INÍCIO
Seis e meia. Já está na hora de
juntar as coisas e ir embora. Pela janela da minha sala eu via que seria outro
dia de caos em São Paulo. As nuvens já haviam formado um enorme tapete negro em
cima da cidade.
O laboratório em que
trabalho fica em Interlagos, bairro da zona sul de São Paulo e eu morava na
Lapa, zona oeste, ou seja, tinha um bom trajeto para percorrer na marginal
pinheiros. Em dias normais eu levo 40 minutos para chegar em casa, mas nestes
dias de tempestades, com sorte eu chegaria em 3 horas.
Desliguei o
computador, juntei meus pertences e apressei-me em sair do prédio.
Despedi-me de
Suzana, nossa secretária, digo,
nossa, por que ela servia a mim e a dois
engenheiros. Pessoa pacata, já com os seus 40 anos, cabelos longos, ruivos,
porém sempre presos, bem magra.
-Até amanhã Suzana.
Quero ver se chego em casa antes do diluvio...
-Eu também já
vou sair....mas acho que não vai adiantar muito....
- Bom, pelo menos
quero entrar no carro, seco....rs....
Ao chegar no pátio
do estacionamento uma ventania anunciava que eu tinha pouco tempo para
chegar ao meu carro.
Consegui entrar no
Opala são e seco. Mais do que depressa dirigi-me para a saída do
estacionamento, pois quando caem essas tempestades, as ruas em volta do
laboratório alagam e eu não estava querendo dormir no meu escritório, coisa que
já havia acontecido no ano anterior por conta de uma dessas tempestades.
Liguei o rádio e era
óbvio que o destaque da hora era a chuva que já começava a molhar o meu
para-brisas e lentamente ia engrossando.
Consegui passar pela
primeira etapa e quando acessei a Marginal a água já caia solta. Me conformava
com a idéia de chegar em casa depois das dez da noite....
Consegui acessar a
via expressa, digo, consegui, pois o trânsito já estava congestionado e não
havia 10 minutos que estava chovendo.
Naquele anda e para
eu via que o limpador de para brisa ligado ou desligado era a mesma coisa. Já não enxergava além do capô
do carro e o desembaçador era cúmplice
do limpador.
Com uma flanela que deixava
no porta treco, eu tentava inutilmente desembaçar, pelo menos, o vidro da
frente, já que o de trás, era melhor
esquecer...
A uma certa altura
já era possível ver os primeiros efeitos da tormenta. Vários carros parados no acostamento vítimas
dos pontos de alagamento. Tentaram passar e ficaram. Aí era a tragédia. Sair do
carro, empurrar e ficar por ali sabe la
até que horas além da despesa com o guincho e a roupa molhada. Eu ia na faixa
do meio, onde o acúmulo de água era menor.
Após 40 minutos de chuva forte, São Pedro deu uma
trégua. Abri as duas janelas do carro para desembaçar os vidros e consegui ver
melhor o resultado do aguaceiro à minha volta. O rio Pinheiros estava muito
acima do seu nível, alcançando os trilhos do trem. Na superfície do rio, sendo
levados pela correnteza , garrafas pet, sacos de lixo, partes de vegetação de
algum lugar ou da própria margem do rio, um sofá e logo atrás parecia ser uma
cadeira seguidos por objetos não identificados
e outras coisas mais que não vale a pena comentar.
Depois de sofríveis 3
horas consegui pegar a via local e sair
pela ponte da Anhanguera. Já estava perto de casa.
Após mais alguns
pontos de alagamento e trânsito parado, cheguei no meu prédio.
A chuva já havia
parado há muito tempo, mas as consequências com certeza perdurariam até o dia
seguinte, ou mais.
Parei o carro e
percebi que a garagem ainda estava vazia em um horário em
que geralmente a maioria das vagas já estavam ocupadas.
Entrei no elevador,
tecla do quinto andar e me olhei no espelho. Os anos haviam passado. O cabelo
já não era da mesma cor e quantidade, as
marcas de expressão estavam bem acentuadas. Fora, que para observar tudo isso,
eu tive que me aproximar bem do espelho pois a visão também denunciava que eu
já não era mais um universitário.
No hall de entrada
eu ouvia a TV do meu vizinho, o Sr Djalma. Viúvo morava ali há mais de 15 anos
sozinho. Já beirava os 80 anos e não queria saber de sair dali. Falar em casa
de repouso com ele era arrumar inimizade para resto da vida, a dele pelo
menos...
“Ainda bem que a
energia não acabou”.
Deixei a mala no
sofá e após tanto tempo, consegui ir ao banheiro. Logo após, liguei a TV e fui
ver o que eu conseguiria fazer para o jantar.
Para facilitar a minha
vida eu enchia a geladeira com produtos para micro-ondas.Nada saudável, mas
muito prático.
Escolhi a lasanha ao
sugo e a deixei esquentar no micro-ondas enquanto pegava o refrigerante e
enchia o copo até derramar.
Enquanto esperava o
jantar, dei uma chegada na sala para ver o que estava passando na
TV.
Como havia chegado
tarde em casa, o jornal já havia acabado e estava começando a famigerada novela
das oito que sempre começa depois das nove. Troquei de canal e após rodar 50
dos 120 canais da TV a cabo deixei em um documentário sobre as catástrofes
naturais do Planeta que ocorreram e aquelas que ainda estão por vir. Com
certeza uma delas tinha acontecido hoje.
O micro-ondas apitou
e fui buscar o meu jantar. Sentei-me na poltrona em frente a TV e voltei a
trocar de canais pensando o quanto de dinheiro eu jogava fora pagando por
aqueles cento e tantos canais, sendo que apenas uma meia duzia prestava.
Resolvi deixar mais
uma vez no canal de documentários e com a barriga cheia não demorou para que eu
começasse a “pescar” no sofá.
Vendo que em breve
eu acabaria ficando por ali mesmo, levantei-me e pus-me a seguir a rotina de
todo ser humano alguns minutos antes de ir para a cama. Quando olhei o rádio
relógio no meu criado mudo, pela ultima vez, eram 11h. Deitei na cama, apaguei
a luz e não vi mais nada.
Acordei assustado
com o celular tocando desesperadamente.
Olhei no rádio relógio e eram quatro horas da manhã. O visor do celular acusava
que a chamada era do laboratório, deixei o meu número com a segurança em caso
de alguma emergência noturna. Ossos do ofício.
-Alô?
-Dr Roberto? É o
Agenor... sou o segurança da noite do laboratório.
-Bom dia, Agenor.Aconteceu alguma
coisa?
-A energia acabou e
o gerador não ligou. Tenho o telefone do Sr aqui, na listinha, em caso de
acontecer alguma coisa de madrugada.
-Você é novo aí, né?
-Estou cobrindo as
férias do outro vigilante....
-Então não te
passaram os procedimentos de emergência, nesses casos de queda do gerador?
-Não senhor.....
Não adiantava ficar
argumentando com aquela criatura do outro lado da linha. A situação tinha que
ser resolvida logo, pois com a queda de energia, as geladeiras onde estavam
armazenadas as vacinas paravam e com isso havia um tempo hábil para religa-las
antes que os medicamentos deteriorassem, já que não havia previsão da volta da
energia..
-Estou indo para
aí....Daqui a uma hora hora vá para o portão da frente. Eu tenho um opala
prata.
-Ok Dr....
Sabia que não iria
dar tempo de voltar para casa para tomar banho, me trocar e voltar para o
laboratório, então já fui preparado para ficar o dia todo.
Fazia tempo que eu
não saia de casa, ou chegava em casa de madrugada. Tinha esquecido o quanto era
tranquilo o trânsito, apesar que, a esta hora, várias pessoas já estavam na rua
prontas para enfrentar mais um dia de loucura no transporte coletivo para chegar no trabalho.
Porém, neste dia, o
trajeto seria mais doloroso, por conta dos estragos deixados pela chuva no dia
anterior. Muitas ruas estavam alagadas, arvores caídas e sujeira espalhada por
todo o lado.
Apesar do trânsito
estar tranquilo, em alguns lugares estava dificil de dirigir.Enfim, entrei na
Marginal e em incríveis 20 minutos cheguei à porta do laboratório.
Ao longe eu via o
vigia se aproximando do portão,empunhando uma lanterna..
-Bom dia, Dr.
-Bom dia. Pelo visto
ainda estamos sem energia. Você ligou para a concessionária para saber qual a
previsão da volta?
-Liguei Dr. Eles
falaram que só depois das 10h. Estão com muitas ocorrências.
-Sei....bom, vamos
ver por que o gerador não acionou...
-Me acompanhe com a
sua lanterna. A minha está no escritório.
Estava começando a
amanhecer, mas a escuridão ainda
perduraria por pelo menos mais meia hora.
-Engraçado o
automático do gerador não ter acionado. Foi feita a manutenção semana passada.
Enquanto o vigia
apontava o facho de luz para a cabine do gerador eu verificava as chaves de
acionamento e reparei que um dos contatos estava queimado.
-Eu vou te ensinar como ligar o
manual quando o automático não entrar, Ok?
Não obtive resposta. Sem olhar
para trás, chamei novamente, enquanto fechava a porta do painel.
-Ok??
Novamente não obtive resposta,
mas desta vez olhei para trás e a única coisa que eu via era o brilho da
lanterna que me ofuscava. Joguei o corpo para o lado e vi que o vigia estava com fones de ouvido, escutando
música pelo celular olhando em direção oposta a minha. Dei dois tapinhas no
seu ombro. Com o susto ele praticamente arrancou os fones de ouvido.
– Desculpe Dr. Já terminou?
– Já....quero te ensinar a ligar o
manual quando o automático não funcionar, mesmo por que vou ter que falar com o
eletricista agora de manhã.
– Está vendo estes dois botões? O
vermelho e o verde? Primeiro você aperta o vermelho e depois o verde e depois
aciona está chave.
– Ao acionar a chave o barulhento
motor diesel começou a funcionar e várias luzes acenderam em volta do
laboratório.
– Entendeu, como funciona o acionamento
manual?
– Entendi Dr.
Quer horas são?Perguntei.
– Quase cinco e meia.
– Vou ver se as geladeiras
voltaram a funcionar.
– Precisa de mim, Dr?
– Não, obrigado. Pode voltar para
o seu posto. Você vai ficar todas as noites cobrindo o outro vigia?
– Parece que sim. Até o mês que
vem.
– Se alguém o substituir, não
esqueça de passar esse procedimento.
Segui até os fundos
do laboratório, abri a porta do
almoxarifado e desativei o alarme. Dava para escutar o barulho dos compressores
das geladeiras trabalhando.
– “Funcionando de novo”.
Ainda não eram seis
horas. Meu expediente começava as sete. Tinha saído de casa sem comer nada e
resolvi dar um pulo no boteco do portuga que ficava em frente ao laboratório.A
essa hora ele já estava aberto visando a freguesia que chegava de madrugada
para esperar os ônibus no ponto ao lado do boteco.
Com o dia já
clareando, era possível observar o estrago causado pela chuva do dia anterior.
Muitos pontos de alagamento, sacos de lixos no meio da rua, muito barro, alguns
carros que tiveram o azar de estar na hora e lugar errados.
Atravessei a rua
desviando de algumas poças de agua e entrei no boteco em frente ao
laboratório..
O velho português estava naquele
ponto há mais de 20 anos. Conhecia todos da região e a mim há pelo menos 10
anos. Os operários do laboratório que não levavam marmita almoçavam ali.
Juntando os
passageiros dos ônibus mais os operários do laboratório, o portuga ganhava uma
boa grana entre marmitas, cachaça e almoço no local. Incluo a cachaça, por que
era normal encontrar, durante todo o
dia, pinguços adentrando sóbrios e saindo completamente embriagados.
Vi o
portuga de camiseta branca, chinelo de dedo e barra da calça nos joelhos, com um rodo,
provavelmente acabando de limpar o estrago do dia anterior dentro do boteco.
– Bom dia portuga.
Sem parar o
que estava fazendo, apenas retrucou:
– Ainda não fiz o café.
– Muito estrago?
– Não fui para casa.....passei a
noite limpando tudo.
O mau humor
era evidente e eu não podia culpá-lo.
– Deixa para la portuga. Quando
chegar a copeira do laboratório eu tomo um café .
Ia dando meia volta
quando ouvi um suspiro.
– Sente aí Dr. Vou fazer o café e
descansar um pouco. Ainda não comprei pãozinho,mas tenho bolo de ontem.
– Aquele de laranja que a sua
esposa faz?
– Aquele mesmo.
Percebi um
esboço de sorriso naquele rosto,
castigado pelo tempo e com a barba por fazer.
Tirei duas
cadeiras de cima de uma das mesas e fiquei observando o movimento enquanto
esperava o meu café com bolo.
O povo passava e eu não podia
deixar de ouvir as conversas e lamentações.
-”Não sobrou nada. A água estava na altura da cintura
dentro do barraco”.
-”Cheguei em casa quase a meia
noite. Ainda bem que minha mãe foi buscar as crianças na creche”
-”Perdeu o marido e a sobrinha.
A parede caiu em cima deles”....
– Cá esta´.....
Era o
portuga com dois copinhos de café e um belo pedaço de bolo de laranja.
– Você não vai comer, portuga?
– Não...é de ontem....(rs)
- Portuga, se
fosse da semana passada eu ia comer. Esse bolo não tem igual
Cheio de
orgulho, da guloseima da mulher, respondeu.
- Eu sei Dr.,
pode comer que ainda está fresquinho.Eu o guardei dentro dessas embalagens
modernas que conservam as coisas por mais tempo.
Após alguns
segundos de silêncio e um gole de café ele desabafou.
- Sabe Dr,
eu estou cansado. São 50 anos anos nessa luta. Ano que vem vou pegar minha
mulher e voltar para Portugal. Meus filhos jã estão criados. Vou viver do que
juntei a vida toda. Já não tenho a disposição de antigamente e esses
acontecimentos me desanimam mais ainda.
– È difícil portuga. Já, Eu, não
posso me dar o luxo de parar de trabalhar. Tenho que me manter . Nunca juntei dinheiro.
Não é luxo....estou doente e
velho. Quero aproveitar o que me resta de vida.
– Doente?
– È...parece que tenho alguma coisa no coração entupidas, sei la....O médico lá do Hospital das clínicas
disse que teria que me aposentar e cuidar da saúde. Você já foi lá no Hc, Dr?
– Só passo em frente as vezes, mas
nunca entrei.
– Nem em Portugal tem coisa igual. O problema é a
demora....muita gente. Me disseram que pessoas do país inteiro vão lá se
tratar.
– Já ouvi falar a mesma coisa. Mas
eu tenho convenio saúde. Vou em hospitais do convenio, quando preciso.
