foi por mais de duas horas, entre Sudoku e andar cinquenta metros..
Consegui chegar em casa as nove e meia da noite. Ao entra na minha rua, percebi que os problemas ainda não tinham acabado. A rua estava às escuras. Isso queria dizer que provavelmente o meu prédio tambem estaria sem energia.
Subir cinco lances de escada se torna uma ardua tarefa para quem é sedentário e quase cinquentão.
 Desta vez a luz de emergência conseguiu me acompanhar até o quinto andar.
Ao chegar na porta do meu apartamento parei por alguns segundos para tomar folego antes de destrancar a porta.
A luz apagou e fiquei no escuro. De dentro do meu apartamento escutei um barulho de algo caindo.
        De novo?
Com os meu movimentos para pegar a chave, a luz do hall da area de serviço reacendeu. Abri a porta e comecei pela busca para saber que barulho tinha sido aquele.  Porém esqueci-me que a luz da escada era de emergência e que o meu apartamento estava sem energia. Na escuridão fui caminhando para o armário de ferramentas, na lavanderia e peguei a minha lanterna. Fui adentrando no apartamento e os passos que eu havia escutado outro dia na escadaria , agora estavam dentro do meu apartamento, atrás de mim. Virei rapidamente e seja lá quem fosse fechou  a porta da cozinha e saiu pela porta dos fundos, também, batendo-a. Alguns segundos depois cheguei a porta dos fundos e a abri. A saida de serviço estava as escuras. Por algum motivo a luz de emergência não tinha acendido com a saída de sei lá quem.
Senti um arrepio na espinha. Fui até a ponta da escada para tentar ouvir algo e nada.
Quando virei-me, dei de cara com Seu Djalma de pijama  com uma vela em um pires. O susto foi maior que quando escutei os passos.
        Porra, seu Djalma....que susto! O palavrão foi inevitável.
        Desde as quatro horas estamos sem luz. Já perdi a minha novela e jantei a luz de velas e nem sequer eu estava acompanhado para isso...
        O que o Sr está fazendo aqui fora?
        Vim trazer o lixo....e vc?
 

Foi quando reparei que na outra mão tinha um saquinho plástico de supermercado lotado de lixo.

        Ah...nada...

        Ele virou-se, abriu o latão de lixo e depositou o  saquinho. Voltou para o seu apartamento e antes de fechar a porta despediu-se.

        Boa noite, meu filho.
Quando estava entrando no apartamneto a luz de emergência acendeu.
Comecei a procurar o que foi derrubado dentro do apartamento. Aquela escuridão tornava dificil a investigação, apesar da ajuda da lanterna. Porém ao chegar à sala de jantar, vi uma luminosidade embaixo da mesa. Ao chegar perto, percebi que se tratava do meu notebook que estava no chão.
        Então foi isso....
Botei-o de volta em cima da mesa. A bateria já estava no fim, isso queria  dizer alguém ficou utilizando-o por quase duas horas.
A tela estava  na área de trabalho. Tentei identificar quais telas ou programas teriam sido utilizados mas não obtive exito. Tentei acessar a internet para tentar descobrir quais páginas foram acessadas e lembrei-me que não conseguiria, pois o roteador estava desligado por conta da falta de luz. Nisso a bateria deu seu último suspiro.
        Continuei andando pela apartamento para saber se algo mais estava fora do lugar.
        Não encontrei mais nada, visivelmente. Foi aí que me ocorreu a idéia de perguntar para o seu Djalma se ele tinha escutado ou visto algo. Se bem que quando o encontrei na escada não havia comentado nada. Mas não custava tentar.
Saí do meu apartamento e bati na porta dele. Escutei o passos do Seu Djalma andando de chinelos.
A porta se abriu e iluminado pela vela no pires, seu Djalma me comprimenta novamente.
        Olá, meu filho....estamos ultimamente nos visto bastante! Em que posso ser-lhe útil?
        O Sr, por acaso viu ou escutou algo no nosso andar, antes que eu chegasse?
        Acredito que não, meu filho...Dormi desde que a energia cessou e só acordei para jantar há cerca de uma hora , levei o lixo para fora e você estava na escada com cara de assustado. Aconteceu algo?
-Nada, nada...pensei ter ouvido algo em casa antes de entrar...
-Não quis assustá-lo com uma provável invasão.Boa noite, seu Djalma.
Voltei para casa e ao fechar a porta do apartamento a energia voltou. Agora dava para ver o que realmente tinha acontecido na minha ausência.
Na realidade após uma rápida varredura só o meu notebook  tinha sido“molestado”. Nenhuma das fechaduras estavam forçadas, o que tornava o episódio ainda mais estranho.
Liguei para o porteiro e perguntei se alguém, que não fosse morador tinha adentrado ao prédio e saído nas últimas horas. O mesmo disse que não.
Como não havia sinais de arrombamento e nada havia sido subtraído e o pior, não vi ninguém, só ouvi, achei melhor não ficar fazendo alarde.
Resolvi jantar somente uma maça , pois naquela altura do campeonato eu não estava a fim de colocar nada no microondas. Aliás, eu já estava  farto de comer aquelas mesmas coisas todos os dias. O meu fogão era mais um enfeite do que um fogão propriamente dito. Em cima da tampa de vidro, quase sempre fechada, havia um pano de prato, esticado, com as bordas feitas em croche. Comprei de uma senhora num farol da Av. Brasil. Tanto ela me atormentou que eu comprei. O pano era motivo de piada para o Hans cada vez que ele ia em casa.
Após o “jantar”, liguei para o Hans.
-Vou-me atrasar. Depois te conto.
Hans morava na Vila madalena, perto da  rua dos bares, quase em frente ao cemitério em um predinho de  5 andares.
Quando cheguei ele estava encostado no poste em frente ao prédio com o cachimbo na boca.
        Ta fazendo ponto?rs
        Para você. Só não beijo na boca.
        Entra aí....
        Olha o seu presente.
Ele havia comprado um vaso de violetas africanas.
        Muito obrigado.é pela promoção?
        Lógico.Voce merece! E como andas?
        Vai se levando....você não vai acreditar nas coisas que eu tenho vivido nos últimos dias.
        Por conta da promoção?
        A promoção é algo normal de acontecer. Estou falando de coisas incomuns, passos no meu apartamento, meu notebook ligado, jogado no chão...
        Eu, hein?
        Lá no café eu te conto.
        Ok....
        Com a chuva que caiu à tarde o povo resolveu ficar em casa e o café estava praticamente vazio. Arrumei lugar na porta.
        O que você vai querer?
        Já que você que está pagando, deixa eu ver.....ah, um café....rs
Chamei o garçon.
-São dois cafés puros e uma garrafinha de água sem gas, por favor.
-Me conta estou curioso para saber sobre suas experiências sobrenaturais.
-Muito engraçado....Hoje, ao chegar em casa, em plena escuridão, havia acabado a luz, escutei passos e algo caindo dentro do apartamento. Quando abri a porta e fui buscar a minha lanterna na lavanderia, seja lá quem era, saiu pela porta e sumiu pela escada.
- Você não foi atrás?
- Não...no momento em que saiu pela porta, não mais escutei os passos....O mais engraçado é a que a luz do Hall de serviço, não acendeu.
- Ué... mas não estava sem energia o prédio? Não ia acender mesmo..
-Acende sim, por que é alimentada pelo gerador e acendeu comigo quando cheguei.
- Deve ter dado algum defeito...
-Pode ser. Enfim, achei melhor esquecer o assunto. Não vi nada e nem ninguém...Só o meu note book que estava ligado, jogado no chão.
_ Beto, alguém estava lá dentro....
_Hans, não vi ninguém, só ouvi. Nada mais estava mexido. As portas não estavam arrombadas. Pelo contrário, estavam trancadas extamente como eu as havia deixado de manhã.
-          Fique atento....pode voltar. Bom, Me fale da sua promoção.
        Comecei hoje no novo cargo. Salário triplicado.
        Não se esqueça que salário triplicado implica em trabalho quadruplicado.
Comentou.
        Eu sei disso....mas o sacrificio de todos esses anos valeu a pena, apesar de eu nunca ter esperado recompensa.Todo o sacrificio é digno de  recompensa! Estou errado? O homem sempre espera recompensas quando se sacrifica...e muitas vezes elas não vem.
        Esse é o problema Beto. O homem sempre espera ser recompensado. Quer sempre algo em troca. Sexta-feira eu fiz um trabalho interessante.Fora dos padrões de costume .
        Não diga....para ter mechido com você, deve ter sido algo fora de série...
        Veja só. O cara me ligou contratando meus serviços. Pedi para ele mandar a foto por e-mail e o comprovante de pagamento. Até ai normal. O problema foi o descritivo de como ele queria  a ornamentação do esquife e a disposição do seu corpo....rs
        Vou me arrepender de perguntar, mas, Como era?
        Ao invés de flores, são espinhos. A volta toda do corpo e embaixo dele também. Os olhos devem ter as palbebras cortadas para permanecerem abertos e as mãos devem estar presas com arame farpado. Os pés pregados um em cima do outro e a boca com um lenço preto dentro.. O que acha disso?
        Bizarro....o que ele pretende com isto?
        Segundo ele o corpo vai pagar seus pecados enquanto a alma descansa.....