– Ah, Dr vc devia ir um dia .
Tenho tratamento VIP, não é assim que se fala?
Ele falava isso com se tivesse
indicando um restaurante.
– É isso mesmo...rs.
– Não posso ficar fazendo esforço
e tenho que evitar um tal de stresse....
– Sua mulher aceitou a idéia de
voltar para Portugal?
Naquele
instante ele mudou de feição e se manteve em silêncio por alguns segundos.
Olhar fixo no copinho de café que segurava e o balançava, naquele movimento
circular de misturar o café com o açúcar.
– Dr... na realidade ela chora, se
lamentando que não verá mais os netos.
– E por que vc vai embora? Não pode
se aposentar e ficar aqui?
– Eu quero morrer na minha terra
Dr. Eu sinto que não tenho muito mais tempo de vida. O médico disse que a minha
situação é grave. Não da nem para operar.
Vi dois fios
de lagrimas correrem pelos seus olhos.
– Vc não pode sentir isso,
portuga.
– Não é só sentimento. É certeza.
Resolvi
mudar de assunto.
– Será que hoje vai cair aquele pé
d´agua de ontem?
– Pode ser Dr, pode ser....
Percebi
que não conseguiria distrai-lo com o
novo assunto e com o passar do tempo já eram quase 7 horas.
– Portuga, vou assumir meu cargo
la no laboratorio.Quanto te devo?
Continuação - 22/05/13
-Cheguei mais cedo ainda. O gerador não tinha ligado na madrugada
- Pois é.....se a energia não voltar logo, vai atrasar todo o meu serviço.
- Parece que as 10 horas as coisas vão se normalizar...até lá, relaxe..rs.
- Você é doido. Por que não abre uma funerária?
Continuação - 22/05/13
– Nada Dr. O café é por minha
conta e não vou cobrar o bolo do dia
anterior....
Levantei-me
e saí do boteco, atravessei a rua já bem
mais movimentada,
passei pela portaria do laboratório e segui rumo ao meu escritório no 3° andar.
- Bom dia Suzana.
-Chegou cedo Dr. Foi por causa da
falta de energia?-Cheguei mais cedo ainda. O gerador não tinha ligado na madrugada
- Pois é.....se a energia não voltar logo, vai atrasar todo o meu serviço.
- Parece que as 10 horas as coisas vão se normalizar...até lá, relaxe..rs.
Deixei um comunicado interno na mesa do
eletricista para verificar o
gerador e fui para a copa tomar um outro café para passar o tempo enquanto a
energia não voltava.
Eu e
mais da metade do laboratório tivemos a mesma
ideia. Peguei o meu café e juntei-me a uma rodinha de funcionários.
–
A
conversa girava em torno de futebol e mulheres. Assunto típico de rodinha de
homens.
As mulheres estavam vendo bijuterias que uma colega revendia. Coisa
proibida de se fazer dentro do laboratório, mas todos nós fazíamos vista
grossa.
-Diz
aí Dr. Roberto, o Sr. já viu a secretária nova da diretoria?
A pergunta veio do Agenor, nosso office boy.
–
- Ainda
não. Vou pouco ao quarto andar.
- Ah, Dr...dá uma passadinha,
lá....rs.Uma loucura. Carne da melhor qualidade;
- Para eu subir lá tenho que ter um boa desculpa....quero distância do
quarto andar. O melhor empregado é aquele que o chefe não sabe que ele existe.
- È verdade Dr...é que eu a vejo no
ponto de onibus.as 6 horas. Até o portuga fica de olho quando
ela atravessa a rua....rs
-Por falar nisso, vamos ficar sem o
portuga.
-Oxe....mas por que?
Ele esta doente. Diz que quer morrer na
terra dele. Achei um pouco trágico demais...
Jorge, o nosso comprador entra na conversa, após dar um gole de café e sentar-se num banquinho de plástico que estava no canto da parede..
- Gente boa. Já bati altos papos com ele. Até de informática ele manja. Me
pediu ajuda para comprar um Pc. Ele queria montar planilhas para
controle de caixa, estoque, enfim informatizar o boteco. Que coisa ..... O que
ele tem?
-Pelo o que eu entendi, o coração não
está nada bem...
-Meu pai, morreu de repente por conta
do coração. Não deu nem para acudir. Caiu duro. Eu ainda estava na faculdade.
Ele não conseguiu ver a minha formatura.Era um dos maiores desejos dele.
Quem fez os comentáriso era o Flavio,nosso técnico de Ti.
Nesse instante a rodinha ficou em
silêncio por alguns segundos. Não havia nenhum comentário a fazer a respeito.
Existem situações em que o silêncio exprime o sentimento e a opinião de
todos.
Meu celular toca. Era Hans, um amigo
meu de infância. Conheci-o no colégio ainda na segunda série do primário. Estudamos
juntos até o final do colegial, onde nos afastamos por seguirmos profissões
diferentes. Ele se formou em design industrial e eu, coisa que ainda não
comentei, me formei em administração Hospitalar.
Levantei-me da rodinha e fui até a
janela do refeitório, onde eu poderia ouvir e falar melhor.
- Fala Hans. Acordou agora?
-Olá chefia.....Nada....levantei
cedinho. Tenho muitos clientes para terminar.
-Você e esse seu trabalho sinistro.
E o que mais me admira é que tem gente que paga por isso...
- E bem, Dr! Vamos tomar um café hoje a
noite? To cansado de ficar em casa.Muito calor. Por minha conta.
- Fechado. Nove e meia?
- Te pego na porta do prédio, beijo.
Guardei o celular no bolso e
voltei para a rodinha.
Ficamos no papo por mais uma hora,
quando a energia voltou mais cedo que o esperado. Maravilha.
Voltei para o meu escritório e liguei
para a manutençaõ verificar se as geladeiras já estavam recebendo energia da
concessionária.Tudo Ok.
O decorrer do dia foi como de costume.
Muitos telefonemas, contatos com fornecedores, clientes, cotações e alguns problemas internos.
Ao final do dia , depois de muitos
telefonemas e cafés, dei por encerrado o expediente. Já eram quase seis e meia.
Desliguei meu pc, juntei todos os
papéis em uma pilha só e pus no canto direito da mesa. Arrumação express.
Fui até a janela ver o que me esperava
la fora e por enquanto a visão não era
assustadora. Não parecia que iria chover, pelo menos tão cedo.
-Estou indo Suzana....Bom final de
semana!
-Obrigada Dr. Para o Sr também.
-Ja estava a caminho do elevador quando
de súbito me veio uma ideia. Suzana era viuva
e tinha um filho de dez anos. Eu sabia que ela nos finais de semana não
era de sair com o moleque, sei lá quais eram os motivos e afinal de contas, ela
era uma mulher interessante.
Voltei a mesa dela.
-Suzana que tal um fim de semana,
desses, sairmos eu você e seu filho para passearmos?
-Num sei Dr....não somos de sair muito.
O máximo que fazemos é ir na casa da minha mãe aos Domingos. O Sr sabe o
dinheiro é curto...depois que o meu marido morreu a vida ficou bem difícil.
-
Estou convidando. Podemos ir a algum
parque, sei lá. Vou pensar.Eu queria fazer algo de diferente nos finais de
semana em boa companhia. Fico em casa morgando ou saio com um amigo para um
café à noite.
–
Num sei Dr....
–
Pense...Este final de semana não vai
dar, pois vou dar uma geral no meu apartamento. Um bota fora.Vou jogar tudo o
que eu não estiver usando no lixo. Um monte de tranqueiras...Mas, vai
pensando...
–
Vou pensar Dr, conversar com o meu
filho...
–
Bom, então vou-me...ainda tenho um
compromisso.
–
Consegui chegar em tempo recorde em
casa apesar de ser sexta feira.
–
Como de hábito liguei a TV e fui para a cozinha descongelar algo para comer.
–
“Ai, Ai...apesar da facilidade, já
estou começando a ficar farto dessas comidas prontas”.
–
Terminei de jantar e ouvi o vento bater
na vidraça anunciando que a chuva viria tardia, mas viria.
Ainda eram 8 horas e dava para
relaxar um pouco antes do Hans chegar. Tomei um banho rápido, pus uma bermuda e
sentei-me na poltrona para ver um pouco de TV.
–
Depois de tomar banho e sentar na frente
de uma TV, só podia dar em uma coisa. Adormeci.
–
Eu estava em um sono profundo, sonhando
com algo estranho. Acordei de repente e por mais que quisesse, não conseguia lembrar do sonho. Mas sabia que tinha sido estranho.
–
Voltei a realidade. “O Hans já deve estar la em baixo!!
–
O celular tocou e atendi rapidamente
– Já estou descendo!!!!
– Falou...
Vesti-me depressa e desci pelas
escadas pois o elevador estava no ultimo andar e eu não tinha paciência para
ficar esperando ele chegar.De manhã, ao sair para o trabalho, ai é que eu não o esperava.
Sempre acordei de mau humor e se tem algo que me deixa irritado é as seis horas
da manhã ter que dar bom dia dentro de elevador para algum vizinho e ficar com
cara de paisagem até a garagem.
A escadaria do prédio possui
aquele sistema de sensor de presença que acende a luz em cada lance da escada.
Eu não deveria descer a escada muito rápido pois não daria tempo de acender a
luz do lance seguinte, Porém eu estava com pressa...e nisso só no meio do lance
de escada a luz acendia. Até ai, tudo
bem , pois eu conhecia aquela escadaria de cor e salteado. Poderia desce-la sem
luz alguma.
Já estava no
primeiro andar rumo ao térreo, quando nesse acende e apaga um dos sensores
devia estar quebrado e não ativou a
iluminação. Na escuridão, eu via no último lance de escada a
luminosidade que vinha do térreo. Nisso, escutei bem atras de mim passos
de alguém subindo as escadas.”Estranho..ninguem passou por mim....”, pensei.
Como estava com pressa, segui em frente.
–
Hans estava de pé, fora do carro,
fumando seu cachimbo, estacionado em fila dupla.
–
-Dormiu de novo, hein?
–
-Um cochilo....
–
-Sei...rs
–
-Quer ir ainda?
–
Lógico....uma saída com tudo pago não
se tem todos os dias.
–
Eu só estou somando.....
–
Sabia que isso não ia sair barato....
–
Onde vamos?
–
No lugar de sempre.Pode ser?
–
Logico. È você quem manda!.
O lugar de sempre era uma cafeteria nos Jardins, bairro nobre da cidade.
–
Após quase meia hora procurando um
lugar para estacionar, conseguimos uma vaga e nos apressamos, pois já estava
começando a chover.
–
Sentamos em uma mesa de canto. Essa
cafeteria estava sempre lotada. Em dias de chuva era um belo programa.
-Me conte as novas, Beto.
.Vidinha de
sempre.....saio de manhã e volto no final do dia. O que está me estressando são
essas chuvas de verão à tarde. As vezes levo até 4 horas para chegar em casa.
Ora...no verão
reclamam que chove, no inverno é por que tem estiagem....ninguém nunca está
contente. Mas também ou o povo morre de sede ou morre afogado. Essa historia de
estações do ano não foi muito bem bolada...rs.
Ou será que foi e
nós estamos estragando tudo? Mas, feliz é vc que trabalha em casa.
Mais ou menos...fico
preso a semana inteira no apartamento.Só saio de madrugada para ir ao
supermercado e mesmo assim somente umas duas vezes por semana. A não ser nos
finais de semana que caio na perdição da carne..
Vai no supermercado
de madrugada?
Ah, é bem melhor.
Todos os caixas vazios. Sem tumulto. Gosto de sossego e da noite.
E a clientela, está
crescendo?
Toda a semana tem
aumentado entre dois ou tres.Uma maravilha.
Hans tinha um meio
de ganhar a vida um tanto quanto peculiar e sinistro.Trabalhava em casa por
conta própria, com edição de fotos. Montava albuns de casamento, aniversários,
etc . Há algum tempo surgiu uma idéia
que hoje seria o seu carro chefe de trabalho.
O cliente enviava
uma foto em que estivesse deitado naquela posição típica de defunto dentro do
esquife. A partir daí, Hans fazia todo o trabalho de criar o visual desta
pessoa dentro do esquife.
Primeiro deixava a
pessoa com palides cadáverica, depois vestia-a com a roupa de sua preferência e
finalmente criava um esquife personalizado com
a decoração dentro do mesmo tais como flores, arranjos, etc. Então o
cliente anexava no testamento a vontade de ser visto no seu velório daquele
jeito. Simplesmente horripilante.
-Quando você vai me
enviar uma foto sua?
-Jamais.
-Ora que preconceito...Todos nós pensamos na morte.
Faço de graça para você, uma barbada....Vc sabia que já fui em vários velórios
só para ver como ficou meu trabalho? As vezes levo a foto impressa para ver se
o original está fiel.
- Você é doido. Por que não abre uma funerária?
- Ah, não....muito deprimente. Vc só
negocia com a pessoa morta. O legal é negociar com ela viva assinando o
contrato de trabalho. Não quero problemas com as autoridades.
- E tem validade esse contrato?
- Assinado pelo cliente, com firma
reconhecida.
Naquele instante senti que a pontas dos meus dedos
estavam repuxando, como se estivessem puxando as minhas unhas com um alicate.
Não doia, era somente a sensação de estarem sendo puxadas. Só na mão direita.
Comecei a abrir e fechar a mão o que chamou a
atenção de Hans.
- O
que foi?
- Nada...uma sensação estranha de
repuxo nas pontas dos dedos...parece que
minhas unhas estão sendo puxadas.
- Só
na mão direita?
Só...
- Já
procurou um médico?
- È
a primeira vez que sinto isso....
-Bom,
se piorar procure um médico. Pode ser circulação, sei lá...na idade em que
estamos, pode ser que você se salve se diagnosticado atempo...rs. Tem certeza
da foto?
-Absoluta. Ah, Quase me esqueci
de te contar. Convidei Suzana para sairmos em um final de semana desses, quer
dizer ela e o filho.
24/05/13
24/05/13
–
Muito bem!!!Mas com o filho?Vai ficar de ama seca?
–
Ah, é só uma compainha para sair. Estou farto de sair só com bode
velho...rs
–
Faz muito bem. Depois se você quiser, lhe apresento umas amigas
minhas.Umas capetinhas.
–
Não obrigado. Tenho medo delas...rs. Prefiro arrumar sozinho.
–
Já percebeu que somos cinquentões solteiros, Beto?
–
O que será que temos de errado ou fizemos de errado?
–
Vc eu não sei, o meu caso foi por opção. Um dia poderia ir embora e
deixar alguém magoado.
–
Voce sente falta de compainha, Hans?
–
As vezes, em casa, fico entediado...