03/06/2013


        Mas por que cortar as palpebras?

        Desconfio que seja para que de a impressão que ele esteja sofrendo vivo.

        E o lenço preto na boca?

        Para que não possa gritar.....
        Mas vai estar morto....
        Será?rs
        E ele quer ser enterrado apenas com um pano em volta da cintura, tapando as partes intimas. Como Cristo, quando crucificado.
        Você já pensou em ganhar a vida abrindo uma loja de brinquedos , Hans?
        Rs.....brinquedos adultos?
        Desisto.Vamos mudar de assunto....Vou para Recife, graças a essa promoção.
        Quando?
        Mês que vem.Vou visitar um laboratório que talvez se afilie ao nosso.
        Grandes negócios. Voce sempre teve habilidade para unir forças.Quanto tempo vai ficar lá?
        Somente uns 3 dias....
        Lembranças para o Padre Cicero.
        Vou pedir para que ele te abençõe.....
        Dispenso! Sexta feira vou fazer um risoto de funghi. Você está convidado. Não gosto de comer essas comidas sofisticadas  sozinho. Gosto de fazê-las.
Hans era um cozinheiro de mão cheia.
        Combinado. Eu levo o vinho. Vai ter mais gente?
        Não, só nós dois. A bagunça é no Sabado...rs.
        Você tem empregada?
        Não. Eu cozinho e limpo, quer dizer, as vezes, limpo...rs
        E a roupa?
        Lavanderia uma vez por mês.
        Uma vez por mês?
        É uso a mesma camisa e calça a semana inteira. Pouco saio.
        E as cuecas?
        Não uso.
        Que horror, Hans....
        Opção de vida e economia. Você faz faxina na sua casa, lava as suas roupas e passa?
        Só não passo. Você já tentou passar uma camisa social? Deveria ter curso superior para isso. Deixo com uma passadeira perto de casa. Minha comida é industrializada. Ponho tudo no micro ondas. Mas já estou meio farto disso. Quanto a limpeza, passo um pano nas coisas....
        Eu já deixo a janela aberta e o vento leva a poeira.
A ironia de Hans era, as vezes, irritante.
        Estou com medo de ir a sua casa, Hans....Qual foi a ultima vez que estive lá?
        Não me lembro....
        A cozinha você mantém limpa?
        Bom, todas as baratas que eu vejo, dou uma sapatada...
        Espero que você passe um pano na sexta-feira,,,,rs
        Vou abrir a janela para ventilar....
Mais uma vez o tempo passou e já   era quase uma hora da manhã.
        Vamos embora, Hans.
Paguei a conta enquanto Hans dava umas pitadas em seu cachimbo, já do lado de fora do café.
Deixei Hans em frente ao seu prédio,Despedi-me e fui embora.
Levantei mais cedo do que de costume para conversar com o Osmar. Queria  que ele procurasse uma empregada. Agora ganhando mais, dava para arcar com esta despesa.
Estava esperando o elevador e ouvia, às 6horas da manhã, o som da TV do seu Djalma. Ele que reclama do barulho da obra, a tarde, não percebe que a tv está muito alta a esta hora da manhã?
Desci do elevador e o Osmar estava lendo o jornal de algum morador que ainda não o tinha pego.
        Bom dia Osmar.
        Bom dia Dr
        Deixa eu te perguntar...voce conhece alguem que precise trabalhar de doméstica?
        Para lavar, passar , limpar e cozinhar?
        É...por ai....
        Sempre aparece alguém perguntando por vagas...
        Não quero essas pessoas que aparecem....quero uma que seja da sua confiança.
        Talvez lá no  terreiro tenha alguém interessado.
        Onde???
        No terreiro que eu e minha patroa frequentamos, Dr. Somos da Umbanda.
        Ah, tá...Só não me traga encosto para trabalhar em casa...
A piada só teve graça para mim e resolvi não estender mais o assunto.
Voltei para o meu apartamento e preparei-me para ir trabalhar. Quando  saí pela porta, dei de cara com o Seu Djalma que estava prestes a tocar a minha campainha.
        Bom dia Seu Djalma. Levantou cedo, né? Escutei a sua TV, ligada....
Ele simplesmente não deu ouvidos a mim e perguntou:
        Quer horas o Sr chega?
        Se o tempo ajudar umas sete horas já estou em casa...
        Venho ver-lhe as nove. Tenha um bom dia.
Voltou-se de costas para mim e adentrou no seu apartamento. Nem esperou eu retribuir o cumprimento .Entrei no elevador e fui rumo ao trabalho
O novo cargo me rendeu alguns amigos novos. Essas pessoas, durante muitos anos, só me davam bom dia e boa tarde e  agora me convidavam para tomar café todos sorridentes. O ser humano é realmente um bicho interessante.
Suzana me interfonou.
        Olá, Dr. Como está indo aí em cima?
        Bastante coisa para fazer, mas sinto falta aí de baixo. O clima aqui é muito formal. E a minha sala?
        Esta fechada. Acho que vão contratar alguem para ficar lá. Ouvi dizer em um assistente administrativo.
        Ai, ai....lá vou eu ter que dar treinamento.
        Ué Dr...por que o Sr? Mande alguém ...agora não precisa mais ficar fazendo isso.
        Mas eu prefiro, assim as coisas andam do meu jeito. O RH já está selecionando?
        Parece que sim. Vi um pessoal la fora para ser entrevistado.E Dr...
        Sim?
        Conversei com o meu filho a respeito de Sábado.
        Ah, é? e.....
        Ele adorou a idéia! Está louco para saber onde iremos.
        Ainda não pensei nisso, mas até quinta feira eu te digo. Que boa noticia!
Ficamos em silencio por alguns segundos.
-Bom , Suzana, então estamos combinados. Quinta feira te dou uma resposta.
-Ok, Dr...Obrigada....
Quando eu desliguei o telefone, alguem bateu na minha . Era o chefe.
-Olá, Roberto, tudo bem?
        Tranquilo Dr. Estou me adaptando à nova função.
        Tenho certeza que consiguirá isso rapido.
        Obrigado Dr.
        Roberto estou fazendo umas mudanças na minha sala e algumas coisas estão saindo dela.Dentre elas o quadro que fica atrás de mim. É um quadro valioso e não quero me desfazer dele. Gostaria de coloca-lo aqui na sua sala. Pode ser?
        O quadro da três crianças?
        Esse mesmo!Reparou nele?
        Ele é chamativo....Parece que as crianças estão nos observando....
        Então posso colocá-lo aqui?
        Lógico...
        Obrigado Roberto. Ah, não se esqueça da sua viagem daqui a quinze dias, hein?
        Pode deixar Dr.
        Até mais...
Aquele quadro prendia demais a atenção do seu observador. As crianças tinham um olhar profundo, como se quizessem dizer algo...
O final do dia chegará e eu estava  cansado. A minha função agora era bem burocrática ao contrário da antiga que era botar a “mão na massa”.
Fechei a minha sala e desci ao terceiro andar para despedir-me de Suzana.
Cheguei em casa em tempo normal e parecia que a chuva iria dar uma trégua de dois dias segundo o rádio. Estava curioso para receber a tão esperada visita do Seu Djalma e numa pontualidade britânica a campainha do meu apartamento tocou as nove horas.
        Olá, Seu Djalma!
        Olá, Meu filho....está de bom humor... Isso é ótimo!Posso entrar?
        Lógico!
        Sente-se. Vou buscar um  café.
        Não se incomode. Sente-se aí. Me conte como tem sido esses últimos dias para você.
        Ué...normais....trabalho, volto para casa....
        Não aconteceu nada de novo ou diferente?
        Bem, eu fui promovido e consegui marcar um encontro para este Sábado...
        Muito bom. Se sente bem, fisicamente?
Seu Djalma nunca foi de muita prosa comigo e nem com ninguém. Ou ele estava cada vez mais gagá ou estava se sentindo carente.
-Me sinto muito bem seu Djalma...por que tanto interesse pelo meu bem estar?
-Ora, prezo pelo meu vizinho....afinal somos vizinhos de porta há tantos anos....
- Por isso mesmo...o Sr durante todos esses anos nunca foi de muita prosa...
- Estou tentando melhorar, apesar de tardiamente.
-Nunca é tarde para começar, seu Djalma. Fico feliz com essa sua atitude. Venha me visitar mais vezes.
_Virei, meu filho. Estarei sempre aqui do lado se precisar de algo.
Achei estranha a afirmação, pois era mais provável que ele precisasse de mim do que eu dele.
- Obrigado. O Sr também pode contar comigo.
Levantou-se da cadeira e antes de sair de casa colocou as duas mãos nos meus ombros, beijou-me no rosto e sussurou ao pé do meu ovido:
        Que Deus fique com você.
        Amém...
Naquela noite eu não dormi bem. Acordei vária vezes  e tive o mesmo pesadelo a noite inteira.Um dos maiores culpados  era o Hans. Aquela história do cliente dele tinha me impressionado e o  meu cérebro conseguiu juntar tres assuntos distintos e formar o enredo para um belissimo pesadelo. O cliente do Hans, o nosso acidente na Imigrantes e o Seu Djalma.
Eu nunca tinha sonhado com o acidente depois de tantos anos.
Eu e Hans estávamos indo para Santos em um feriado prolongado. Lá encontrariamos outros amigos e iriamos para um apartamento de um deles. Fomos no meu carro, num Sábado,  de madrugada. O feriado seria na segunda feira,  não me lembro qual feriado era. Apanhei Hans em casa e seguimos viagem.
Na estrada não havia problemas de visibilidade, não chovia, sem neblina e a estrada estava com pouco tráfego. Íamos a 100/110 Km/h tranquilamente. Passamos pelo pedágio e começamos a descer a Serra.
Passado o primeiro túnel, lembro-me ter comentado com Hans para que trocasse o CD. Nesse instante, na boca da saída do túnel, um carroceiro, apareceu do nada pelo lado esquerdo, saindo de alguma área de descanso e  se pôs na pista. Não dava para entender, como ele chegou a aquele ponto da serra e a polícia rodoviária não viu....
Lembro-me que não deu para ver o seu rosto,  a cabeça estava encapuzada.
Para não atropelar o infeliz, joguei o carro para a direita. Foi nesta manobra que eu perdi a direção e bati no barranco do outro lado da pista. Com a batida a 100 Km/h o carro capotou. A primeira capotagem eu lembro, depois não vi mais nada.
Acordei no hospital em um quarto onde ao meu lado direito estava alguém, desacordado, com a cabeça totalmente enfaixada. Do meu lado esquerdo uma  janela que mostrava a parede do prédio ao lado.
Depois vim a descobrir que a pessoa ao meu lado era o Hans que havia sofrido traumatismo craniano.
No meu sonho, Hans havia morrido eu estava no seu velório, porém só eu estava lá.Isso já era assustador, porém o que piorou o pesadelo foi que a descrição que ele havia dado do cliente dele dentro do esquife, era como ele estava. Caixão cheio de espinhos, pulsos amarrados com arame farpado, palpebras cortadas, pés pregados e ao invés do lenço preto, descritos pelo Hans, dentro da boca havia um papel amassado.
 Nesse momento, Hans começou a gritar em desespero tentado se soltar do arame farpado e do prego no seus pés. Quanto mais ele se mexia, mais ele se machucava nos espinhos e o sanghe escorria. Eu estava aterrorizado, quando de repente uma imagem  que emanava uma forte luz branca, que se colocou entre nós dois,  se virou para mim e disse:
        Saia daqui!
Após dizer isto, se virou  e foi empurrando aquele esquife enquanto Hans ainda berrava.
Acordei com os batimentos cardíacos acelerados. olhei o rádio relógio. 5h da manhã.
Levantei-me e comecei a rotina diária para ir trabalhar. No caminho para o trabalho, não conseguia tirar aquele sonho da cabeça.
Ao chegar no laboratório, subi direto para a minha sala sem passar pelo terceiro andar, como de costume, para cumprimentar Suzana.
Sentei-me na cadeira e por alguns instantes cobri os os olhos com as mão para dar uma relaxada. Ao tirar as mão dos olhos vi que na  parede em frente a minha mesa, o quadro do Dr Andre já estava pendurado com  as três crianças olhando para mim. Observei-os por alguns segundos, dei um suspiro e comecei  o meu dia.
Por volta das nove horas meu telefone toca. Era Suzana.
-Bom dia Dr....Não passou por aqui para me cumprimentar. Esqueceu-se dos pobres?rs
-Ah, Suzana...me perdoe....não tive uma boa noite de sono. Tive um pesadelo que até agora me atordoa...
-Desculpe, Dr, não queria incomodá-lo.
-Imagine Suzana,você não me incomoda. E como estão as coisas por aí?
-Estou bem Dr. Ontem meu filho me perguntou se o Sr já escolheu o lugar onde iremos no Domingo...
Eu tinha esquecido completamente o assunto e inventei uma desculpa.
-Estou em dúvida em três lugares... Todos eles o seu filho vai adorar...
-Fazia tempo que eu não via tão entusiasmado, Dr...
        Pelo o que você me contou, seus programas de finais de semana são sempre os mesmos...Não me admira uma simples mudança deixa-lo ouriçado....
        É verdade Dr. É que a gente vai se acomodando com a situação.
        Esse final de semana vamos começar a mudar isso...
        Quer dizer que poderá haver outros passeios?
        Bom.....se esse for aprovado e se  gostarem da minha companhia...
        Ah Dr, difícil não gostar de ficar em sua companhia.....
Ai ela se engasgou. Falou algo que talvez ainda não fosse o momento de falar.