–
Por que não arruma um bichincho de estimação como um cão ou gato, para
te fazer compainha?
Talvez uma
serpente, indagou. Elas não fazem cocô no meio do tapete e nem tem pulgas.E o
principal, não latem nem miam. Sabia que agora é moda ter serpentes em casa?
Elas são dóceis e só dão o bote na hora certa.rs.Mas isso seria um hobby, ou
acha que vou deixar de fazer minhas noitadas ? Você poderia ficar com ela nos
finais de semana em que eu fosse para a
farra. O que acha?
Não gosto de animais, ainda mais
rastejantes....
Um dos fatores que tornava Hans um péssimo
companheiro, era que ele não conseguia ficar com uma só pessoa. Tinha que
diversificar e rápido.Um mulherengo ao extremo.
E
o papo ia longe. Se deixasse, varava a
noite. Apesar do dia seguinte ser Sábado eu havia dormido pouco e estava
exausto. Nem as quatro xícaras de café estavam me segurando.
Vamos
indo Hans?
Já?
Como, já? Já são quase duas horas da
manhã....Estou exausto....
Ok,
Ok...vou pedir a conta, mesmo por que amanhã cedo, tenho culto na minha igreja.
Você "mata" as pessoas e depois
vai a missa?rs
Não é missa.è um culto
religioso.Tiro o peso da consciência e alivio a alma dos pecados. Vamos?
Não posso. Me programei para
arrumar a casa. Depois não sou muito adepto a missas e afins. Posso conversar com Deus em qualquer
lugar sem a intervenção de ninguém....Todos deveriam fazer isso, acabaria com
um monte de charlatães que pegam dinheiro dos menos avisados e desesperados.
-É o livre arbítrio, Beto....
Saimos da cafeteria e um cheiro
de dama da noite pairava pelo ar.
-Adoro esse cheiro....
-Ora, Beto...coisa mais
enjoativa...
Hans me deixou na porta de casa e saiu fumando o cachimbo. Sabia que eu
não gostava nem do cheiro nem da fumaça, então evitava de fuma-lo na minha
presença. Já bastava o cheiro que o carro e ele próprio exalavam de fumo
queimado.
Com a chuva, que havia caído mais cedo, a
temperatura estava bem agradável. Senti que aquela noite eu teria um sono mais
tranquilo, pois no verão eu padecia para dormir por conta do calor. Só tinha um
ventilador que mal e porcamente movimentava o ar dentro do meu quarto e fazia
um barulho extremamente irritante.
Ao entrar no prédio, vi Seu Djalma esperando o elevador. Estava com
calça de pijamas, meia social, chinelo de tiras e um hobbie por cima do corpo.
Devia ter acordado a pouco tempo, pois os poucos fios de cabelo que haviam na
sua cabeça , estavam despenteados.
Cumprimentei-o
e estava esperando o elevador quando seu Djalma se pôs bem ao meu lado.
Tudo bem, Seu Djalma?
Vamos
indo....Meu jornal ainda não chegou.
Está
cedo, Seu Djalma. Só lá pelas cinco horas o jornaleiro entrega.
No
elevador, já subindo, ele me questiona:
Você
tem ouvido a reforma do vizinho de cima do meu apartamento? Um barulho infernal
o dia inteiro.
Não,
seu Djalma. Durante o dia eu trabalho. Está incomodando muito o Sr?
Não
consigo dormir à tarde. E o pior que fui reclamar com o zelador e ele disse que
o s pedreiros trabalham em horário permitido pelo condomínio.
Calma
seu Djalma, uma hora acaba. Por que o Sr não fica lá em baixo a tarde? O
condominio tem um belo jardim...
Que
nada...gosto de ficar em casa e dormir após o almoço. Não sabia que a
velhice seria tão barulhenta.
Descemos do elevador e nos despedimos. Ainda
escutei ele tossir antes de fechar a porta do
apartamento.
Só
deu tempo de ir ao banheiro e tirar a roupa. Despenquei em cima da cama e
apaguei.
Acordei
em torno das dez horas da manhã e fiquei na cama olhando para o teto, curtindo
a preguiça e a não obrigação de ter que ir trabalhar.
Lembrei-me que aquele Sábado era
o dia de fazer a faxina que havia programado.Levantei-me, abri todas as janelas
da casa e fui para o banho. Só acordo, de verdade,
depois de um bom banho e com calor ou não, água quente, bem quente.Dizem que faz mal, sei lá...
Após o banho, fui comer algo e
nada melhor que pão na chapa com uma média. Só que lembrei-me que o pão eu
tinha, mas o café fazia tempo que eu não comprava e o leite, estragou.
Engraçado....não sabia que estava aqui há tanto tempo. A única bebida, fora água, era suco de uva. E assim foi, pão na chapa (frigideira) com suco de uva.
Voltei para o quarto onde
começaria a faxina. Liguei o rádio relógio numa estação de musica clássica e
abri os armários.
Como a maioria das pessoas eu estocava todas
as tranqueiras na ultima prateleira, lá em cima.
Desci tudo.
A quantidade de porcarias que se
guarda durante a vida é impressionante. Livros velhos, aparelhos quebrados,
cartas de amigos, de namoradas, cartões postais antigos, cartões de Natal
enviados por amigos e familiares, revistas e fotos, muitas fotos guardadas
dentro de uma caixa de sapatos, tudo coberto de poeira.
Mas a quanto tempo eu não limpo isso?
Com certeza as fotos eram as
coisas mais interessantes e que provavelmente seriam poupadas.
E lá estavam elas, de parentes
vivos, mortos, fotos minha quando criança e de viagens, com namoradas, com
amigos.
Perdi vários minutos observando
e depois tornei a guardá-las na caixa de camisas e deixei-as de lado.
Alguns livros técnicos foram
poupados, porém outros iriam para algum sebo. Havia também uma biblia, que eu
nem lembrava que tinha, embrulhada em papel celofane. Estava novinha, intacta.
-Vou botá-la na sala. Belo
enfeite...
Peguei um saco de lixo de cem
litros, e fui jogando o que não me
interessava fora. Em cinco minutos o primeiro lado do armário estava vazio e o
saco cheio.
Do outro lado do armário, na
parte superior, só havia duas malas para viagem, também empoeiradas, já que
fazia muito tempo que eu não as usava. Acho que a ultima vez foi quando eu e o Hans
sofremos o acidente.
De posse de um pano e um balde
com água misturada com um limpador multiuso, subi em cima da cama e passei a
limpar o armário por dentro.Tirei as malas e as joguei fora do quarto para
posteriormente limpá-las.
Apesar de parecer que foi coisa
rápida, quem já passou por isso sabe que no mínimo leva-se duas horas só para
separar e limpar tudo. Trabalhão....
Quando vi no relógio, já eram
mais de meio dia e eu não queria passar muito mais tempo naquilo.
Faltava limpar as malas e
devolve-las ao armário. Coloquei-as em cima da cama e quando ia virando uma de
ponta cabeça ouvi algo se mexer dentro dela. Provavelmente havia se soltado
quando a joguei no chão.
Ao abri-la, vi que havia um
caderno universitário la dentro.O
caderno estava visivelmente faltando folhas e as que restaram estavam em
branco.O que restou do caderno deixei em cima do criado mudo. Poderia servir de
rascunho.
Guardei as malas de volta,
separei os livros que ia me desfazer e joguei o saco preto na lixeira do
prédio.
Fui até a sala e coloquei a
Biblia ao lado da tv,
Ainda havia mais coisas para ser
jogada fora dentro de estantes na minha sala, porém ficaria para uma outra vez,
mesmo por que lembrei que nos fundos do apartamento havia um quarto de
empregadas, lotado de tranqueiras. Esse quarto levaria mais do que um final de
semana para limpá-lo.
Tomei outro banho, graças a
quantidade poeira que havia se impregnado em mim.
Depois de toda aquela canseira,
resolvi me premiar com um almoço em um restaurante por quilo que havia perto de casa. Umas duas quadras.
Aproveitava para dar uma
caminhada enquanto o céu ainda estava aberto, pois nesta época do ano, o tempo
era uma incognita, do nada as coisas
mudavam.
Esperava o elevador no hall
social e eu conseguia escutar a tv do
seu Djalma em volume bem alto.
Fazia tempo que eu não saia pelo
térreo de dia .Sempre chegava pela
garagem e subia de elevador direto para o apartamento.
Na portaria, estava o antigo
porteiro, Seu Osmar, a quem eu não via há pelo menos um mês.
–
Ola Dr. Quanto tempo.....
–
Bom dia, Osmar. Como tem passado?
–
Bem Dr. A vidinha de sempre, abrindo e fechando o portão, separando
correspondência, consertando um chuveiro...
–
Esta tudo tranqüilo, então....Até já!!
O Osmar era o funcionário mais
antigo do prédio. Trabalhava ali há mais de 15 anos. Pessoa de extrema
confiança. Pau para toda obra. Era porteiro, encanador, eletricista e de vez em
quando fazia uns serviços de pintura. Ele já tinha me tirado do sufoco algumas
vezes com o chuveiro elétrico.
Aproveitei a caminhada para observar o que
havia em volta de onde eu morava. Dentro do carro, nunca observamos o que esta
a nossa volta, só o que está a nossa frente e rápido.
-Ora, nunca tinha visto esta loja
de aquários....
Entrei no restaurante, que ainda
estava vazio, apanhei um prato e por conta do enorme calor que fazia, tanto lá fora e multiplicado por dois dentro do restaurante, só me servi de uma
saladinha que não pesou 150g. Peguei um refrigerante e sentei-me em uma mesa a
qual me dava visão da rua.
Em dez minutos almocei.Fui ao
caixa e paguei a" fortuna" de R$ 6 ,00 pela refeição.
25/05/2013
27/05/2013
Sai do restaurante e fiquei por alguns segundos observando o
movimento. Descobri, que tinha como
vizinha, uma vidente em uma casinha ao lado do restaurante com uma faixa com os
dizeres: “ Joga-se Buzios” R$ 10,00.
Na falta do que fazer, resolvi
entrar e ver o que era. No minimo, ia me divertir.
Toquei a campainha e quem me
atendeu foi um garoto de uns dez anos idade.
-Oi.
-É aqui que se joga Buzios?
–
Minha Vó, entra.
A porta se abriu e ao entrar
senti um cheiro de Rosas no ar. A casa era simples com móveis bem surrados. A
sala onde fui levado pelo garoto, era uma sala de 3x3, mais ou menos, as
paredes azul claro e tinha uma janela coberta por uma cortina de renda branca
que só deixava passar a claridade suficiente para iluminar a sala. Havia uma
mesa coberta por uma toalha branca, com duas cadeiras dispostas uma de frente
para outra. Em cima da mesa havia uma bandeja coberta, também por uma toalha
branca, alguns apetrechos religiosos que
eu desconheço faziam parte do ambiente, em cima de uma mesinha de canto. O
relogio de parede quebrava o silêncio.
Não demorou cinco minutos para
uma senhora já com uns setenta anos com um vestido branco e um tipo de turbante
na cabeça aparecesse.
–
Boa tarde.
–
Boa tarde. Pode sentar.
–
Como está meu filho, Tudo bem?
–
Tudo tranquilo....
Nisso, descobriu a bandeja e
começou a revolver um monte de conchinhas, os tais búzios.
–
Você Quer saber o que?
–
Me fale tudo.
–
Tudo é mais caro...
– Trinta, paga?
–
Tá de bom tamanho.
Balançou as mãos cheias de
conchinhas e as jogou dentro da bandeja, ornada por colares e outras coisas
mais.
Aquelas conchinhas se espalharam
pelo centro da bandeja e durante vários segundos, aquela mulher ficou
observando e catando algumas conchinhas.
–
E......
–
To vendo o seus dias.....
–
E.....
–
Posso segurar sua mão direita?
Estendi-lhe a mão.
Remexeu mais um pouco os Búzios
e fitou-me nos olhos.
–
Qual o seu nome?
–
Roberto.
–
Quando nasceu?
–
10 de outubro.
–
De que ano?
–
1969...
Mais uma
remexida.
–
Quarenta e três anos...Muito pouco.....tem bem mais do que isso.....mas ao
mesmo tempo, é essa a idade.....estranho. Para falar a verdade não consigo
enxergar a primeira idade. Mas por que duas idades?
–
Duas idades?Ah, deve ser por sou mais novo do que aparento....rs
–
Não, meu filho, são duas coisas
distintas...eu, hein...
Aquilo estava começando a ficar
divertido.
–
Como assim?
–
Os Búzios estão dizendo que há duas entidades dentro de você.
–
Ah, estão dizendo que sou bipolar?
–
Bi o que? Aqui num fala que você é bicha...
–
Não...que tenho duas personalidades....
–
Dois espíritos, meu filho.
–
Estou possuído por algum encosto????
–
Não é possuído. Estão em harmonia , foi permitido que entrasse....Olha
meu filho, deixe para lá.. não vou cobrar nada
de você... Esses Buzios estão velhos, esta leitura está confusa...sei
la...Desculpe. Vamos tentar em um outro dia? Volte aqui no outro Sabado.
–
Ok... que pena. Fique com dez reais pela perda de tempo.
Sai da casinha e atrás de mim, o
neto dela estava com um saco plástico de supermercado fechado e pelo chacoalhar, o
barulho parecia ser dos Buzios que acabavam de perder o emprego....
–
Voltei para o prédio e liguei para o Hans.
–
Já está com saudades?
–
Fui a uma vidente.
Silêncio do outro lado.
–
Hans?
–
Estou escutando.....continue.
–
Ela disse que eu tenho duas entidades dentro de mim. O que vc acha?
–
Acho que a sua só, já lhe causa bastante aborrecimento.
–
Mudando de assunto. Lembrei-me, hoje, do acidente que sofremos na Serra
da Imigrantes. Vc ficou curado por inteiro? As vezes me dói o pescoço e fico
pensando se esses repuxões nos dedos não são algum tipo de seqüela....
–
Fiquei zerado. Só fiquei com a cicatriz na cabeça. Lembra dela?
Pequena, mas profunda. O cabelo cobre, nem da para ver.
–
Lembro..é por minha causa que você a tem. Deu com a sua cabeça na minha.
Parece que a minha cabeça é mais dura que a sua.
–
Ainda bem que reconhece....pois neste mesmo dia, cismou que não queria
entrar na ambulância.
–
As vezes tenho pesadelos com esse acidente.Aquele carroceiro, o
capotamento...
–
Ora Beto.... Até que foi divertido lá no hospital....
Esse sarcasmo de Hans as vezes
me irritava. Mudei de assunto.
–
Esta fazendo o que ?
–
Estou no MSN combinando uma farra para hoje a noite e são duas
anjinhas. Topas?