06/06/2013



        Bem...eu..tenho que voltar para o trabalho....Os engenheiros estão atrás de mim....até logo Dr.

Desligou o telefone antes que eu pudesse me despedir.

-Preciso pensar em algo, até quinta feira....
Passei  o dia despachando. Não sabia que era tão chato ser promovido.Eu andava mais no meu outro cargo, agora a maior parte do tempo eu ficava enfiado naquela sala. Resolvi dar uma volta pelo laboratório .
É engraçado como as pessoas me viam com outros olhos. Ficaram mais formais, as brincadeiras cessaram, na verdade o que eu sentia era que todos passaram a ter medo de mim. Eu nunca pensei que pudesse causar esse sentimento em alguém. Preferia como era antes, quando tinha um relacionamento bem mais amigavel, mas talves fosse uma questão de me habituar à nova realidade, ou eu não tinha o menor perfil para um cargo de liderança..
Uma outra vantagem, além do aumento de salário, era que eu não precisava mais bater cartão. Tinha meu horário pré estipulado de entrada e saída, mas não precisava documenta-lo e naquele dia eu iria usufruir desta vantagem. As cinco e meia resolvi ir embora. Estava assonado pela noite mal dormida.
Voltei para a minha sala juntei os meus pertences  e comuniquei a Sueli que estava indo embora.
Desci para o terceiro andar e fui me despedir de Suzana.
        Tchau, Suzana, vou embora . Essa noite mal dormida acabou comigo.
        Aproveite para dormir mais cedo Dr. Belo pesadelo o Sr teve, hein?
        Nem te conto....até amanhã.
Naquele dia cheguei em casa no horário em que geralmente saia do trabalho, seis e meia.
Se eu deitasse na cama com certeza eu apagaria, porém com  eu acordaria  pela madrugada. Tinha que enrolar pelo menos até umas nove e meia. Ainda tinha que fazer o jantar. Já estava farto de ter que cozinhar todos os dias, ou melhor esquentar aquelas comidas congeladas.
        Será que o Osmar já tem alguma resposta para mim?
Na portaria, o interfone toca.
        Portaria, boa noite...
        Oi, Osmar, é o Roberto do 51.
        Boa noite Dr.
        Osmar, você conseguiu alguém para trabalhar aqui em casa?
        Ah, Dr., tinha me esquecido....Minha mulher tem uma tia que está vindo da Bahia no final deste mês. Vem de mala e cuia.
Incrível como sempre tem alguém que conhece outro que vem da Bahia. Ri comigo mesmo.
        Sei...sabe lavar, passar, cozinhar?
        Com certeza, Dr!.
        Qual a idade dela?
        Não sei a idade certa mas tem mais de 50...
        Ótimo, mulher com mais idade é sossegada.
        E o salario Dr?
        Para começar salário mínimo mais casa e comida.
        É..para quem está vindo sem nada, está bom demais...
        Traga ela aqui quando chegar, para conversarmos.É de sua confiaça?
        Tranquilo Dr. Conheço ela desde que me casei. Mais de 20 anos.
        Ok....Obrigado Osmar!
Desliguei o interfone  e esquentei  uma das prováveis ultimas lasanhas industrializadas que eu comeria.
Após o jantar liguei para o Hans para contar-lhe o que ele tinha provocado na minha noite de sono.
        Boa noite Dr. Agora, com a promoção, devemos respeitar a hierarquia...
        Sabia que voce é um viado?
        Tenho varia testemunhas que podem dizer o contrário.E por falar nisso estou trabalhando para um cliente bambi....Quer saber como  vai ser o caixão dele?
        De jeito nenhum! Depois vou ter outro pesadelo com uma bicha morta me agarrando.
        Rs....Outro pesadelo?E o que eu tenho a ver com o primeiro?
        Aquele seu cliente maluco que quer ser enterrado no meio dos espinhos...
        O que tem ele?
        Sonhei com esse infeliz....Só que ele era você.
Silencio do outro lado.
        Voce me escutou, Hans?
        Ah, sim, sim, é que voce me deu uma idéia....
        Ai, Ai....
        Nunca tinha pensado em me ver morto num esquife....
        Você  é louco....
        Vou trabalhar nisso...mas voce parece criança que vê filmes de terror e depois tem que dormir com a luz acesa...rs.
        Voce só me ligou para me xingar?
        Tinha que desabafar com o causador  do meu pesadelo.
        Bom, hoje quando você for dormir, ajoelhe-se no pé da cama e reze um pai nosso....quem sabe isso afasta seus pesadelos.
        Cheio de graça, você....
        Rs....Não se esqueça de sexta feira. Amanhã vou comprar os ingredientes.
        Pode deixar.E não compre o vinho.
        De jeito nenhum....E a sua namorada?
        Ela não é minha namorada.....Vai bem. Preciso ver onde vou levá-los no Domingo....
        Você tem que pensar na criança. Agradando o moleque, estará agradando-a.
        Não tinha pensado nisto....
        Pois é.....tenho prática no assunto. Já pensou no Zoológico? Divertido e barato....
        Grande idéia!!! Fico lhe devendo essa!
        Como já disse anteriormente, só estou anotando....
        E, como o seu “alegre” cliente quer ser enterrado?
        Ué...mudou de idéia?
        Você me animou....
        O cara é cheio da grana. Ele quer um caixão de acrilico preto, todo redondinho. Foge do padrão que conhecemos. Só ai, o cara já vai gastar uns 50 mil.....Terei que projetar o esquife da figura. Desse 50mil, eu to cobrando 15 pilas.
        Para quem está projetando algo novo, ta bom o preço. E por dentro?
        Ai vem o melhor....Ele quer que encha de bolinhas  de natal. Aquelas que enfeitam as arvóres, todas rosas....Ele tem certeza que vai morrer em Dezembro.
        Que maluco...E a roupa?