–
Não, estou fora.
–
Poxa.....rs..vou ter que ficar com as duas?
–
Divirta-se.
–
Vai ficar em casa curtindo as mágoas?
–
Vou assistir a TV e relaxar.
–
Neste instante escutei ao longe o barulho que parecia ser o de um
trovão. Fui até a janela e vi que logo acima do meu prédio se aproximava uma
grande massa negra.
–
É Hans, o negócio está ficando preto aqui....
–
O que foi?
–
Parece que São Pedro vai lavar o quintal dele.
–
È bom que chova agora, assim a noite eu posso sair.
–
Ok, vou desligar, tenho que fechar as janelas do apartamento.
–
Vai lá....abraços.
Após fechar tudo, fui até a
cozinha e apanhei um refrigerante na geladeira. Sentei-me na poltrona liguei a
velha tv de tubo que resistia aos anos bravamente. Pelo menos ela já tinha
controle remoto.
Estiquei as pernas em cima do
puff e passei a trocar de canais até achar um filme de ficção cientifica da
decada de 70. Quem
não lembra de contatos imediatos do 3º Grau?
Lá fora começava a chuviscar e a
sala ficou escura, anunciando que a tormenta já estava sobre mim.De repente a água desceu dos céus em forma de pedras de gelo. Fui até a janela e via lá em
baixo o chão sendo castigado pelo impacto das pedrinhas.
Voltei a minha poltrona e o telefone tocou.
-Alo?
–
O que mais a vidente disse a você?
–
Ué, que preocupação é essa Hans? Não falou mais nada. Achou que os
buzios estavam estragados ou sei lá o que.
–
Qual era o nome dela?
–
Ah, não perguntei....
–
Ué,,,rs...você conhece muitas videntes?
–
Não, não...é que eu fiz um trabalho para uma nessas bandas que você
mora e ela não me pagou o restante do combinado....
–
Hummm...sei....então está bem. Fiquei de voltar la semana que vem, aí
eu pergunto o nome, ok?
–
Ok...obrigado.Depois agente se fala. Beijo.
Voltei a assistir o filme quando
o mesmo foi interrompido pelo noticiario local. Aquela tempestade já estava
causando estragos. Na marginal Pinheiros, perto da ponte da cidade
universitária uma equipe de reportagem flagrou um um carro que aquaplanou em um
ponto de alagamento e bateu no guard
rail . Graças a isso e a chuva, a marginal estava parada. De baixo da ponte o
cinegrafista mostrava as imagens do local.
Vi, ao fundo, que o rio já
estava bem acima do seu nivel e lá, em
cima daquele aguaceiro uma pequena embarcação que parecia uma jangadinha mantinha-se firme em seu trajeto pelo rio com
seu condutor de pé,encapuzado, controlando a frágil embarcação, com uma longa
vara. A frente, daquela provável jangada,
era iluminada por um lampião que
ia pendurado num pequeno mastro..
–
Mas que hora que esse maluco resolveu navegar...Engraçado o reporter
não tê-lo visto e nem comentado nada...
Passei a noite de Sabado em casa
vendo Tv.
No domingo também não foi diferente
a não ser pela visita do meu vizinho que me surpreendeu, ainda de manhã.
A campainha tocou e ao abrir a
porta, seu Djalma me sorria com um
pacotinho nas mãos.
-Ola vizinho. Fui até a padaria
e comprei uns paezinhos de queijo. Você tem café?
-Ola Seu Djalma. Vamos entrando.
–
Licencinha...
Eu não me lembrava a ultima vez
que ele tocou a minha campainha. Acho que foi quando me pediu emprestado
uma extensão de tomada que até hoje, ainda não tinha recebido de volta...
–
Sente-se seu Djalma, vou fazer um cafézinho.
Ele retrucou:
–
Eu te acompanho até a cozinha...
Enquanto preparava o café fui
puxando assunto.
–
Quais são as novas seu Djalma?
–
Na minha idade não se tem novidades. Todos os dias são iguais, a não
ser quando vou ao médico. Mas também o diagnostico é sempre o mesmo.
–
Ora seu Djalma. O Sr precisa sair mais....Aproveite o dia , vá
caminhar, visite parentes, viaje...O sr vai ver como as novidades aparecerão.
–
Não tenho vontade. Gosto apenas quando meu filho e meus netos vem me
visitar no final de cada mês.Ele me fala a mesma coisa.
–
Por que não vai morar com eles?
–
Por que tenho a minha casa, as minhas coisas. Não me sentiria a
vontade.Ele já me propôs isso. Fico onde estou e depois, a minha nora é insuportável.
Eu já sabia dessa teimosia em
morar sozinho, mas de certo modo eu lhe dava razão. O fato de ir morar com o
filho implicaria em seguir novas regras e isso nem sempre teria uma boa
aceitação por parte do inquilino.
–
Depois, a minha casa está do jeito que a minha falecida esposa deixou.
Não teria coragem de desmanchar tudo.
–
Mas o fato de eu ficar em casa não quer dizer que eu não possa ter uma
proza com o meu vizinho de vez em quando. A não ser que eu esteja
incomodando....
–
Nada disso... vamos nos falar mais. Eu também não sou de sair muito. Do
trabalho para casa, de casa para o trabalho.
–
E parece que nenhum dos dois recebe muitas visitas....
A frase terminou com um acesso
de tosse.
–
Tudo bem?
–
Isso é resultado de 50 anos de tabagismo.
–
Espero que tenha parado de fumar.....
–
Não meu filho. Segundo o médico também não adianta mais.Ele disse que
eu poderia continuar fumando.Com oitenta e cinco anos não me proibiu de
fazer nada, mesmo porque eu parando de
fumar agora não iria adiantar. O enfisema não iria regredir..
–
Prefere açucar ou adoçante?
–
Açucar. Já tomo remédio para
diabetes.
Dei a xícara para ele e fomos
para a sala
Sentou-se ,abriu o saquinho e o pos em cima da mesinha
de canto entre as duas poltronas.
–
Sabe Roberto, apesar de não querer sair de casa sinto-me só. Os dias
demoram a passar e agora com esse vizinho reformando o apartamento, além de
demorados os dias estão irritantes. A noite durmo de luz acesa, pois tenho medo
de morrer no escuro....
Engraçado como as pessoas
gostavam de se lamentar para mim. Primeiro o portuga e agora o Seu Djalma.
-Ora Seu Djalma....O Sr tem
muito tempo de vida ainda.
-Filho, não sou bobo e nem você
tambem o é....ambos sabemos que o apartamento ai do lado vai ficar vago em um
curto espaço de tempo.
Jamais, algum dia, eu tinha
pensado nisso,mas enfim só me restava escutar.
-Caro, você é a única pessoa, fora
o Osmar, que troca algumas palavras comigo neste prédio, a não ser bom dia e
boa tarde dados cinicamente pelos outros vizinhos. Sinto em você uma pureza de
espirito muito grande.
Ele deu um gole no café com a mão trêmula .
-Tenho um pedido a fazer.
Fiquei olhando-o atentamente só
esperando. Sabe-se lá o que iria sobrar
para mim. Sempre sobra para mim...
- Se a morte o procurar,
estenda-lhe a mão. O anjo saberá retribuir.
- Que história é essa, Seu
Djalma? Está me assustando, falando em morte ( a minha?), anjo....
Sem responder, acabou de tomar o
café e levantou-se. Percebi que ele não responderia a nenhuma pergunta.
–
Bom vou para casa, ver televisão.
–
Tenha um bom Domingo.O Sr não vai levar o pão de queijo?
–
Não...eu odeio pão de queijo.
E saiu pela porta da frente.
Fiquei alguns segundos estático
tentando imaginar o que poderia estar passando na cabeça daquele velho.
Acabei deixando o assunto de
lado e fui dar uma olhada nos meu e-mails. Peguei meu notebook e fui para a
mesa de jantar.
Como de costume, vários e-mails
pornograficos, enviadosdo Hans, muitas correntes, alguns fornecedores entrando em
contato e um e-mail curioso. Tinha como remetente GLDEO-AM. Como não havia
nenhum anexo, resolvi abri-lo. A mensagem estava em branco.
–
Perda de tempo....
Seguindo conselhos do Hans, fiz
uma pagina minha no FACEBOOK. Segundo ele eu reveria muitos amigos
já esquecidos assim como antigos colegas de colégio e faria novas
amizades. No inicio isso é extremamente interessante, porém com o passar do
tempo passa a ser coisa de gente que não
tem o que fazer o dia inteiro, fuçando a vida dos outros. Mas uma vez por
semana eu acessava o site pois mantinha contato com algumas comunidades da
minha área profissional. Neste quesito o site era bem útil.
Desliguei o note book e fui a
cozinha apanhar um refrigerante. Enchi um copo, ainda era cedo para almoçar. O
saco com os pães de queijo do Seu Djalma estava cheio. Ningum havia
comido. Para falar
a verdade, só ele tomou um gole do café. O meu estava em cima da mesinha, sem ter
sido tocado e agora estava gelado.
Liguei a TV. Em um canal só de
noticiário. Estava passando uma reportagem a respeito do conflito milenar entre
judeus e palestinos. Uma rivalidade que já havia matado milhares e milhares de
pessoas durante tanto tempo e não tinha a menor previsão de acabar um dia. Tudo
por um pedaço de deserto na Terra Santa.
Estava entretido assistindo a reportagem quando, novamente senti aquele
repuxo nas pontas dos dedos da mão direita. No mesmo instante,ouvi um barulho
de algo que havia caído dentro do quarto levantei-me para ver o que era, afinal
eu estava sozinho em casa . Ao chegar no quarto, tudo estava em ordem, a não
ser o caderno que eu havia encontrado dentro da mala. Ele estava no chão, talvez tenha
ficado muito na beirada do criado mudo e aos poucos foi caindo. Joguei o
caderno em cima da cama e atentei-me a minha mão. Já era a segunda vez que
sentia aquele repuxo. Visivelmente não havia nada, mas começava a me preocupar.
Após um Domingo caseiro,
passando o dia comendo e vendo TV, as 10 horas fui dormir.
Segunda feira , apesar de ser o começo da semana, dia nada
comemorável para a maioria dos trabalhadores era para mim o fim do tedioso
final de semana praticamente dentro de casa. Voltava a minha rotina no laboratório onde o trabalho
me descansava mais do que ficar em casa.
-Bom dia Suzana.
-Bom dia Dr
-Como passou o final de semana?
-Bem Dr. e o Sr?
-Também...fiquei praticamente em
casa...
–
Nós tambem.....
–
Bom, o convite para o próximo final de semana esta de pé.
–
Pode deixar Dr. Vou falar com o meu filho.
–
Ah, Dr, O Dr Andre quer vê-lo as 10 horas.
–
Vixi...o chefe? Ele estava de bom humor?
–
Parecia estar...O que o Sr andou aprontando?rs
–
Eu? nada, cumpro apenas meu dever....
–
Não deve ser nada demais, Dr. Quem sabe não é um aumento de salário?
–
Sei...rs
–
Bom, as dez eu fico sabendo. Obrigado.
–
De nada Dr.
Em qualquer lugar do mundo,
quando o chefe quer falar com o funcionário, ou a coisa é muito boa ou é o caos
e geralmente o funcionário acha que é o caos.
–
Fiz as minhas inspeções de rotina e as cinco para as dez estava sentado
no sofazinho do quarto andar esperando ser anunciado pela secretária. A moça
realmente, conforme comentários da sexta feira, era bem chamativa. Alta,
morena, cabelos longos lisos, seus 22 anos. Mas de cara já denunciava um
defeito. Por ser a secretária do presidente, achava que era a filha do mesmo. Arrogante
ao extremo., nem olhou para mim.
–
O Dr Andre vai atender-lhe daqui a pouco.
–
Grato....
A última vez que eu tinha subido
no quarto andar tinha sido no final do ano passado para ver um problema no ar
condicionado na sala do chefe. Isso já tinha uns 10 meses....
A diferença do quarto andar para
o resto do prédio era gritante. Enquanto os outros andares o piso era de
ceramica convencional com móveis de escritório de aço, e persianas nas janelas,
o piso do quarto andar era revestido de marmore preto, com tapetes espalhados e
duas poltronas de couro preto perto da mesa da secretária. Na frente dessas
poltronas uma mesa de centro de madeira
e algumas revistas em cima dela.. A mesa da secretária era de madeira com o
tampo de vidro e design inovador. A iluminação de lâmpadas halógenas e as
paredes revestidas com madeira. Vários
quadros de gosto duvidoso enfeitavam o ambiente. Num dos cantos uma
maquina de café e água em garrafas.
–
Estava lendo uma das revistas que datava de dois meses atrás, quando a
Sueli ( escutei ela falar o seu nome ao
telefone), após atender uma chamada me
avisou.
–
O Sr pode entrar.
–
Grato.
Abri a porta devagar.
–
Com licença DR....
–
Entre Roberto, entre...
28/05/2013
–
Sente-se.
–
A sala do Dr Andre era tão suntuosa quanto a recepção. Um detalhe que
me chamou a atenção foi um quadro atrás da sua mesa com uma imagem pintada à
óleo de três crianças sentadas em um caminho de pedras. A paisagem refletia um
lugar bem pobre com casas, também, de pedras ao fundo. As crianças não tinham
mais de 10 anos, vestiam roupas rasgadas e estavam descalças. As mesmas
pareciam estar olhando para o pintor , pois os três olhares seguiam o
observador. A expressão das mesmas refletia sofrimento, talves pela situação de
pobreza que viviam.
-Fazia tempo que não
conversavamos.
–
Quase um ano DR, desde o incidente com o ar condicionado.
–
Lembro-me. A quanto tempo está conosco?
–
Dez anos DR.
–
Bastante tempo. As pessoas o elogiam muito. Pontual, eficiente, colaborador.
–
Cumpro o meu dever.
–
Certo. Mas está na hora de colher o que você plantou.
–
Preciso de um diretor administrativo. Alguém que me auxilie e coordene
toda a parte técnica dos equipamentos e
pessoal do laboratório. Quero cuidar apenas dos fechamentos de negócios e da parte financeira. Encara o desafio?
Poderia esperar tudo naquele
momento, menos uma promoção. Nunca tinha me preocupado com ascenção
profissional e coisa e tal. Apenas queria viver em paz, porém aquela oferta
mecheu com o meu ego.
-Lógico Dr!
–
O seu salario vai aumentar, mas não se esqueça que o trabalho também...
–
Ok..
–
Qual a sua disponibilidade para viagens?
–
Sou sozinho Dr. Não tenho nada que me prenda.
–
Perfeito...o mês que vem voce terá que ir para Recife visitar um
laboratório. Existe a possibilidade de nos fundirmos a eles. È uma filial de um
grande laboratório alemão. Quero que você avalie todos os equipamentos e infraestrutura deles
e me envie um relatório. Semana que vem, te passo mais detalhes.Tudo bem com a
viagem? Coisa de tres dias...Eu não posso ir. Já tenho coisas demais para
resolver aqui.
–
Tranquilo, Dr.
–
Muito bem! Meus parabéns. Arrume suas coisas pois seu novo escritório
vai ser aqui em cima a partir de amanhã.
–
Certo.
–
Vamos, te acompanho até a porta.
–
Me despedi e da porta e ele comunicou o fato a secretária.
–
Sueli, a partir de agora você servirá, também, ao Dr Roberto.
–
Sim, senhor.
O ser humano é engraçado. Até
quinze minutos atrás aquela moça mal
olhou para a minha cara, agora abriu um vasto sorriso me fitando nos olhos.
Despedi-me do mesmo modo que apresentei-me
. e andei até a mesa onde estava
a maquina de café, coloquei uma xicara ao invés do copinho plastico do
refeitório no bocal e apertei a opção capuccino. A máquina do refeitório não
tinha capuccino, só café e olhe lá....
Voltei para o mundinho do terceiro
andar. Segui em direção a mesa da Suzana, apoiei as duas mãos em cima da mesa
me curvei em sua direção enquanto ela me encarava .
–
Me conte Dr. Não esconda nada.
Sorri para ela e sussurei no seu
ouvido.
–
Fui promovido. Amanhã me mudo para o quarto andar.
–
Sério? Meus parabéns Dr.
Ela levantou-se da cadeira e me
deu um abraço por cima da mesa.
–
Desculpe Dr...me exaltei....
Percebi que realmente ela tinha
ficado contente com a notícia.
–
Não tem problema. Eu também fiquei bem contente. Agora tenho que
arrumar minhas coisas e transferi-las para o novo escritório.
–
Eu ajudo Dr.
Enquanto arrumavamos as minha
mudança dentro de duas caixas de papelão, me ocorreu uma idéia. Dei uma
titubeada, mas consegui falar.
–
Suzana, que tal jantarmos juntos para comemorarmos a minha promoção?
Ela parou o que estava fazendo,
ficou calada por alguns segundos.
–
Dr., não tenho com quem deixar meu filho à noite. Pego ele na creche as
sete horas. Mas o Sr tinha falado no
final de semana...Hoje vou falar com ele...Acho que ele vai querer fazer algo
de diferente neste Domingo.
Ela sorriu para mim após concluir a frase. Aquele
dia estava sendo realmente especial. Uma conquista profissional e outra pessoal
em andamento. Óbvio que telefonei para o Hans.
–
Oi, papa defunto. Está galinhando ou trabalhando?
–
Nossa...quanta alegria...Trabalho e deixo o MSN ativo para as minhas
safadezas. Mas me conte por que está tão serelepe?
–
Fui promovido e acho que este final de semana terei uma companhia mais
atraente que voce.
–
Mal agradecido....A moçoila aceitou sair?
–
Praticamente só vai falar com o filho.
–
Ah, tinha esquecido do pimpolho ….E que promoçaõ é essa?
–
Meu chefe me promoveu à diretor.
–
Meus parabéns!!! Vamos comemorar!!!! Que tal um café hoje a noite?
–
Feito!Dessa vez Eu pago.
–
Não acredito....posso pedir algo para comer, também?rs
–
Engraçadinho. Eu te pego as nove emeia.
–
Estarei a sua espera, com flores.
–
Rs....abraços.
No final do dia e da mudança,
misturada com os afazeres habituais despedi-me da minha antiga sala e da
Suzana.
–
Tchau Suzana, até amanhã...
–
Até Dr....puxa....agora que eu percebi que não serei mais sua
secretária.
–
Não se preocupe...virei ve-la todos os dias. Só mudei para andar de
cima.
Vi seus olhos se encherem de lágrimas.
-É verdade...desculpe, mas é que
eu estava tão acostumada com o Sr....rs
–
Fique tranquila. Vou pensar no nosso passeio de Domingo, ok?E para de
me chamar de Dr, ou Sr....
Dei um abraço nela e despedi-me
antes que também me debulhasse em lagrimas e fizesse um papelão na frente dela,
afinal de contas eu estava somente mudando de andar...
Com tantas novidades no dia,
esqueci-me do verão e o que isso costumava acarretar nos finais de tarde....e
desta vez a coisa estava preta, literalmente falando.
O trânsito já estava complicado
por conta do horário, mas eu não estava nem ai...Liguei o radio em uma estação
musical e resolvi relaxar.
A chuva caiu não em pingos,mas
em baldes em cima da cidade. O transito parou de vez e enquanto o mundo acabava
lá fora eu resolvi jogar sudoku no meu celular. Desliguei o motor do carro e me
entreti no joguinho.
–
Depois de mais ou menos 15 minutos assustei-me com a buzina do carro
que estava atrás de mim.O trânsito havia andado uns cinquenta metros.
Peguei a flanela e desembacei o para brisa, liguei o motor e
andei os cinquenta metros. Aproveitei para desembaçar os vidros laterais do
carro. Passei a flanela na janela do lado do passageiro e comecei a desembaçar a minha. Conforme eu ia tendo
visão do lado de fora via que o rio já
estava subindo rápido.A visão que eu tinha era extremamente limitada, graças a
quantidade de água que caia e a
escuridão do céu. Apesar de não ter uma visão nítida, eu tornei a ver a pequena
embarcação navegando no meio daquela tempestade com o mesmo homem, encapuzado
com aquela vara comprida que servia de leme ou remo, enquanto o seu caminho era
iluminado pelo lampião de luz amarela, na ponta da embarcação. Só que
agora era ao vivo.
Vagarozamente ele passou por
mim. A tempestada parecia não incomodá-lo. Fiquei observando-o até sumir no
meio daquela chuva. Mais uma vez fiquei matutando quem seria aquele maluco que
gostava de navegar nas tempestades naquele rio fétido.
A fila andou mais uns 50 metros
e tornou a parar. E assim foi por mais
de duas horas, entre Sudoku e andar cinquenta metros..
Consegui chegar em casa as nove
e meia da noite. Ao entra na minha rua, percebi que os problemas ainda não
tinham acabado. A rua estava às escuras. Isso queria dizer que provavelmente o
meu prédio tambem estaria sem energia.
Subir cinco lances de escada se
torna uma ardua tarefa para quem é sedentário e quase cinquentão.
Desta vez a luz de emergência conseguiu me acompanhar até o quinto
andar.
Ao chegar na porta do meu
apartamento parei por alguns segundos para tomar folego antes de destrancar a
porta.
A luz apagou e fiquei no escuro.
De dentro do meu apartamento escutei um barulho de algo caindo.
–
De novo?
Com os meu movimentos para pegar
a chave, a luz do hall da area de serviço reacendeu. Abri a porta e comecei
pela busca para saber que barulho tinha sido aquele. Porém esqueci-me que a luz da escada era de
emergência e que o meu apartamento estava sem energia. Na escuridão fui
caminhando para o armário de ferramentas, na lavanderia e peguei a minha
lanterna. Fui adentrando no apartamento e os passos que eu havia escutado outro
dia na escadaria , agora estavam dentro do meu apartamento, atrás de mim. Virei
rapidamente e seja lá quem fosse fechou
a porta da cozinha e saiu pela porta dos fundos, também, batendo-a.
Alguns segundos depois cheguei a porta dos fundos e a abri. A saida de serviço
estava as escuras. Por algum motivo a luz de emergência não tinha acendido com
a saída de sei lá quem.
Senti um arrepio na espinha. Fui
até a ponta da escada para tentar ouvir algo e nada.
Quando virei-me, dei de cara com
Seu Djalma de pijama com uma vela em um
pires. O susto foi maior que quando escutei os passos.
–
Porra, seu Djalma....que susto! O palavrão foi inevitável.
–
Desde as quatro horas estamos sem luz. Já perdi a minha novela e jantei
a luz de velas e nem sequer eu estava acompanhado para isso...
–
O que o Sr está fazendo aqui fora?
–
Vim trazer o lixo....e vc?
Foi quando reparei que na outra
mão tinha um saquinho plástico de supermercado lotado de lixo.
–
Ah...nada...
–
Ele virou-se, abriu o latão de lixo e depositou o saquinho. Voltou para o seu apartamento e
antes de fechar a porta despediu-se.
–
Boa noite, meu filho.
Quando estava entrando no
apartamneto a luz de emergência acendeu.
Comecei a procurar o que foi
derrubado dentro do apartamento. Aquela escuridão tornava dificil a
investigação, apesar da ajuda da lanterna. Porém ao chegar à sala de jantar, vi
uma luminosidade embaixo da mesa. Ao chegar perto, percebi que se tratava do
meu notebook que estava no chão.
–
Então foi isso....
Botei-o de volta em cima da
mesa. A bateria já estava no fim, isso queria
dizer alguém ficou utilizando-o por quase duas horas.
A tela estava na área de trabalho. Tentei identificar quais
telas ou programas teriam sido utilizados mas não obtive exito. Tentei acessar
a internet para tentar descobrir quais páginas foram acessadas e lembrei-me que
não conseguiria, pois o roteador estava desligado por conta da falta de luz.
Nisso a bateria deu seu último suspiro.
–
Continuei andando pela apartamento para saber se algo mais estava fora
do lugar.
–
Não encontrei mais nada, visivelmente. Foi aí que me ocorreu a idéia de
perguntar para o seu Djalma se ele tinha escutado ou visto algo. Se bem que
quando o encontrei na escada não havia comentado nada. Mas não custava tentar.
Saí do meu apartamento e bati na
porta dele. Escutei o passos do Seu Djalma andando de chinelos.
A porta se abriu e iluminado
pela vela no pires, seu Djalma me comprimenta novamente.
–
Olá, meu filho....estamos ultimamente nos visto bastante! Em que posso
ser-lhe útil?
–
O Sr, por acaso viu ou escutou algo no nosso andar, antes que eu
chegasse?
–
Acredito que não, meu filho...Dormi desde que a energia cessou e só
acordei para jantar há cerca de uma hora , levei o lixo para fora e você estava
na escada com cara de assustado. Aconteceu algo?
-Nada, nada...pensei ter ouvido
algo em casa antes de entrar...
-Não quis assustá-lo com uma
provável invasão.Boa noite, seu Djalma.
Voltei para casa e ao fechar a
porta do apartamento a energia voltou. Agora dava para ver o que realmente
tinha acontecido na minha ausência.
Na realidade após uma rápida
varredura só o meu notebook tinha
sido“molestado”. Nenhuma das fechaduras estavam forçadas, o que tornava o
episódio ainda mais estranho.
Liguei para o porteiro e
perguntei se alguém, que não fosse morador tinha adentrado ao prédio e saído
nas últimas horas. O mesmo disse que não.
Como não havia sinais de
arrombamento e nada havia sido subtraído e o pior, não vi ninguém, só ouvi,
achei melhor não ficar fazendo alarde.
Resolvi jantar somente uma maça
, pois naquela altura do campeonato eu não estava a fim de colocar nada no
microondas. Aliás, eu já estava farto de
comer aquelas mesmas coisas todos os dias. O meu fogão era mais um enfeite do
que um fogão propriamente dito. Em cima da tampa de vidro, quase sempre
fechada, havia um pano de prato, esticado, com as bordas feitas em croche.
Comprei de uma senhora num farol da Av. Brasil. Tanto ela me atormentou que eu
comprei. O pano era motivo de piada para o Hans cada vez que ele ia em casa.
Após o “jantar”, liguei para o
Hans.
-Vou-me atrasar. Depois te
conto.
Hans morava na Vila madalena,
perto da rua dos bares, quase em frente
ao cemitério em um predinho de 5
andares.
Quando cheguei ele estava
encostado no poste em frente ao prédio com o cachimbo na boca.
–
Ta fazendo ponto?rs
–
Para você. Só não beijo na boca.
–
Entra aí....
–
Olha o seu presente.
Ele havia comprado um vaso de
violetas africanas.
–
Muito obrigado.é pela promoção?
–
Lógico.Voce merece! E como andas?
–
Vai se levando....você não vai acreditar nas coisas que eu tenho vivido
nos últimos dias.
–
Por conta da promoção?
–
A promoção é algo normal de acontecer. Estou falando de coisas incomuns,
passos no meu apartamento, meu notebook ligado, jogado no chão...
–
Eu, hein?
–
Lá no café eu te conto.
–
Ok....
–
Com a chuva que caiu à tarde o povo resolveu ficar em casa e o café
estava praticamente vazio. Arrumei lugar na porta.
–
O que você vai querer?
–
Já que você que está pagando, deixa eu ver.....ah, um café....rs
Chamei o garçon.
-São dois cafés puros e uma
garrafinha de água sem gas, por favor.
-Me conta estou curioso para
saber sobre suas experiências sobrenaturais.
-Muito engraçado....Hoje, ao chegar
em casa, em plena escuridão, havia acabado a luz, escutei passos e algo caindo
dentro do apartamento. Quando abri a porta e fui buscar a minha lanterna na
lavanderia, seja lá quem era, saiu pela porta e sumiu pela escada.
- Você não foi atrás?
- Não...no momento em que saiu
pela porta, não mais escutei os passos....O mais engraçado é a que a luz do
Hall de serviço, não acendeu.
- Ué... mas não estava sem
energia o prédio? Não ia acender mesmo..
-Acende sim, por que é
alimentada pelo gerador e acendeu comigo quando cheguei.
- Deve ter dado algum defeito...
-Pode ser. Enfim, achei melhor
esquecer o assunto. Não vi nada e nem ninguém...Só o meu note book que estava
ligado, jogado no chão.
_ Beto, alguém estava lá dentro....
_Hans, não vi ninguém, só ouvi.
Nada mais estava mexido. As portas não estavam arrombadas. Pelo contrário, estavam trancadas
extamente como eu as havia deixado de manhã.
- Fique atento....pode voltar. Bom, Me
fale da sua promoção.
–
Comecei hoje no novo cargo. Salário triplicado.
–
Não se esqueça que salário triplicado implica em trabalho
quadruplicado.
Comentou.
–
Eu sei disso....mas o sacrificio de todos esses anos valeu a pena,
apesar de eu nunca ter esperado recompensa.Todo o sacrificio é digno de recompensa! Estou errado? O homem sempre
espera recompensas quando se sacrifica...e muitas vezes elas não vem.
–
Esse é o problema Beto. O homem sempre espera ser recompensado. Quer
sempre algo em troca. Sexta-feira eu fiz um trabalho interessante.Fora dos
padrões de costume .