        Um terno vermelho, camisa branca, sapatos pretos e  uma gravata vermelha.
        Por que já não enterra com roupa de papai Noel????rs...Mete uma barba postiça e o gorrinho. Entre as mãos um saquinho vermelho, cheio de balas...
        Ora, ora...estou arrumando um concorrente?rs
        Cada um que aparece....O que teremos de sombremesa na sexta?
        Que tal maças do amor para comemorar sua saída no Domingo?
        Voce esta com inveja, mas eu gosto de maças do amor. Manda ver.
        Deixe comigo.Vou caprichar....
        Meu amigo, vou dormir. Como disse antes, dormi mal a noite graças a você.
        Não se esqueça do pai nosso, ajoelhado no tapetinho do lado da cama. Vai saber se não vai sonhar  com o meu cliente te enchendo de beijos? Isto seria sonho ou pesadelo?rs
        Eu, hein...rs
        Abraços....
Aquela noite dormi bem. Se sonhei, não recordei com o que.
No dia seguinte, no laboratório, a vida continuava. Aquele dia, em particular, as coisas estavam mais calmas. O que eu tinha que resolver fiz ainda na parte da manhã. A tarde prometia ser tediosa.
Em um momento de relaxamento, me estiquei na cadeira e recostei-me, colocando as duas mãos atrás da cabeça. Fiquei observando o quadro que de certo modo, também me observava. Após algum tempo levantei-me e fui vê-lo mais de perto. Procurei pelo nome do artista, mas não achei em nenhum lugar.
        Um quadro valioso sem sequer ter o nome do artista?
Outro detalhe que eu só percebi quando tirei-o da parede para procurar alguma assinatura, foi o fato dele ter sido pintado em um pedaço de madeira e não em uma tela como habitualmente eu estava acostumado a ver.
O que dava para perceber com certeza era que se tratava de uma pintura muito antiga. A moldura era de madeira trabalhada e não aparentava ter sido restaurada.
Coloquei-o de volta e centralizei-o.
Desci ao terceiro andar para contar a Suzana o que eu tinha resolvido a respeito do nosso passeio no Domingo.
Ela estava de costas atarefada no computador. Cheguei de mansinho e sussurei no seu ouvido.
        Olá...
Seja lá o que for que ela estivesse fazendo, o susto foi grande.
        Ai, Dr!!! quase infartei...
        Você é muito nova para isso. Então, já decide onde vamos no Domingo.
        Que bom! Onde iremos?
        No Zoologico, como programa principal.O que você acha?
        O Lucas vai adorar!Nunca foi....O máximo que ele chegou perto de um lugar assim foi no Parque na Agua branca, onde alguns animais ficam soltos. Mas, o Sr. Falou como programa principal....onde iremos, depois?
        Almoçar , oras...
        Ah Dr, mas aí já é demais.
        Nada disso, programa completo. Depois você me dá o seu endereço para ir busca-los.Fechado?
        Tudo bem....fechado!
Despedi-me e fiquei até o fim do dia correndo o laboratório para ver o fluxo de trabalho que um dia fôra meu e que hoje estava nas mãos de  alguns estagiários.
As seis e meia quando já estava fechando a minha sala, escutei o primeiro trovão. Lembrei-me do noticiário que alertava sobre o temporal dentro de dois dias. Acertaram em cheio.
Após duas horas de tortura no trânsito debaixo de chuva, cheguei em casa.
Liguei a tv como de costume e  deixei-a mais alto enquanto ia para a cozinha esquentar algo para comer.  Lembrei da prima do Osmar, ou seria da mulher dele? Já estávamos praticamente entrando em Dezembro. E parece que ela chegaria no final desse mês...
        Amanhã de manhazinha eu falo com ele...
Lá da cozinha eu escutava o noticiario. Arvores caidas, ruas alagadas, trânsito caótico ainda até aquela hora, quase nove horas da noite.
Voltei para a sala com um prato cheio de nuggets, ketchup e um copo de refrigerante.Sentei-me no sofa e continuei a ver o jornal da TV. Agora eles estavam na ponte das bandeiras mostrando a situação da Marginal Tiete. Enquanto o repórter falava a respeito do transito, a camera mostrava os dois lados da marginal parados. Foi quando eu vi um pontinho de luz no meio do rio, que se movia em direção à camera. Ele foi se aproximando e na minha curiosidade de poder enxergar melhor o que seria, fui-me levantando da poltrona e me aproximando da TV. Quando já estava a uma distancia de meio metro, vi que que aquele ponto luminoso era a iluminação daquela jangada que eu havia visto anteriormente. A medida que se aproximava da camera via-se a mesma figura  com uma vara guiando a jangada de cabeça baixa. Ao aproximar-me mais para tentar ver  melhor, aquela figura levantou a cabeça e olhou para a camera como se estivesse me encarando. O que eu vi foram apenas dois pontos brancos brilhantes no lugar dos olhos ou seriam os olhos mesmo. Incrivelmente nem a reporter nem o cinegrafista deram conta daquela cena singular  no rio.Enquanto ainda eu olhava para aquila figura e parecia que ela, também me olhava,  a TV desligou por si só. Tentei religá-la mas não funcionou.
        Queimou, essa porcaria......também, tem mais de 10 anos....
Vendo que não poderia mais desfrutar da companhia do meu  eletrodoméstico, resolvi preparar-me para dormir e tentando imaginar oq eu aquele maluco tornava afazer no meio daquele rio fétido.
Programei  o despertador para tocar mais cedo e assim falaria com o  Osma, que chegava as seis horas.
Não tive pesadelos a noite, porem acordei uma única vez com aquela sensação de repuxo nas extremidades dos meus dedos da mão direita, só que desta vez  senti formigamento também.