–
Não diga....para ter mechido com você, deve ter sido algo fora de
série...
–
Veja só. O cara me ligou contratando meus serviços. Pedi para ele
mandar a foto por e-mail e o comprovante de pagamento. Até ai normal. O
problema foi o descritivo de como ele queria
a ornamentação do esquife e a disposição do seu corpo....rs
–
Vou me arrepender de perguntar, mas, Como era?
–
Ao invés de flores, são espinhos. A volta toda do corpo e embaixo dele
também. Os olhos devem ter as palbebras cortadas para permanecerem abertos e as mãos
devem estar presas com arame farpado. Os pés pregados um em cima do outro e a
boca com um lenço preto dentro.. O que acha disso?
–
Bizarro....o que ele pretende com isto?
–
Segundo ele o corpo vai pagar seus pecados enquanto a alma
descansa.....
03/06/2013
03/06/2013
–
Mas por que cortar as palpebras?
–
Desconfio que seja para que de a impressão que ele esteja sofrendo
vivo.
–
E o lenço preto na boca?
–
Para que não possa gritar.....
–
Mas vai estar morto....
–
Será?rs
–
E ele quer ser enterrado apenas com um pano em volta da cintura,
tapando as partes intimas. Como Cristo, quando crucificado.
–
Você já pensou em ganhar a vida abrindo uma loja de brinquedos , Hans?
–
Rs.....brinquedos adultos?
–
Desisto.Vamos mudar de assunto....Vou para Recife, graças a essa
promoção.
–
Quando?
–
Mês que vem.Vou visitar um laboratório que talvez se afilie ao nosso.
–
Grandes negócios. Voce sempre teve habilidade para unir forças.Quanto
tempo vai ficar lá?
–
Somente uns 3 dias....
–
Lembranças para o Padre Cicero.
–
Vou pedir para que ele te abençõe.....
–
Dispenso! Sexta feira vou fazer um risoto de funghi. Você está
convidado. Não gosto de comer essas comidas sofisticadas sozinho. Gosto de fazê-las.
Hans era um cozinheiro de mão
cheia.
–
Combinado. Eu levo o vinho. Vai ter mais gente?
–
Não, só nós dois. A bagunça é no Sabado...rs.
–
Você tem empregada?
–
Não. Eu cozinho e limpo, quer dizer, as vezes, limpo...rs
–
E a roupa?
–
Lavanderia uma vez por mês.
–
Uma vez por mês?
–
É uso a mesma camisa e calça a semana inteira. Pouco saio.
–
E as cuecas?
–
Não uso.
–
Que horror, Hans....
–
Opção de vida e economia. Você faz faxina na sua casa, lava as suas
roupas e passa?
–
Só não passo. Você já tentou passar uma camisa social? Deveria ter curso
superior para isso. Deixo com uma passadeira perto de casa. Minha comida é
industrializada. Ponho tudo no micro ondas. Mas já estou meio farto disso.
Quanto a limpeza, passo um pano nas coisas....
–
Eu já deixo a janela aberta e o vento leva a poeira.
A ironia de Hans era, as vezes,
irritante.
–
Estou com medo de ir a sua casa, Hans....Qual foi a ultima vez que
estive lá?
–
Não me lembro....
–
A cozinha você mantém limpa?
–
Bom, todas as baratas que eu vejo, dou uma sapatada...
–
Espero que você passe um pano na sexta-feira,,,,rs
–
Vou abrir a janela para ventilar....
Mais uma vez o tempo passou e
já era quase uma hora da manhã.
–
Vamos embora, Hans.
Paguei a conta enquanto Hans
dava umas pitadas em seu cachimbo, já do lado de fora do café.
Deixei Hans em frente ao seu
prédio,Despedi-me e fui embora.
Levantei mais cedo do que de
costume para conversar com o Osmar. Queria que ele procurasse uma empregada. Agora
ganhando mais, dava para arcar com esta despesa.
Estava esperando
o elevador e ouvia, às 6horas da manhã, o som da TV do seu Djalma. Ele que reclama do barulho da obra, a
tarde, não percebe que a tv está muito alta a esta hora da manhã?
Desci do elevador e o Osmar
estava lendo o jornal de algum morador que ainda não o tinha pego.
–
Bom dia Osmar.
–
Bom dia Dr
–
Deixa eu te perguntar...voce conhece alguem que precise trabalhar de
doméstica?
–
Para lavar, passar , limpar e cozinhar?
–
É...por ai....
–
Sempre aparece alguém perguntando por vagas...
–
Não quero essas pessoas que aparecem....quero uma que seja da sua
confiança.
–
Talvez lá no terreiro tenha
alguém interessado.
–
Onde???
–
No terreiro que eu e minha patroa frequentamos, Dr. Somos da Umbanda.
–
Ah, tá...Só não me traga encosto para trabalhar em casa...
A piada só teve graça para mim e
resolvi não estender mais o assunto.
Voltei para o meu apartamento e
preparei-me para ir trabalhar. Quando
saí pela porta, dei de cara com o Seu Djalma que estava prestes a tocar
a minha campainha.
–
Bom dia Seu Djalma. Levantou cedo, né? Escutei a sua TV, ligada....
Ele simplesmente não deu ouvidos
a mim e perguntou:
–
Quer horas o Sr chega?
–
Se o tempo ajudar umas sete horas já estou em casa...
–
Venho ver-lhe as nove. Tenha um bom dia.
Voltou-se de costas para mim e
adentrou no seu apartamento. Nem esperou eu retribuir o cumprimento .Entrei no
elevador e fui rumo ao trabalho
O novo cargo me rendeu alguns
amigos novos. Essas pessoas, durante muitos anos, só me davam bom dia e boa
tarde e agora me convidavam para tomar
café todos sorridentes. O ser humano é realmente um bicho interessante.
Suzana me interfonou.
–
Olá, Dr. Como está indo aí em cima?
–
Bastante coisa para fazer, mas sinto falta aí de baixo. O clima aqui é
muito formal. E a minha sala?
–
Esta fechada. Acho que vão contratar alguem para ficar lá. Ouvi dizer
em um assistente administrativo.
–
Ai, ai....lá vou eu ter que dar treinamento.
–
Ué Dr...por que o Sr? Mande alguém ...agora não precisa mais ficar
fazendo isso.
–
Mas eu prefiro, assim as coisas andam do meu jeito. O RH já está
selecionando?
–
Parece que sim. Vi um pessoal la fora para ser entrevistado.E Dr...
–
Sim?
–
Conversei com o meu filho a respeito de Sábado.
–
Ah, é? e.....
–
Ele adorou a idéia! Está louco para saber onde iremos.
–
Ainda não pensei nisso, mas até quinta feira eu te digo. Que boa
noticia!
Ficamos em silencio por alguns
segundos.
-Bom , Suzana, então estamos
combinados. Quinta feira te dou uma resposta.
-Ok, Dr...Obrigada....
Quando eu desliguei o telefone,
alguem bateu na minha . Era o chefe.
-Olá, Roberto, tudo bem?
–
Tranquilo Dr. Estou me adaptando à nova função.
–
Tenho certeza que consiguirá isso rapido.
–
Obrigado Dr.
–
Roberto estou fazendo umas mudanças na minha sala e algumas coisas
estão saindo dela.Dentre elas o quadro que fica atrás de mim. É um quadro
valioso e não quero me desfazer dele. Gostaria de coloca-lo aqui na sua sala.
Pode ser?
–
O quadro da três crianças?
–
Esse mesmo!Reparou nele?
–
Ele é chamativo....Parece que as crianças estão nos observando....
–
Então posso colocá-lo aqui?
–
Lógico...
–
Obrigado Roberto. Ah, não se esqueça da sua viagem daqui a quinze dias,
hein?
–
Pode deixar Dr.
–
Até mais...
Aquele quadro prendia demais a
atenção do seu observador. As crianças tinham um olhar profundo, como se quizessem
dizer algo...
O final do dia chegará e eu
estava cansado. A minha função agora era
bem burocrática ao contrário da antiga que era botar a “mão na massa”.
Fechei a minha sala e desci ao
terceiro andar para despedir-me de Suzana.
Cheguei em casa em tempo normal
e parecia que a chuva iria dar uma trégua de dois dias segundo o rádio. Estava
curioso para receber a tão esperada visita do Seu Djalma e numa pontualidade
britânica a campainha do meu apartamento tocou as nove horas.
–
Olá, Seu Djalma!
–
Olá, Meu filho....está de bom humor... Isso é ótimo!Posso entrar?
–
Lógico!
–
Sente-se. Vou buscar um café.
–
Não se incomode. Sente-se aí. Me conte como tem sido esses últimos dias
para você.
–
Ué...normais....trabalho, volto para casa....
–
Não aconteceu nada de novo ou diferente?
–
Bem, eu fui promovido e consegui marcar um encontro para este Sábado...
–
Muito bom. Se sente bem, fisicamente?
Seu Djalma nunca foi de muita
prosa comigo e nem com ninguém. Ou ele estava cada vez mais gagá ou estava se
sentindo carente.
-Me sinto muito bem seu Djalma...por
que tanto interesse pelo meu bem estar?
-Ora, prezo pelo meu
vizinho....afinal somos vizinhos de porta há tantos anos....
- Por isso mesmo...o Sr durante
todos esses anos nunca foi de muita prosa...
- Estou tentando melhorar,
apesar de tardiamente.
-Nunca é tarde para começar, seu
Djalma. Fico feliz com essa sua atitude. Venha me visitar mais vezes.
_Virei, meu filho. Estarei
sempre aqui do lado se precisar de algo.
Achei estranha a afirmação, pois
era mais provável que ele precisasse de mim do que eu dele.
- Obrigado. O Sr também pode
contar comigo.
Levantou-se da cadeira e antes
de sair de casa colocou as duas mãos nos meus ombros, beijou-me no rosto e
sussurou ao pé do meu ovido:
–
Que Deus fique com você.
–
Amém...
Naquela noite eu não dormi bem.
Acordei vária vezes e tive o mesmo
pesadelo a noite inteira.Um dos maiores culpados era o Hans. Aquela história do cliente dele tinha
me impressionado e o meu cérebro conseguiu
juntar tres assuntos distintos e formar o enredo para um belissimo pesadelo. O
cliente do Hans, o nosso acidente na Imigrantes e o Seu Djalma.
Eu nunca tinha sonhado com o
acidente depois de tantos anos.
Eu e Hans estávamos indo para
Santos em um feriado prolongado. Lá encontrariamos outros amigos e iriamos para
um apartamento de um deles. Fomos no meu carro, num Sábado, de madrugada. O feriado seria na segunda
feira, não me lembro qual feriado era.
Apanhei Hans em casa e seguimos viagem.
Na estrada não havia problemas
de visibilidade, não chovia, sem neblina e a estrada estava com pouco tráfego.
Íamos a 100/110 Km/h tranquilamente. Passamos pelo pedágio e começamos a descer
a Serra.
Passado o primeiro túnel,
lembro-me ter comentado com Hans para que trocasse o CD. Nesse instante, na
boca da saída do túnel, um carroceiro, apareceu do nada pelo lado esquerdo,
saindo de alguma área de descanso e se
pôs na pista. Não dava para entender, como ele chegou a aquele ponto da serra e
a polícia rodoviária não viu....
Lembro-me que não deu para ver o
seu rosto, a cabeça estava encapuzada.
Para não atropelar o infeliz,
joguei o carro para a direita. Foi nesta manobra que eu perdi a direção e bati
no barranco do outro lado da pista. Com a batida a 100 Km/h o carro capotou. A
primeira capotagem eu lembro, depois não vi mais nada.
Acordei no hospital em um quarto
onde ao meu lado direito estava alguém, desacordado, com a cabeça totalmente
enfaixada. Do meu lado esquerdo uma janela que mostrava a parede do prédio ao
lado.
Depois vim a descobrir que a
pessoa ao meu lado era o Hans que havia sofrido traumatismo craniano.
No meu sonho, Hans havia morrido
eu estava no seu velório, porém só eu estava lá.Isso já era assustador, porém o
que piorou o pesadelo foi que a descrição que ele havia dado do cliente dele
dentro do esquife, era como ele estava. Caixão cheio de espinhos, pulsos
amarrados com arame farpado, palpebras cortadas, pés pregados e ao invés do
lenço preto, descritos pelo Hans, dentro da boca havia um papel amassado.
Nesse momento, Hans começou a gritar em desespero tentado se soltar do
arame farpado e do prego no seus pés. Quanto mais ele se mexia, mais ele se
machucava nos espinhos e o sanghe escorria. Eu estava aterrorizado, quando de
repente uma imagem que emanava uma forte
luz branca, que se colocou entre nós dois,
se virou para mim e disse:
–
Saia daqui!
Após dizer isto, se virou e foi empurrando aquele esquife enquanto Hans
ainda berrava.
Acordei com os batimentos
cardíacos acelerados. olhei o rádio relógio. 5h da manhã.
Levantei-me e comecei a rotina
diária para ir trabalhar. No caminho para o trabalho, não conseguia tirar
aquele sonho da cabeça.
Ao chegar no laboratório, subi
direto para a minha sala sem passar pelo terceiro andar, como de costume, para
cumprimentar Suzana.
Sentei-me na cadeira e por
alguns instantes cobri os os olhos com as mão para dar uma relaxada. Ao tirar
as mão dos olhos vi que na parede em
frente a minha mesa, o quadro do Dr Andre já estava pendurado com as três crianças olhando para mim.
Observei-os por alguns segundos, dei um suspiro e comecei
o meu dia.
Por volta das nove horas meu
telefone toca. Era Suzana.
-Bom dia Dr....Não passou por
aqui para me cumprimentar. Esqueceu-se dos pobres?rs
-Ah, Suzana...me perdoe....não
tive uma boa noite de sono. Tive um pesadelo que até agora me atordoa...
-Desculpe, Dr, não queria
incomodá-lo.
-Imagine Suzana,você não me
incomoda. E como estão as coisas por aí?
-Estou bem Dr. Ontem meu filho
me perguntou se o Sr já escolheu o lugar onde iremos no Domingo...
Eu tinha esquecido completamente
o assunto e inventei uma desculpa.
-Estou em dúvida em três
lugares... Todos eles o seu filho vai adorar...
-Fazia tempo que eu não via tão
entusiasmado, Dr...
–
Pelo o que você me contou, seus programas de finais de semana são sempre
os mesmos...Não me admira uma simples mudança deixa-lo ouriçado....
–
É verdade Dr. É que a gente vai se acomodando com a situação.
–
Esse final de semana vamos começar a mudar isso...
–
Quer dizer que poderá haver outros passeios?
–
Bom.....se esse for aprovado e se
gostarem da minha companhia...
–
Ah Dr, difícil não gostar de ficar em sua companhia.....
Ai ela se engasgou. Falou algo
que talvez ainda não fosse o momento de falar.
06/06/2013
06/06/2013
–
Bem...eu..tenho que voltar para o trabalho....Os engenheiros estão
atrás de mim....até logo Dr.
Desligou o telefone antes que eu
pudesse me despedir.
-Preciso pensar em algo, até
quinta feira....
Passei o dia despachando. Não sabia que era tão
chato ser promovido.Eu andava mais no meu outro cargo, agora a maior parte do
tempo eu ficava enfiado naquela sala. Resolvi dar uma volta pelo laboratório .
É engraçado como as pessoas me
viam com outros olhos. Ficaram mais formais, as brincadeiras cessaram, na
verdade o que eu sentia era que todos passaram a ter medo de mim. Eu nunca
pensei que pudesse causar esse sentimento em alguém. Preferia como era antes,
quando tinha um relacionamento bem mais amigavel, mas talves fosse uma questão
de me habituar à nova realidade, ou eu não tinha o menor perfil para um cargo
de liderança..
Uma outra vantagem, além do
aumento de salário, era que eu não precisava mais bater cartão. Tinha meu horário
pré estipulado de entrada e saída, mas não precisava documenta-lo e naquele dia
eu iria usufruir desta vantagem. As cinco e meia resolvi ir embora. Estava
assonado pela noite mal dormida.
Voltei para a minha sala juntei
os meus pertences e comuniquei a Sueli
que estava indo embora.
Desci para o terceiro andar e
fui me despedir de Suzana.
–
Tchau, Suzana, vou embora . Essa noite mal dormida acabou comigo.
–
Aproveite para dormir mais cedo Dr. Belo pesadelo o Sr teve, hein?
–
Nem te conto....até amanhã.
Naquele dia cheguei em casa no
horário em que geralmente saia do trabalho, seis e meia.
Se eu deitasse na cama com
certeza eu apagaria, porém com eu
acordaria pela madrugada. Tinha que
enrolar pelo menos até umas nove e meia. Ainda tinha que fazer o jantar. Já
estava farto de ter que cozinhar todos os dias, ou melhor esquentar aquelas
comidas congeladas.
–
Será que o Osmar já tem alguma resposta para mim?
Na portaria, o interfone toca.
–
Portaria, boa noite...
–
Oi, Osmar, é o Roberto do 51.
–
Boa noite Dr.
–
Osmar, você conseguiu alguém para trabalhar aqui em casa?
–
Ah, Dr., tinha me esquecido....Minha mulher tem uma tia que está vindo
da Bahia no final deste mês. Vem de mala e cuia.
Incrível como sempre tem alguém
que conhece outro que vem da Bahia. Ri comigo mesmo.
–
Sei...sabe lavar, passar, cozinhar?
–
Com certeza, Dr!.
–
Qual a idade dela?
–
Não sei a idade certa mas tem mais de 50...
–
Ótimo, mulher com mais idade é sossegada.
–
E o salario Dr?
–
Para começar salário mínimo mais casa e comida.
–
É..para quem está vindo sem nada, está bom demais...
–
Traga ela aqui quando chegar, para conversarmos.É de sua confiaça?
–
Tranquilo Dr. Conheço ela desde que me casei. Mais de 20 anos.
–
Ok....Obrigado Osmar!
Desliguei o interfone e esquentei
uma das prováveis ultimas lasanhas industrializadas que eu comeria.
Após o jantar liguei para o Hans
para contar-lhe o que ele tinha provocado na minha noite de sono.
–
Boa noite Dr. Agora, com a promoção, devemos respeitar a hierarquia...
–
Sabia que voce é um viado?
–
Tenho varia testemunhas que podem dizer o contrário.E por falar nisso
estou trabalhando para um cliente bambi....Quer saber como vai ser o caixão dele?
–
De jeito nenhum! Depois vou ter outro pesadelo com uma bicha morta me
agarrando.
–
Rs....Outro pesadelo?E o que eu tenho a ver com o primeiro?
–
Aquele seu cliente maluco que quer ser enterrado no meio dos
espinhos...
–
O que tem ele?
–
Sonhei com esse infeliz....Só que ele era você.
Silencio do outro lado.
–
Voce me escutou, Hans?
–
Ah, sim, sim, é que voce me deu uma idéia....
–
Ai, Ai....
–
Nunca tinha pensado em me ver morto num esquife....
–
Você é louco....
–
Vou trabalhar nisso...mas voce parece criança que vê filmes de terror e
depois tem que dormir com a luz acesa...rs.
–
Voce só me ligou para me xingar?
–
Tinha que desabafar com o causador
do meu pesadelo.
–
Bom, hoje quando você for dormir, ajoelhe-se no pé da cama e reze um pai
nosso....quem sabe isso afasta seus pesadelos.
–
Cheio de graça, você....
–
Rs....Não se esqueça de sexta feira. Amanhã vou comprar os ingredientes.
–
Pode deixar.E não compre o vinho.
–
De jeito nenhum....E a sua namorada?
–
Ela não é minha namorada.....Vai bem. Preciso ver onde vou levá-los no
Domingo....
–
Você tem que pensar na criança. Agradando o moleque, estará
agradando-a.
–
Não tinha pensado nisto....
–
Pois é.....tenho prática no assunto. Já pensou no Zoológico? Divertido
e barato....
–
Grande idéia!!! Fico lhe devendo essa!
–
Como já disse anteriormente, só estou anotando....
–
E, como o seu “alegre” cliente quer ser enterrado?
–
Ué...mudou de idéia?
–
Você me animou....
–
O cara é cheio da grana. Ele quer um caixão de acrilico preto, todo
redondinho. Foge do padrão
que conhecemos. Só ai, o cara já vai gastar uns 50 mil.....Terei que projetar o
esquife da figura. Desse 50mil, eu to cobrando 15 pilas.
–
Para quem está projetando algo novo, ta bom o preço. E por dentro?
–
Ai vem o melhor....Ele quer que encha de bolinhas de natal. Aquelas que enfeitam as arvóres,
todas rosas....Ele tem certeza que vai morrer em Dezembro.
–
Que maluco...E a roupa?
–
Um terno vermelho, camisa branca, sapatos pretos e uma gravata vermelha.
–
Por que já não enterra com roupa de papai Noel????rs...Mete uma barba
postiça e o gorrinho. Entre as mãos um saquinho vermelho, cheio de balas...
–
Ora, ora...estou arrumando um concorrente?rs
–
Cada um que aparece....O que teremos de sombremesa na sexta?
–
Que tal maças do amor para comemorar sua saída no Domingo?
–
Voce esta com inveja, mas eu gosto de maças do amor. Manda ver.
–
Deixe comigo.Vou caprichar....
–
Meu amigo, vou dormir. Como disse antes, dormi mal a noite graças a
você.
–
Não se esqueça do pai nosso, ajoelhado no tapetinho do lado da cama.
Vai saber se não vai sonhar com o meu
cliente te enchendo de beijos? Isto seria sonho ou pesadelo?rs
–
Eu, hein...rs
–
Abraços....
Aquela noite dormi bem. Se
sonhei, não recordei com o que.
No dia seguinte, no laboratório,
a vida continuava. Aquele dia, em particular, as coisas estavam mais calmas. O
que eu tinha que resolver fiz ainda na parte da manhã. A tarde prometia ser
tediosa.
Em um momento de relaxamento, me
estiquei na cadeira e recostei-me, colocando as duas mãos atrás da cabeça.
Fiquei observando o quadro que de certo modo, também me observava. Após algum
tempo levantei-me e fui vê-lo mais de perto. Procurei pelo nome do artista, mas
não achei em nenhum lugar.
–
Um quadro valioso sem sequer ter o nome do artista?
Outro detalhe que eu só percebi
quando tirei-o da parede para procurar alguma assinatura, foi o fato dele ter
sido pintado em um pedaço de madeira e não em uma tela como habitualmente eu
estava acostumado a ver.
O que dava para perceber com
certeza era que se tratava de uma pintura muito antiga. A moldura era de
madeira trabalhada e não aparentava ter sido restaurada.
Coloquei-o de volta e
centralizei-o.
Desci ao terceiro andar para
contar a Suzana o que eu tinha resolvido a respeito do nosso passeio no
Domingo.
Ela estava de costas atarefada
no computador. Cheguei de mansinho e sussurei no seu ouvido.
–
Olá...
Seja lá o que for que ela
estivesse fazendo, o susto foi grande.
–
Ai, Dr!!! quase infartei...
–
Você é muito nova para isso. Então, já decide onde vamos no Domingo.
–
Que bom! Onde iremos?
–
No Zoologico, como programa principal.O que você acha?
–
O Lucas vai adorar!Nunca foi....O máximo que ele chegou perto de um
lugar assim foi no Parque na Agua branca, onde alguns animais ficam soltos. Mas,
o Sr. Falou como programa principal....onde iremos, depois?
–
Almoçar , oras...
–
Ah Dr, mas aí já é demais.
–
Nada disso, programa completo. Depois você me dá o seu endereço para ir
busca-los.Fechado?
–
Tudo bem....fechado!
Despedi-me e fiquei até o fim do
dia correndo o laboratório para ver o fluxo de trabalho que um dia fôra meu e
que hoje estava nas mãos de alguns
estagiários.
As seis e meia quando já estava
fechando a minha sala, escutei o primeiro trovão. Lembrei-me do noticiário que
alertava sobre o temporal dentro de dois dias. Acertaram em cheio.
Após duas horas de tortura no
trânsito debaixo de chuva, cheguei em casa.
Liguei a tv como de costume e deixei-a mais alto enquanto ia para a cozinha
esquentar algo para comer. Lembrei da
prima do Osmar, ou seria da mulher dele? Já estávamos praticamente entrando em
Dezembro. E parece que ela chegaria no final desse mês...
–
Amanhã de manhazinha eu falo com ele...
Lá da cozinha eu escutava o
noticiario. Arvores caidas, ruas alagadas, trânsito caótico ainda até aquela
hora, quase nove horas da noite.
Voltei para a sala com um prato
cheio de nuggets, ketchup e um copo de refrigerante.Sentei-me no sofa e
continuei a ver o jornal da TV. Agora eles estavam na ponte das bandeiras
mostrando a situação da Marginal Tiete. Enquanto o repórter falava a respeito
do transito, a camera mostrava os dois lados da marginal parados. Foi quando eu
vi um pontinho de luz no meio do rio, que se movia em direção à camera. Ele foi
se aproximando e na minha curiosidade de poder enxergar melhor o que seria,
fui-me levantando da poltrona e me aproximando da TV. Quando já estava a uma
distancia de meio metro, vi que que aquele ponto luminoso era a iluminação
daquela jangada que eu havia visto anteriormente. A medida que se aproximava da
camera via-se a mesma figura com uma
vara guiando a jangada de cabeça baixa. Ao aproximar-me mais para tentar
ver melhor, aquela figura levantou a
cabeça e olhou para a camera como se estivesse me encarando. O que eu vi foram
apenas dois pontos brancos brilhantes no lugar dos olhos ou seriam os olhos
mesmo. Incrivelmente nem a reporter nem o cinegrafista deram conta daquela cena
singular no rio.Enquanto ainda eu olhava
para aquila figura e parecia que ela, também me olhava, a TV desligou por si só. Tentei religá-la mas
não funcionou.
–
Queimou, essa porcaria......também, tem mais de 10 anos....
Vendo que não poderia mais
desfrutar da companhia do meu
eletrodoméstico, resolvi preparar-me para dormir e tentando imaginar oq
eu aquele maluco tornava afazer no meio daquele rio fétido.
Programei o despertador para tocar mais cedo e assim
falaria com o Osma, que chegava as seis
horas.
Não tive pesadelos a noite,
porem acordei uma única vez com aquela sensação de repuxo nas extremidades dos
meus dedos da mão direita, só que desta vez
senti formigamento também.
Quinze para seis o rádio relógio
toca. Dei aquela enrolada na cama de cinco minutos e levantei-me. Após as
rotinas de todo ser humano ao acordar, interfonei para a portaria.
–
Bom dia Osmar.
–
Bom dia Dr. Aconteceu algo? Ligando tão cedinho...
–
Cadê a sua prima que vinha da
Bahia?
–
Ah Dr, Eu vou pegá-la na Rodoviaria no Domingo a noite. Ela é tia da
minha mulher....
–
Bom, Não esqueceu do meu interesse em contratá-la?
–
Não, Dr..Ja até falei com ela a
respeito....
–
Ah, que bom....traga-a na segunda-feira, então...
–
Pode deixar Dr. Quer horas?
–
Se não cair nenhum temporal a tarde, lá pelas sete e meia eu já estarei
em casa.
–
Tudo bem...umas oito nós aparecemos. Se o Sr atrasar, nós esperamos.
–
Ok, obrigado.
Desliguei o telefone e fui me aprontar para sair.
No trabalho, resolvi marcar uma
consulta médica. Estava começando a me preocupar com os sintomas que eu tinha
na mão. Marquei pelo convênio na sexta feira, final da tarde, com o clínico
geral.
Liguei para Suzana para dar-lhe
bom dia. O telefone tocou várias vezes e ninguém atendeu. Resolvi alguns
problemas e as dez horas, desci para cumprimentá-la. Ela não estava na sua
mesa. Notei que a mesa estava arrumada, isso queria dizer que ela ainda não
tinha chegado.
Para tirar a dúvida bati na
porta do escritório de um dos engenheiros.
–
Ola Flávio....Tudo Tranquilo?
–
Olá, Roberto! Ainda não lhe dei parabéns pela promoção!
–
Ah, muito obrigado...
–
Precisamos sair e tomar uma cerveja para comemorar!
–
Vamos marcar.
Como eu havia dito antes, a
quantidade de amigos que eu fiz após a minha promoção, foi incrível...
–
O que você manda, Roberto?
–
Você sabe da Suzana?
–
Sei, sim. Ligou dizendo que o filho estava doente e que não viria hoje.
–
Então está explicado.Obrigado!
–
De nada Roberto. Depois eu ligo para combinarmos!
–
Ok..
Eu poderia arrumar o telefone da
casa dela ou celular, no RH, para saber o que tinha acontecido, mas achei
melhor esperar o dia seguinte e falar pessoalmente.
Subi novamente ao quarto andar e
depois de pegar um café, quando ia abrindo a porta do meu escritório, ouvi algo sendo arrastado lá dentro. Poderia
ser a faxineira, mas eu trancava a porta
toda vez que me ausentava do andar , por conta de pequenos furtos que haviam
ocorridos no prédio.