Quinze para seis o rádio relógio toca. Dei aquela enrolada na cama de cinco minutos e levantei-me. Após as rotinas de todo ser humano ao acordar, interfonei para a portaria.
        Bom dia Osmar.
        Bom dia Dr. Aconteceu algo? Ligando tão cedinho...
        Cadê a sua prima  que vinha da Bahia?
        Ah Dr, Eu vou pegá-la na Rodoviaria no Domingo a noite. Ela é tia da minha mulher....
        Bom, Não esqueceu do meu interesse em contratá-la?
        Não, Dr..Ja até falei com  ela a respeito....
        Ah, que bom....traga-a na segunda-feira, então...
        Pode deixar Dr. Quer horas?
        Se não cair nenhum temporal a tarde, lá pelas sete e meia eu já estarei em casa.
        Tudo bem...umas oito nós aparecemos. Se o Sr atrasar, nós esperamos.
        Ok, obrigado.
Desliguei o telefone  e fui me aprontar para sair.
No trabalho, resolvi marcar uma consulta médica. Estava começando a me preocupar com os sintomas que eu tinha na mão. Marquei pelo convênio na sexta feira, final da tarde, com o clínico geral.
Liguei para Suzana para dar-lhe bom dia. O telefone tocou várias vezes e ninguém atendeu. Resolvi alguns problemas e as dez horas, desci para cumprimentá-la. Ela não estava na sua mesa. Notei que a mesa estava arrumada, isso queria dizer que ela ainda não tinha chegado.
Para tirar a dúvida bati na porta do escritório de um dos engenheiros.
        Ola Flávio....Tudo Tranquilo?
        Olá, Roberto! Ainda não lhe dei parabéns pela promoção!
        Ah, muito obrigado...
        Precisamos sair e tomar uma cerveja para comemorar!
        Vamos marcar.
Como eu havia dito antes, a quantidade de amigos que eu fiz após a minha promoção, foi incrível...
        O que você manda, Roberto?
        Você sabe da Suzana?
        Sei, sim. Ligou dizendo que o filho estava doente e que não viria hoje.
        Então está explicado.Obrigado!
        De nada Roberto. Depois eu ligo para combinarmos!
        Ok..
Eu poderia arrumar o telefone da casa dela ou celular, no RH, para saber o que tinha acontecido, mas achei melhor esperar o dia seguinte e falar pessoalmente.
Subi novamente ao quarto andar e depois de pegar um café, quando ia abrindo a porta do meu escritório,  ouvi algo sendo arrastado lá dentro. Poderia ser a faxineira, mas eu trancava  a porta toda vez que me ausentava do andar , por conta de pequenos furtos que haviam ocorridos no prédio.
Destranquei a porta e desta vez abri  de uma vez só. Não havia ninguém dentro. Estava tudo intacto. Sentei-me na cadeira e como não havia achado nada de diferente, abri meu e-mail. Respondi alguns e outros tive que usar o telefone para entrar em contato, pois por e-mail não tiraria as duvidas do cliente. Muitas vezes a informalidade de uma conversa com o cliente gera uma fidelidade maior com a nossa empresa.
Em um desses telefonemas me recostei na cadeira e tinha criado o hábito de observar o quadro das três crianças enquanto eu conversava. Foi ai, que me deu um calafrio.O quadro estava pendurado por um dos vértices, ou seja , estava completamente torto na parede, como se alguém o tivesse devolvido as pressas ao prego. Eu sabia que não estava assim antes de eu voltar para a sala, pois  já havia olhado para ele e como eu disse, trancava  a porta todas as vezes que eu me ausentava.
Terminei de falar com  o cliente e fui ver de perto o que tinha acontecido. Tirei-o da parede e tornei a colocá-lo na posição correta. Achei melhor não tentar entender como aquilo tinha ocorrido. Talvez nunca descobrisse, ou fosse melhor não descobrir, porém estava ficando intrigado com a série de eventos que estavam acontecendo, comigo em um curto espaço de tempo.
Findado mais um dia, voltei para casa.
Chegando,  liguei o aparelho  de som, já que a TV havia pifado, sintonizei em uma rádio de musica clássica. Quando jovem, gostava de rock. Engraçado com os gostos mudam com o passar dos anos.
Fui para a cozinha e abri a ultima caixa de lasanha que  eu tinha. Enquanto observava o meu jantar esquentar no microonda igual a   cachorro que fica olhando frango assando na padadria, escutei uma confusão sonora na minha sala. A música clássica estava se misturando com outros sons. Alguém que falava e eu não conseguia entender nada o que dizia.
Fui até a sala e para a minha surpresa, a minha TV esta funcionando. Passava o noticiário local.Apesar de achar estranho fiquei feliz pelo ressireição da minha TV. Eu gostava dela.
Desliguei o aparelho de som e fui buscar o meu jantar.
Sentei-me na poltrona e a ultima coisa que me lembro é que após ter comido, assisti o começo de um filme na TV. Dormi por ali mesmo.
Acordei de madrugada na poltrona. Na TV passava um programa religioso. Olhei no relogio, eram três horas da manhã. Desliguei a TV e levantei-me para levar a louça suja para a cozinha.
No caminho para a cozinha eu levava o prato e os talheres na mão direita e o copo na esquerda. Quando eu ia depositar tudo dentro da pia, minha mão direita começou a formigar e mais uma vez senti repuxar todas as extremidades dos meus dedos, só que desta vez o sintoma foi muito mais forte, a ponto de eu deixar cair o prato no chão. Olhei para a minha mão e as minhas unhas, todas elas, estavam sangrando na cuticula e as pontas dos dedos ficaram roxas.
Alguns segundos após, escutei passos na minha sala. Corri para lá e, óbvio, não tinha ningém. Preocupado com a minha mão, que agora doia, esqueci esse episódio, peguei a chave do carro, passei um lenço em volta da mão e fui para o pronto socorro.

10/06/2013



Dentro do consultório o médico, que provavelmente estava dormindo haja visto o cabelo despenteado  a camisa amassada e o bafo, sentou-se em sua cadeira, pegou uma folha de sulfite em branco da gaveta da mesa e puxou uma caneta do bolso.

- O que o  há de errado com o Sr.?
Mostrei a minha mão e resumi os fatos.
        O Sr. prensou os dedos em algum lugar?
        Não...
        Todas as suas unhas estão deslocadas. Por isso o sangramento. E o diabetes como anda?
        No último exame de sangue que fiz, há uns três meses , estava normal. O que tem a diabetes com a minha mão?
        Poderia explicar esse roxo nas extremidades....estranho...Vamos tirar um RaioX.
    Desconfia de algo Dr? Não é a primeira vez que me acontece. Só que das outras vezes o sintoma foi bem mais ameno. Só um repuxão e o formigamento.
        Você não sofreu nenhum traumatismo, diabetes normal, talves um problema circulatório explicaria o roxo dos dedos, mas essas unhas deslocadas....
Ele pensou mais um pouco, olhou para mim fixamente e perguntou;
        O Sr. Possui algum hábito não convencional, cometeu auto flagelo, usou drogas, foi torturado, ou algo do gênero?
        Nada disso, Dr.
        Entendi...Volte aqui com o Raio X.
A dor tinha melhorado, mas a mão tinha ficado sensível. Eu mal podia dobrar os dedos.
Voltei com o Rx . A vantagem de ser ir ao hospital de madrugada é a rapidez com que se resolve as coisas. Em 15 minutos eu já estava com o raio x nas mãos e batendo à porta do consultório.
        Pode entrar.
        Com licença. Aqui está Dr.
Ele pendurou o filme no negatoscópio, observou por algum tempo e concluiu.
        Sem fraturas, esmagamento...Vou te receitar um anti inflamatório. Vai tomar aqui mesmo, na veia .Vamos proteger essa mão com uma faixa.
        Posso ir trabalhar Dr?
        Pode, mas mantenha a mão em repouso, durante alguns dias.
        Eu já tinha marcado uma consulta com o meu médico, para hoje, final da tarde Dr.
        Ótimo. Leve o Raio X. Aqui está a receita. Vá até a enfermaria e entregue-a para ser medicado.Estou receitando um analgésico para você tomar em casa.
        Obrigado Dr.
Fiquei mais uns 45 minutos na enfermaria, tomando a medicação.
Enquanto esperava o frasco de soro acabar, fiquei observando o que acontecia ao meu redor, já que não me restava mais nada a fazer.
Do meu lado direito uma jovem, não mais de 20 anos, cochilava enquanto, também, tomava algum remédio intravenoso.
Do meu lado esquerdo um senhor já com os  seus setenta anos, fazia inalação e de minuto em minuto tossia uma tosse molhada bem secretiva. Ao notar que eu o observava, tirou a máscara fitou-me nos olhos e com um sorriso amarelo, exclamou:
- Tem um cigarro?
- Não senhor, não fumo e acho que aqui não é permitido fumar.
- Não é para agora. É para quando eu sair.
Não pude evitar a pergunta.
-Essa inalação, não é por conta do cigarro?
- Não...é por causa da gripe.
Nisso, escuto a garota do meu lado dizer baixinho:
-Ele tem enfizema. Ouvi  a enfermeira conversando com o médico enquanto preparava a inalação.
Quando voltei o olhar para o idoso ele havia adormecido.
- E você , o que aconteceu? – Me perguntou.
Não quis entrar em detalhes e apenas disse que estava com uma crise de tendinite.
_ Sei...minha mãe tem isso. Muito computador.Ela é escriturária aqui no hospital.Vira e mexe trava a mão dala.
-E você ? Tão nova e tomando soro....
- Gastrite nervosa, dizem os médicos. Não é difícil eu tomar soro com medicamento para tirar a dor.
Naquela idade e com gastrite nervosa.
- Mas, nervosa com o que?
- Ainda não descobri, mas deve ser por conta do meu padrasto.
-Por que?
- As vezes ele me bate. Chega drogado de pedra em casa e vai dando porrada em todo mundo.
- Meu Deus...tem que internar ele em alguma clínica, denunciar...
- E quem consegue? Foge, e volta mais violento.
Nisso o que me pareceu ser a mãe dela, apareceu.
- Oi querida. Já está melhor?
- Estou sim. Estava conversando com o moço. Sabia que ela também tem tendinite?
A mulher já com seus cinquenta anos, virou-se para mim e sorridente me cumprimentou.
-Boa dia. Sou a mãe da Clara.
- Bom dia. Estávamos jogando conversa fora para passarmos o tempo.
-E sobre o que conversavam?
Nisso, a menina respondeu rapidamente.
- Ah, mãe, sobre tendinite.
A mulher estendeu o braço para mexer na válvula do equipo. Foi quando vi um grande hematoma que apareceu por debaixo da manga da sua blusa, na altura do pulso. O hematoma era claramente formado pela marca de dedos.
-Filha, já está acabando. Pelo horário nem vou voltar para casa.
- Tudo bem mãe.
- Moço, obrigado pela conversa. O tempo passou mais rápido.
- Imagina....também gostei do papo.
Despediram-se de mim e saíram  da enfermaria.
O Sr.ao meu lado, agora, roncava.
Imaginem só ser espancado por alguém que chega em casa drogado.Fiquei pensando no que aquelas duas sofriam, mas também  não entendia por que não fugiam, sumiam. Sei, lá, o ser humano é muito estranho.
A enfermeira chegou perto de mim , olhou o frasco de soro e questionou-me:
-A dor passou?
-Sim, melhorou bem!
- Ótimo. O remédio acabou. Se o médico o liberar, pode ir embora..