Destranquei a porta e desta vez
abri de uma vez só. Não havia ninguém
dentro. Estava tudo intacto. Sentei-me na cadeira e como não havia achado nada
de diferente, abri meu e-mail. Respondi alguns e outros tive que usar o
telefone para entrar em contato, pois por e-mail não tiraria as duvidas do
cliente. Muitas vezes a informalidade de uma conversa com o cliente gera uma
fidelidade maior com a nossa empresa.
Em um desses telefonemas me
recostei na cadeira e tinha criado o hábito de observar o quadro das três
crianças enquanto eu conversava. Foi ai, que me deu um calafrio.O quadro estava
pendurado por um dos vértices, ou seja , estava completamente torto na parede,
como se alguém o tivesse devolvido as pressas ao prego. Eu sabia que não estava
assim antes de eu voltar para a sala, pois já havia olhado para ele e como eu disse,
trancava a porta todas as vezes que eu
me ausentava.
Terminei de falar com o cliente e fui ver de perto o que tinha
acontecido. Tirei-o da parede e tornei a colocá-lo na posição correta. Achei
melhor não tentar entender como aquilo tinha ocorrido. Talvez nunca descobrisse,
ou fosse melhor não descobrir, porém estava ficando intrigado com a série de
eventos que estavam acontecendo, comigo em um curto espaço de tempo.
Findado mais um dia, voltei para
casa.
Chegando, liguei o aparelho de som, já que a TV havia pifado, sintonizei
em uma rádio de musica clássica. Quando jovem, gostava de rock. Engraçado com
os gostos mudam com o passar dos anos.
Fui para a cozinha e abri a
ultima caixa de lasanha que eu tinha.
Enquanto observava o meu jantar esquentar no microonda igual a cachorro que fica olhando frango assando na
padadria, escutei uma confusão sonora na minha sala. A música clássica estava
se misturando com outros sons. Alguém que falava e eu não conseguia entender nada o que dizia.
Fui até a sala e para a minha
surpresa, a minha TV esta funcionando. Passava o noticiário local.Apesar de
achar estranho fiquei feliz pelo ressireição da minha TV. Eu gostava dela.
Desliguei o aparelho de som e
fui buscar o meu jantar.
Sentei-me na poltrona e a ultima
coisa que me lembro é que após ter comido, assisti o começo de um filme na TV.
Dormi por ali mesmo.
Acordei de madrugada na
poltrona. Na TV passava um programa religioso. Olhei no relogio, eram três
horas da manhã. Desliguei a TV e levantei-me para levar a louça suja para a
cozinha.
No caminho para a cozinha eu
levava o prato e os talheres na mão direita e o copo na esquerda. Quando eu ia
depositar tudo dentro da pia, minha mão direita começou a formigar e mais uma
vez senti repuxar todas as extremidades dos meus dedos, só que desta vez o
sintoma foi muito mais forte, a ponto de eu deixar cair o prato no chão. Olhei
para a minha mão e as minhas unhas, todas elas, estavam sangrando na cuticula e
as pontas dos dedos ficaram roxas.
Alguns segundos após, escutei
passos na minha sala. Corri para lá e, óbvio, não tinha ningém. Preocupado com
a minha mão, que agora doia, esqueci esse episódio, peguei a chave do carro, passei um lenço em volta da mão e
fui para o pronto socorro.
10/06/2013
10/06/2013
Dentro do consultório o médico,
que provavelmente estava dormindo haja visto o cabelo despenteado a camisa amassada e o bafo, sentou-se em sua
cadeira, pegou uma folha de sulfite em branco da gaveta da mesa e puxou uma caneta do bolso.
- O que o há de errado com o Sr.?
Mostrei a minha mão e resumi os
fatos.
–
O Sr. prensou os dedos em algum lugar?
–
Não...
–
Todas as suas unhas estão deslocadas. Por isso o sangramento. E o
diabetes como anda?
–
No último exame de sangue que fiz, há uns três meses , estava normal. O
que tem a diabetes com a minha mão?
–
Poderia explicar esse roxo nas extremidades....estranho...Vamos tirar
um RaioX.
– Desconfia de algo Dr? Não é a primeira vez que me acontece. Só que
das outras vezes o sintoma foi bem mais ameno. Só um repuxão e o formigamento.
–
Você não sofreu nenhum traumatismo, diabetes normal, talves um problema
circulatório explicaria o roxo dos dedos, mas essas unhas deslocadas....
Ele pensou mais um pouco, olhou
para mim fixamente e perguntou;
–
O Sr. Possui algum hábito não convencional, cometeu auto flagelo, usou
drogas, foi torturado, ou algo do gênero?
–
Nada disso, Dr.
–
Entendi...Volte aqui com o Raio X.
A dor tinha melhorado, mas a mão
tinha ficado sensível. Eu mal podia dobrar os dedos.
Voltei com o Rx . A vantagem de
ser ir ao hospital de madrugada é a rapidez com que se resolve as coisas. Em 15
minutos eu já estava com o raio x nas mãos e batendo à porta do consultório.
–
Pode entrar.
–
Com licença. Aqui está Dr.
Ele pendurou o filme no
negatoscópio, observou por algum tempo e concluiu.
–
Sem fraturas, esmagamento...Vou te receitar um anti inflamatório. Vai
tomar aqui mesmo, na veia .Vamos proteger essa mão com uma faixa.
–
Posso ir trabalhar Dr?
–
Pode, mas mantenha a mão em repouso, durante alguns dias.
–
Eu já tinha marcado uma consulta com o meu médico, para hoje, final da
tarde Dr.
–
Ótimo. Leve o Raio X. Aqui está a receita. Vá até a enfermaria e
entregue-a para ser medicado.Estou receitando um analgésico para você tomar em
casa.
–
Obrigado Dr.
Fiquei mais uns 45 minutos na
enfermaria, tomando a medicação.
Enquanto esperava o frasco de
soro acabar, fiquei observando o que acontecia ao meu redor, já que não me
restava mais nada a fazer.
Do meu lado direito uma jovem,
não mais de 20 anos, cochilava enquanto, também, tomava algum remédio
intravenoso.
Do meu lado esquerdo um senhor
já com os seus setenta anos, fazia
inalação e de minuto em minuto tossia uma tosse molhada bem secretiva. Ao notar
que eu o observava, tirou a máscara fitou-me nos olhos e com um sorriso amarelo,
exclamou:
- Tem um cigarro?
- Não senhor, não fumo e acho
que aqui não é permitido fumar.
- Não é para agora. É para
quando eu sair.
Não pude evitar a pergunta.
-Essa inalação, não é por conta
do cigarro?
- Não...é por causa da gripe.
Nisso, escuto a garota do meu
lado dizer baixinho:
-Ele tem enfizema. Ouvi a enfermeira conversando com o médico
enquanto preparava a inalação.
Quando voltei o olhar para o
idoso ele havia adormecido.
- E você , o que aconteceu? – Me perguntou.
Não quis entrar em detalhes e
apenas disse que estava com uma crise de tendinite.
_ Sei...minha mãe tem isso.
Muito computador.Ela é escriturária aqui no hospital.Vira e mexe trava a mão
dala.
-E você ? Tão nova e tomando
soro....
- Gastrite nervosa, dizem os
médicos. Não é difícil eu tomar soro com medicamento para tirar a dor.
Naquela idade e com gastrite
nervosa.
- Mas, nervosa com o que?
- Ainda não descobri, mas deve
ser por conta do meu padrasto.
-Por que?
- As vezes ele me bate. Chega
drogado de pedra em casa e vai dando porrada em todo mundo.
- Meu Deus...tem que internar
ele em alguma clínica, denunciar...
- E quem consegue? Foge, e volta
mais violento.
Nisso o que me pareceu ser a mãe
dela, apareceu.
- Oi querida. Já está melhor?
- Estou sim. Estava conversando
com o moço. Sabia que ela também tem tendinite?
A mulher já com seus cinquenta
anos, virou-se para mim e sorridente me cumprimentou.
-Boa dia. Sou a mãe da Clara.
- Bom dia. Estávamos jogando
conversa fora para passarmos o tempo.
-E sobre o que conversavam?
Nisso, a menina respondeu
rapidamente.
- Ah, mãe, sobre tendinite.
A mulher estendeu o braço para
mexer na válvula do equipo. Foi quando vi um grande hematoma que apareceu por
debaixo da manga da sua blusa, na altura do pulso. O hematoma era claramente
formado pela marca de dedos.
-Filha, já está acabando. Pelo
horário nem vou voltar para casa.
- Tudo bem mãe.
- Moço, obrigado pela conversa.
O tempo passou mais rápido.
- Imagina....também gostei do
papo.
Despediram-se de mim e saíram da enfermaria.
O Sr.ao meu lado, agora,
roncava.
Imaginem só ser espancado por
alguém que chega em casa drogado.Fiquei pensando no que aquelas duas sofriam,
mas também não entendia por que não
fugiam, sumiam. Sei, lá, o ser humano é muito estranho.
A enfermeira chegou perto de mim
, olhou o frasco de soro e questionou-me:
-A dor passou?
-Sim, melhorou bem!
- Ótimo. O remédio acabou. Se o
médico o liberar, pode ir embora..
Sai do Hospital quase cinco e
meia da manhã. Fui para casa para me preparar para o trabalho apesar da noite
mal dormida e da mão dolorida, se bem que ela havia melhorado bastante com a
medicação.
No Hall de entrada do meu
apartamento, escutava novamente a TV do seu Djalma, em volume alto.
Tomei um banho, me vesti e
pus-me a caminho do trabalho.
Ao chegar no laboratório, a
primeira coisa que fiz foi subir ao terceiro andar para falar com Suzana.
–
Bom dia Suzana!
–
Bom dia Dr...O que houve coma a
sua mão?
–
Na realidade nem eu sei. Mas doeu
bastante. Hoje no final da tarde tenho médico marcado. E o Lucas?Como
está?
–
Ah, o Sr ficou sabendo?
–
O Flavio me contou. O que ele teve?
–
Ninguém sabe...um febrão. Agora já está bem melhor. Esta em casa, nem a
escola foi. Só fala no passeio de Domingo.
–
Será que vai dar para ele ir?
–
Os médicos disseram que poderia ser uma virose. Acho que iremos, sim . Só
se ele tiver uma recaída.
–
Por falar nisso, me dê o seu endereço.
–
Posso passar-lhe por e-mail? Assim eu dou umas dicas de como chegar.
–
Tudo bem. E aqui, tudo tranquilo?
–
Tranquilo até demais Dr. Esses engenheiros ficam trancados o dia
inteiro nas salas.Só me ligam para pedir algo. Tem dias que acabo o serviço
mais cedo e fico um tempão aqui sozinha.
Chega a dar medo.
–
Quer dizer que eu agitava o andar?rs
–
Ah, Dr..com certeza....E...a sua nova secretária? É melhor do que eu?rs...
–
Pouco falo com ela. Você sabe que não sou de ficar pedindo as coisas.
Também achei-a meio arrogante. Você a conhece?
–
As vezes a vejo no estacionamento. Mas nunca conversei com ela.....é
uma mulher bem atraente....não acha?
–
O visual não é tudo.E....você também é muito atraente.
–
Estou velha, Dr...
–
Eu diria madura.
–
Por que nunca se casou Dr?
–
Acho que não encontrei a pessoa certa. Tive alguns relacionamentos, mas
nada duradouro. Me dediquei muito ao trabalho, sei lá....a vida foi
passando....
–
Sei....Ou será que o Sr é muito exigente?
–
Acho que sou mais chato que exigente.
–
Como assim?
–
Tenho minhas manias, que estão mais acentuadas com a chegada da idade.
As vezes nem eu me aguento....
–
Todos nós temos manias, Dr. O segredo é um respeitar as manias do
outro, coisa que geralmente não
acontece. Ai, os conflitos aparecem entre os casais. O respeito e o diálogo são
a base de tudo, não só do casamento, mas também da amizade, do trabalho, da
família. O problema Dr, é que respeito e dialogo , já não fazem mais parte do
nosso cotidiano. O amor virou um negócio, não é mais um sentimento.
Fiquei pasmo com as declarações
de Suzana. Talvés aquele raciocínio fosse fruto das experiências que ela teve
com relacionamentos anteriores, ou até mesmo com o seu falecido marido. Diante
daquela pequena aula sobre
relacionamento humano, não me restou mais nada a dizer a não ser
concordar com a cabeça.
–
Que cara é essa Dr?rs.
–
Hã.? nada … desculpe....estou impressionado com o seu modo de pensar.
–
È o que eu acho.
–
E sabe o que gera tudo isso, Suzana? A ganância descontrolada do ser
humano por dinheiro e poder.
Nós vamos nos extinguir por conta dessas duas coisas....
–
Tenho fé em Deus que isso não vai acontecer Dr. Ele vai interceder por
nós. Já fez isso uma vez, vai fazer de novo.
–
Tomara., tomara....Bom, vou para o meu escritório. Tenho que começar a
ver as coisas para a minha viagem para Recife.
–
Que beleza, hein Dr? Recife.Não quer companhia?rs
–
Vou a trabalho, só três dias.
–
Pelo menos foge da rotina, Dr.
–
A minha rotina já está alterada há algum tempo....
–
Por que?
–
Domingo, eu te conto com calma.
Despedi-me e subi para o meu
escritório.
Antes de destrancar a porta, pus
a orelha bem perto dela, imaginando que talvez eu voltasse a ouvir passos ou
sei la o que. Silêncio absoluto.Entrei devagar e não havia nada anormal. O
quadro estava do mesmo jeito que eu havia deixado no dia anterior.
Liguei para o Dr André para termos a reunião a respeito da viagem.As duas
horas ele me atenderia.
Posso afirmar que é extremamente
desagradável não dispor de uma das mãos. Tudo fica mais difícil, inclusive
escrever. Tentei mas não consegui. As pontas dos dedos doiam quando empunhava
uma caneta. No computador o jeito era “ catar milho”. E para ir ao banheiro,
então? Uma tragédia....
Na hora do almoço, nada de usar
a faca. Eu Parecia criança pedindo para cortarem as coisas para mim e isso
perduraria por uma semana. Somente um dia antes da minha viagem eu tiraria a
imobilização.
As duas horas fui a sala do Dr
André. Definimos o que eu deveria avaliar na visita e qual seria a proposta a
apresentar e ouvir a contra proposta. A única coisa que eu não poderia deixar
transparecer era que queríamos de qualquer jeito nos unirmos a eles.
Após a reunião, pedi para Sueli
fazer as reservas de vôo e hotel.
Terminei o dia despachando
alguns documentos e as quatro e meia fui embora rumo ao médico.
Apesar de sair as quatro e meia
da tarde, o transito já era compatível com o do final do dia.
A consulta era perto de casa, as
cinco e meia e pelo visto chegaria em cima da hora.
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