Sai do Hospital quase cinco e meia da manhã. Fui para casa para me preparar para o trabalho apesar da noite mal dormida e da mão dolorida, se bem que ela havia melhorado bastante com a medicação.
No Hall de entrada do meu apartamento, escutava novamente a TV do seu Djalma, em volume alto.
Tomei um banho, me vesti e pus-me a caminho do trabalho.
Ao chegar no laboratório, a primeira coisa que fiz foi subir ao terceiro andar para falar com Suzana.
        Bom dia Suzana!
        Bom dia  Dr...O que houve coma a sua mão?
        Na realidade nem eu sei. Mas doeu  bastante. Hoje no final da tarde tenho médico marcado. E o Lucas?Como está?
        Ah, o Sr ficou sabendo?
        O Flavio me contou. O que ele teve?
        Ninguém sabe...um febrão. Agora já está bem melhor. Esta em casa, nem a escola foi. Só fala no passeio de Domingo.
        Será que vai dar para ele ir?
        Os médicos disseram que poderia ser uma virose. Acho que iremos, sim . Só se ele tiver uma recaída.
        Por falar nisso, me dê o seu endereço.
        Posso passar-lhe por e-mail? Assim eu dou umas dicas de como chegar.
        Tudo bem. E aqui, tudo tranquilo?
        Tranquilo até demais Dr. Esses engenheiros ficam trancados o dia inteiro nas salas.Só me ligam para pedir algo. Tem dias que acabo o serviço mais cedo e fico  um tempão aqui sozinha. Chega a dar medo.
        Quer dizer que eu agitava o andar?rs
        Ah, Dr..com certeza....E...a sua nova secretária? É melhor do que eu?rs...
        Pouco falo com ela. Você sabe que não sou de ficar pedindo as coisas. Também achei-a meio arrogante. Você a conhece?
        As vezes a vejo no estacionamento. Mas nunca conversei com ela.....é uma mulher bem atraente....não acha?
        O visual não é tudo.E....você também é muito atraente.
        Estou velha, Dr...
        Eu diria madura.
        Por que nunca se casou Dr?
        Acho que não encontrei a pessoa certa. Tive alguns relacionamentos, mas nada duradouro. Me dediquei muito ao trabalho, sei lá....a vida foi passando....
        Sei....Ou será que o Sr é muito exigente?
        Acho que sou mais chato que exigente.
        Como assim?
        Tenho minhas manias, que estão mais acentuadas com a chegada da idade. As vezes nem eu me aguento....
        Todos nós temos manias, Dr. O segredo é um respeitar as manias do outro,  coisa que geralmente não acontece. Ai, os conflitos aparecem entre os casais. O respeito e o diálogo são a base de tudo, não só do casamento, mas também da amizade, do trabalho, da família. O problema Dr, é que respeito e dialogo , já não fazem mais parte do nosso cotidiano. O amor virou um negócio, não é mais um sentimento.
Fiquei pasmo com as declarações de Suzana. Talvés aquele raciocínio fosse fruto das experiências que ela teve com relacionamentos anteriores, ou até mesmo com o seu falecido marido. Diante daquela pequena aula sobre  relacionamento humano, não me restou mais nada a dizer a não ser concordar com a cabeça.
        Que cara é essa Dr?rs.
        Hã.? nada … desculpe....estou impressionado com o seu modo de pensar.
        È o que eu acho.
        E sabe o que gera tudo isso, Suzana? A ganância descontrolada do ser humano por dinheiro e poder. Nós vamos nos extinguir por conta dessas duas coisas....
        Tenho fé em Deus que isso não vai acontecer Dr. Ele vai interceder por nós. Já fez isso uma vez, vai fazer de novo.
        Tomara., tomara....Bom, vou para o meu escritório. Tenho que começar a ver as coisas para a minha viagem para Recife.
        Que beleza, hein Dr? Recife.Não quer companhia?rs
        Vou a trabalho, só três dias.
        Pelo menos  foge da rotina, Dr.
        A minha rotina já está alterada há algum tempo....
        Por que?
        Domingo, eu te conto com calma.
Despedi-me e subi para o meu escritório.
Antes de destrancar a porta, pus a orelha bem perto dela, imaginando que talvez eu voltasse a ouvir passos ou sei la o que. Silêncio absoluto.Entrei devagar e não havia nada anormal. O quadro estava do mesmo jeito que eu havia deixado no dia anterior.
Liguei para o Dr André para  termos a reunião a respeito da viagem.As duas horas ele me atenderia.
Posso afirmar que é extremamente desagradável não dispor de uma das mãos. Tudo fica mais difícil, inclusive escrever. Tentei mas não consegui. As pontas dos dedos doiam quando empunhava uma caneta. No computador o jeito era “ catar milho”. E para ir ao banheiro, então? Uma tragédia....
Na hora do almoço, nada de usar a faca. Eu Parecia criança pedindo para cortarem as coisas para mim e isso perduraria por uma semana. Somente um dia antes da minha viagem eu tiraria a imobilização.
As duas horas fui a sala do Dr André. Definimos o que eu deveria avaliar na visita e qual seria a proposta a apresentar e ouvir a contra proposta. A única coisa que eu não poderia deixar transparecer era que queríamos de qualquer jeito nos unirmos a eles.
Após a reunião, pedi para Sueli fazer as reservas de vôo e hotel.
Terminei o dia despachando alguns documentos e as quatro e meia fui embora rumo ao médico.
Apesar de sair as quatro e meia da tarde, o transito já era compatível com o do final do dia.
A consulta era perto de casa, as cinco e meia e pelo visto chegaria em cima da hora.
 
 
 
 
 
 

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